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Pe. Éder - "A minha vocação não pertence a mim mesmo"

Padre Éder Carvalho fala sobre missão, vocação, suas experiências na Prelazia de Lábrea e seu chamado para a missão de combate à fome na África.

O senhor postou no Facebook a frase: Ir é o que me faz permanecer. O que ela significa?

Ela representa a minha história vocacional missionária. Este mês eu completo oito anos de padre, mas já há mais de 12 anos eu estou na experiência missionária na Igreja-irmã de Lábrea. Quando eu estava me preparando para a ordenação sacerdotal, eu pedi ao bispo de Lábrea, Dom Jesus, que depois de 5 anos de padre eu pudesse fazer uma experiência na África, em Moçambique ou Angola por causa da Língua Portuguesa. Em 2011 houve aquela grande crise humanitária na Somália, onde muitas pessoas morreram de fome, e a CNBB lançou uma campanha nacional junto com a Cáritas, SOS África. Naquela campanha eu percebi que a voz de Deus estava me falando não para escolher o país que eu desejava, mas para dar uma resposta àquela Igreja, àquele povo que necessitava, então Deus escolheu aquele povo da Somália. Essa frase é justamente nesse sentido, somente o ir, o ide missionário, me faz permanecer naquilo que eu sou, na opção vocacional, na opção missionária. Se eu não for, eu vou deixar de ser, no sentido de não cumprir aquilo pelo qual eu me consagrei. Por isso que ir é o que me faz permanecer.

O senhor já atuava em Lábrea, que é terra de missão. O que o faz buscar uma nova experiência na África?

Eu creio que uma Igreja só é rica quando ela aprende a compartilhar a sua pobreza. A Prelazia de Lábrea é uma Igreja que caminha com dificuldade no sentido de pessoas, recursos financeiros, uma das regiões mais pobres do país, tem a questão do isolamento geográfico, porém um lugar rico em beleza, em acolhida, os povos indígenas ribeirinhos são portadores de uma mística de resistência, uma espiritualidade profunda que conjuga o modo do bem viver, essa harmoniosa convivência com a floresta, tudo isso nós encontramos na Prelazia de Lábrea. Como surgiu essa necessidade maior, de países que estão no nordeste africano, nessa situação de fome que é muito mais gritante do que a nossa realidade, surgiu esse desejo, pessoal claro, e voluntário, a necessidade de partilhar a vida de apenas ser mais um irmão, em um país onde quase 100% das pessoas são muçulmanas, ser mais um irmão no serviço humanitário, no trabalho contra a fome. Aquilo que aprendi esses anos todos na Prelazia de Lábrea, Igreja a qual eu pertenço, me fez também abrir os olhos para a realidade do mundo, porque o missionário é aquele que não pode ter cerca, não pode ter muro no seu coração. Cada coração humano é terra de missão. Daí surgiu o desejo, e graças a Deus, Dom Jesus abraçou e eu estou indo em nome da Igreja de Lábrea, inclusive é esta Igreja que vai me sustentar, sustentar esse projeto que eu vou fazer parte na Somália.

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Padre, missão é diferente de sentir-se missionário?

Olha, a gente confunde missão com ação, com atividade. Missão é o próprio ser de Deus, Deus é missão. Jesus Cristo é a missão, a ternura, a compaixão do Pai. Quando nós estamos falando de missão, falamos da experiência básica do movimento do Espírito dentro de cada um de nós. A missão não pode ser simplesmente uma atividade, missão é uma experiência de sair de si mesmo, ir ao encontro do outro sem perder a sua identidade e fazendo a experiência da partilha, da comunhão de almas.

O senhor afirma que missão é experiência. Qual foi a experiência mais forte que viveu em Lábrea?

Foi quando há uns anos atrás eu fui convidado para celebrar uma festa no lugar chamado Meio Mundo, e lá o povo dizia que tinha um Santuário de Nossa Senhora do Desterro. Mais ou menos uns 6 ou 7 dias da margem do Rio Purus até a Boca do Furo, que nós chamamos, depois mais umas 2 ou 3 horas de canoa, e eu lembro como se fosse hoje, estava chovendo muito, e quando nós adentrávamos a floresta, próximo de chegar nesse Santuário, o rapaz que estava conduzindo o barco falou: Olha padre, as seringueiras estão marcadas com marcas de bala, de tiros, porque os ribeirinhos quando passam dão tiro de espingarda, como se fossem fogos de artifício saudando a imagem da Virgem. Quando nos aproximamos do local, o santuário era um tapiri, um casebre no meio da floresta, coberto de palha, sem parede, e lá tinha uma imagem de Nossa Senhora do Desterro bem pequena, e muitas promessas, chamadas promessas pagas, uma maneira simples do povo falar com Deus. Era interessante porque o local só tinha o Santuário e dois tapiris, duas casas, e muitas pessoas, muitas canoas chegando, gente de tudo quanto era lugar, muita gente se reunindo em torno e, aguardando a imagem. Tinha uma senhora de mais de 90 anos, Dona Celeste, que na hora de celebrar a Eucaristia ela disse: padre, nós não temos altar, como vamos fazer? Eu olhei o tambor de farinha e ali nós celebramos a Eucaristia, muito bem participada, com muitas pessoas, cantos muito bonitos, e depois continuava a partilha. Era muita gente e ninguém saiu de lá sem comer, tinha carne de jabuti, anta, veado, peixada, o que tem na floresta e o que tinha no rio, todo mundo se alimentando, fazendo aquela bonita refeição, uma experiência muito bonita de como eles se entregam nesse momento celebrativo. Depois a Dona Celeste viu que eu estava tirando foto, pediu para que eu tirasse uma foto dela segurando a imagem. Eu perguntei há quanto tempo eles celebravam dentro da floresta e ela respondeu: padre, eu recebi essa imagem quando eu era bem criança e até hoje nós guardamos. Todos os domingos estamos aqui rezando o terço, fazendo nossas orações. Veja, era uma devoção de um povo há mais de 100 anos! E eu perguntei quando tinha sido a última vez que um padre havia celebrado lá, ela olhou para mim chorando e disse que ali nunca havia ido um padre, eu tinha sido o primeiro padre a ir até lá. Eu a abracei, chorei e naquele dia eu entendi um pouco da minha vocação, porque ser padre, porque ser missionário. Eu estava diante de uma comunidade que vivia de maneira Eucarística e que não tinha oportunidade de celebrar a missa por falta de ministros ordenados, mas tinha a experiência, a espiritualidade Eucarística encarnada no modo de ser, no modo de viver, no cuidado de uns com os outros, na partilha da pesca, da farinhada, da quebra da castanha, ou seja, uma experiência muito profunda, muito rica. E eu prometi a eles que depois daquele dia eu estaria lá pelo menos uma vez por ano, e todos os anos eu volto para celebrar lá e nos últimos anos eu passei o Tríduo Pascal, celebrando com eles no meio da floresta, e com certeza foi uma experiência única, que nos ensina, nos ajuda a compreender a beleza do Evangelho presente em todas as culturas e todos os povos. Eu não fui levar nada, eu fui partilhar a beleza da fé, a força da resistência presente nos povos da Amazônia, de maneira muito especial na Prelazia de Lábrea, que há mais de 40 anos a Arquidiocese adotou como Igreja-irmã.

entrevista

O senhor acredita que a experiência da missão muda mais o missionário ou aquele que o recebe?

O missionário é aquele que faz a experiência de Deus, de saída de si mesmo, de ir ao encontro do outro e de partilhar a vida do outro, de ver os sinais de Deus na vida do outro, como diz o Papa Francisco, é você ter o cheiro das ovelhas, para ter esse cheiro você precisa conviver com as ovelhas, quando você realmente convive, partilha, você faz uma experiência profunda. Agora muitas vezes eu posso achar que sou missionário, às vezes até fui enviado para uma terra de missão, mas chegando lá me fechei na minha zona de conforto, na minha zona de segurança, e não consigo fazer nenhuma experiência de partilha da vida. Nós temos que olhar pro Cristo, Ele desce até a nossa realidade humana. Só é missionário quem consegue fazer a experiência de descer até aquela realidade, até aquela pessoa que ninguém quer abraçar, que ninguém quer olhar, que ninguém quer cheirar, que ninguém quer cuidar e com ele fazer uma experiência de ser simplesmente um irmão, não aquele que vem como salvador da Pátria com a imagem de um falso messias. O missionário é simplesmente um irmão que sabe partilhar a alma, a vida e com certeza o missionário nunca volta do mesmo jeito. Quando ele vai e faz a experiência da partilha ele traz no seu coração, essa bagagem existencial da experiência de Deus. Muitas vezes a gente vai para a missão e acha que precisa levar muitas coisas, e quantas coisas que levamos que nem utilizamos, porque o que o outro espera é apenas a experiência da afetividade, do cuidado.

O senhor foi para Lábrea muito novo. Em algum momento se arrependeu dessa escolha?

É interessante porque algumas pessoas dizem: “Élder já não está na hora de voltar? Já tem muitos anos que você está lá e tudo mais”. Realmente, nas minhas primeiras experiências eu tinha 20 anos. Mas eu falei assim: Lábrea para mim, a missão lá nunca foi um peso, só foi uma grande graça, por isso que voltar ou não, ter outro destino, isso não depende de mim, a minha vocação não pertence a mim mesmo, pertence a Deus e a Igreja. Por isso que ir é o que me faz permanecer, e essa experiência agora de como padre da Prelazia de Lábrea, na pobreza de Lábrea, poder ajudar um pouco a partilhar a vida com o povo somálio, nessa experiência de combate a fome, nada mais é do que realizar a vontade de Deus. Eu tenho isso como um presente, um dom, uma grande graça.

O que mudou no senhor por ter saído em missão tão jovem?

A minha identidade foi amadurecida, muda a questão da afetividade, principalmente na experiência do cuidado com o outro e também de ser cuidado. Eu tive a experiência de contrair cinco vezes a malária na Amazônia, então experimentei a sensação de ser cuidado. A experiência de ser acolhido nas mais distantes aldeias e comunidade ribeirinhas, então isso mudou o meu modo de vida. Imagina um jovem do sudeste, com nosso estilo de vida, com toda a nossa capacidade intelectual e você se adentra e passa a viver, por exemplo, por 40 dias como único meio de comunicação um radinho de pilha, aprendendo a comer com o povo, do que é oferecido, da maneira como é feito. A experiência maior que eu trago da missão foi justamente a experiência de descer, e descer muitas vezes, de uma falsa imagem de perfeição, de santidade, de heroísmo, de achar que basta o conhecimento intelectual, que basta uma bagagem sacramental e eu pude perceber que na Amazônia o que basta é a simplicidade. Tem um provérbio africano que expressa muito bem o que aconteceu comigo: “Gente simples, fazendo coisa simples, em lugares não muito importantes, realizam transformações extraordinárias”.

Quem é o padre Éder de antes da missão em Lábrea e o de hoje, partindo para a missão na África?

O padre Éder continua sendo o filho do Seu Raí e da Dona Gracinda. Filho de mineiros que migraram para o Espírito Santo, ele cobrador de ônibus, ela lavava roupas para fora, pra sobreviver e criaram os seis filhos com muita dificuldade. Deram-nos um caráter, além do caráter me ensinaram o amor ao trabalho, a viver com dignidade, o amor aos estudos e, principalmente, o amor a Deus, através da espiritualidade. Pois foi em uma Comunidade Eclesial de Base, Nossa Senhora da Conceição, vendo o testemunho do padre José Muniz, que nasceu e foi cultivada a minha história vocacional. Eu creio que quando falamos em antes e depois, a gente fala de um processo, não existe uma transformação ou adaptação simplesmente. O que aconteceu na minha história foi justamente uma experiência de inculturação. O Éder de 12 anos atrás agora é um Éder inculturado, de mais de um terço da sua vida vivido na Amazônia, ou seja, um capixaba com sangue mineiro, amazônida e agora com a causa somália. O que muda realmente é que nos tornamos cidadãos do mundo, do planeta, que ficamos inconformados com qualquer sofrimento desnecessário imposto a uma pessoa.

entrevista 3

Depois de tudo que o senhor viveu, a sua percepção sobre missão mudou?

Para mim missão nada mais é do que a experiência de deixar que bata no coração da trindade um coração humano. A maior missão de Deus, e que nos inspira, foi a encarnação de Jesus Cristo na ação do Espírito Santo, pois agora no coração da trindade bate um coração humano. A missão nada mais é do que fazer essa experiência de ter um coração humano batendo no mistério de Deus Santo, e assim a gente faz parte dessa experiência.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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