buscar
por

"PASSA A NOITE CHORANDO PELAS FACES CORREM-LHE LÁGRIMAS"

“PASSA A NOITE CHORANDO PELAS FACES CORREM-LHE LÁGRIMAS” (Lm 1,2)

Nem mesmo as muitas lágrimas que rolaram durante toda a noite foram capazes de ajudar a apagar o fogo que consumiu milhares de anos de história, de um país que tem grandes dificuldades de manter viva a sua memória. A destruição do Museu Nacional no Rio de Janeiro, ocorrido no mês de setembro, com todas as consequências devastadoras para a pesquisa científica, o trabalho de tantos estudiosos e, sobretudo, para a memória nacional é algo a ser profundamente refletido por toda a sociedade brasileira. De fato, a noite foi de grande dor e sofrimento, não somente para os que viram os seus trabalhos e vidas tornarem-se pó e cinzas, mas, por ser um ícone da situação atual do país.

As chamas que corroeram os milhões de fragmentos da história do país se espalham, todos os dias, por todos os lados dessa grande nação, marcada por tamanho descaso e descuido dos que a governam. A incapacidade de reconhecer a necessidade do cuidado com a memória está espalhada por todos os lugares, nas ruas, nos campos e nas cidades de todo o Brasil. São homens e mulheres, pais e mães de família, jovens, crianças e idosos, pessoas reais que carregam a dor e o sofrimento de verem as suas vidas corroídas pelas chamas da corrupção em todos os níveis e, sobretudo, da falta de compromisso social com os que mais precisam.

O Livro das Lamentações é um escrito que retrata a dor e sofrimento do povo de Israel que é levado cativo para a Babilônia, deixando para trás a cidade de Jerusalém totalmente destruída.

Eles não choram somente pelos muros da cidade e, acima de tudo, pela destruição total do Templo de Jerusalém, as lágrimas são derramadas por perceberem que o estão perdendo, vai além das construções e edifícios. De fato, o relato do poeta que lamenta pelo que vê, consegue captar a dor e o sofrimento de famílias inteiras, que deixam para o pó e as cinzas, seus filhos mortos, suas casas arrasados ao solo e a sua terra abandonada. Todavia, em meio a toda a desolação e tristeza, descritas nas palavras do Livro, é possível perceber um fio, mesmo que tênue, de esperança. Essa esperança inquebrantável foi capaz de sustentar o povo mesmo em meio a tamanha dor, perda e a incerteza de um futuro melhor, diverso do cenário que se apresentava.

A destruição do Museu Nacional deve se tornar, para todo o país, um grande símbolo, de maneira especial, por espelhar, de forma tão trágica e dolorosa, a situação de todo o Brasil. Os seus filhos e filhas, principalmente os mais pobres, vagam marcados pela dor e pelo sofrimento, causados pela crueldade e descaso daqueles que deveriam cuidar e zelar pelo bem estar de todo o povo brasileiro.

Que se unam às muitas lágrimas jorradas pela destruição de tão grande patrimônio, aquelas silenciosas que rolam do rosto sofrido do povo dessa grande nação. A fim de que, o povo brasileiro que é reconhecido por saber, de muitos modos e maneiras, manter viva a esperança de dias melhores, seja unido numa causa comum. Aquela de recuperar a sua história e a sua memória, de refazer o caminho de forma unida e participativa e de levantar os olhos, a fim de reconhecer que existe a possibilidade de reconstruir o país. Que essa esperança seja capaz de unir a todos, de diferentes credos e verdades, a fim de que o compromisso social e o exercício do direito de mudar os rumos, valorizem o maior bem desse país, isto é, o seu povo.

foto extra outubro 05

Pe. Andherson Franklin
Professor de Sagrada Escritura no IFTAV e Doutor em Sagrada Escritura

editor1

Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

Mais posts do autor

COMENTÁRIOS