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OS OLHOS DO CORAÇÃO

revista vitoria –– ed abril - reportagem - IMG_8844A forma como olhamos para as pessoas depende muito mais de nós mesmos do que como elas são, como se comportam ou qual a sua condição. Pode até parecer que vamos entrar na área da psicologia, mas não é esse o caminho que vamos percorrer nesta reportagem. Conversamos com pessoas que por conta da profissão ou movidas por sentimentos de bem olham para os outros com o coração.

Perguntei para a Assistente Social e Mestre em Políticas Públicas, Nilda Sartorio se sua prática profissional mudou a Nilda cidadã e a resposta foi essa: “Mudou sim. Quando olho para as pessoas que estão nas ruas, procuro olhar com respeito. Ou seja, deixo de vê-las como um problema e passei a enxergá-las com respeito”.

Nilda foi Secretária de Assistência Social do município de Cariacica e do Estado do Espírito Santo e por conta da profissão ganhou grande conhecimento sobre população de rua. Esse grupo da população provoca nos cidadãos os mais diversos argumentos: incomodam, querem nos enganar, nos roubar, não trabalham porque não querem, são preguiçosos, porque não voltam pra família? Aprontaram e agora fazem-se de coitadinhos; ou outros contrapostos mas que reafirmam as distâncias e as diferenças: coitados, não vão para o abrigo porque lá é muito exigente, foram abandonados pela família, não tiveram oportunidade, se o governo agisse não estariam pelas ruas. Seja qual for o seu jeito de entender e olhar para essas pessoas talvez o depoimento da Assistente Social possa fazer você treinar um novo olhar. “A população em situação de rua tem características muito complexas, trata-se de uma população heterogênea que vai para as ruas das cidades por motivações diversas, dentre as quais podemos destacar: conflito familiar, envolvimento com o tráfico, transtorno mental, entre outras. Nos casos em que o vínculo familiar foi rompido e não há mais possibilidades de convivência dentro de casa, estas pessoas vão para as ruas, estabelecem vínculos e desenvolvem afinidades com as pessoas que vivem na mesma situação que elas. Em muitas situações, essa realidade se mantém por várias gerações da mesma família, sem sentir a necessidade do resgate da vida em família.

Penso que essa população não precisa do nosso julgamento, por estarem nessa condição de vida, ela precisa de respeito e de aceitação por parte da sociedade”.

Ao iniciar este texto fiz uma pesquisa na internet e encontrei algumas frases que podem ser chamadas de chavões ou frases feitas, mas cabem neste contexto e podem ajudar a pensar, melhor dizendo, podem contribuir na mudança do nosso olhar: “Adoro as pessoas que olham com os olhos e enxergam com o coração”. “Quem vive uma vida com o coração, somente pode oferecer honestidade e reciprocidade”. O segredo para olhar o outro é olhar com o coração.

Alguns têm o privilégio de nascer em ambientes que proporcionam um olhar natural para o outro do jeito que ele é, sem preconceito como é o caso de João José Sana, grande defensor dos Direitos Humanos. Ele justifica sua militância e defesa dos mais fracos como uma lição que vem do berço transmitidas pelos pais que são até hoje “profundamente orientados pela Palavra de Deus e pela fé em Jesus Cristo”.

Foi com os pais que João José aprendeu “que somos todos irmãos e irmãs e que não se deve admitir qualquer forma de discriminação contra as pessoas”. “O meu olhar em relação a qualquer pessoa e, em especial aos mais pobres é sempre o olhar misericordioso de Deus, afinal, Jesus mesmo afirmou que está presente no pobre, no marginalizado, no sofrido”. Nessa mesma linha Ir. Barbara Kiener, Missionária de Cristo que, entre tantas atividades também atua na pastoral carcerária, afirma que ao olhar os excluídos “deixa-se interpelar por cada rosto para ver neles a presença de Deus no mundo”. “A atitude que educa e transforma o meu olhar é a compaixão”, disse e explicou: “a palavra compaixão significa literalmente ‘sofre junto’. A compaixão possibilita um olhar diferente, é a entrada da pessoa no mundo do humano. É a possibilidade de ver além dos limites da personalidade de outra pessoa, de seus medos, raivas, erros, crimes. A compaixão permite ver o erro de outra maneira”. Maria Celia Belarmelina Secchin também exercita a compaixão para desenvolver seu trabalho junto à Pastoral do Menor. “Ter um olhar fraterno para os mais empobrecidos é nos revestirmos de compaixão, este é o ensinamento do Mestre jesus. Se todos tivéssemos esta atitude não estaríamos assistindo tanta violência, tanto ódio. Fui conduzida pelos meus pais a olhar os mais necessitados com olhar diferente. Iniciei minha participação na Pastoral do Menor sob a coordenação das Irmãs Salesianas.

Me identifiquei, me apaixonei e acredito que educando para a vida e para Deus teremos verdadeiros cristãos cidadãos e verdadeiros cidadãos cristãos”.

E é pela fé que Adriana Nunes Oliveira olha os idosos. Foi a fé que a fez perceber o quanto a população está envelhecendo nas comunidades da Arquidiocese de Vitória e que essas pessoas teriam necessidades específicas. Foi se aproximando e ao chegar perto passou a perceber as carências de afeto, de cuidados, as demandas e os direitos. Então Adriana passou a fazer outro exercício, “olhar ao seu redor com o olhar da pessoa idosa”. “O que a pessoa idosa espera da família, da Igreja e do Poder Público”? Adriana propõe-se não apenas olhar com o olhar da pessoa idoso, mas “com sua ação cristã sensibilizar as famílias, a sociedade, Igreja e o Poder Público que envelhecer não é um castigo, é uma bênção de Deus”. Adriana ainda lembrou de uma frase de são João Paulo II: “que cada comunidade acompanhe com uma compreensão amorosa a todos os que envelhecem”.

Assim como Nilda, João José, Adriana, a arteterapeuta e artista plástica, Maressa Monserrat Euzébio Ballester, também tem o que dizer quando se trata de falar sobre ‘olhar o outro’. Ela sempre trabalhou com projetos sociais e em bairros com população mais carente: Novo Horizonte, Central Carapina, Morro São Benedito. Situações as mais diversas: dependentes químicos, alcoólatras, transtornos mentais. O olhar para essas pessoas sempre o da certeza e da esperança. “Ao olhar cada um penso que é Jesus que está ali comigo”. O aprendizado de olhar o outro como igual começou em casa com o exemplo da mãe que não se furtava a ajudar quem precisasse. “Aos 12/13 anos comecei a vender uns bonequinhos que fazia com durepox e pedras do rio. Pegava o dinheiro ia até ao Centro da cidade, comprava pão e leite distribuía no quarteirão da igreja”.

Tânia Silveira, Assistente Social e Mestre em Políticas Públicas também começou cedo a olhar o outro a partir do princípio da caridade que aprendeu em casa. Ainda pequena doava os produtos que estavam na despensa da casa aos pedintes sem sequer falar com a mãe. Isso a levou a algumas chamadas de atenção não pela doação, mas por fazer por conta própria. Isso a levou a querer entender as origens da pobreza e daí veio a escolha pelo estudo em ensino social. “Os mais pobres e carentes são sinais de injustiça e desamor”, afirmou e continuou “pessoas pobres e carentes estão em todas as ruas por onde ando, em bairros nobres e regiões históricas. Impossível não vê-los. No primeiro olhar destaca-se a pobreza material, depois olho além da aparência, busco olhar nos olhos destes irmãos e sempre me impressiono com a tristeza, a angústia e o desalento. O sofrimento abate qualquer pessoa”.

Além do empenho pessoal o que nossos entrevistados desejam?

Nilda que “o poder público em todas as suas esferas, juntamente à sociedade em suas várias representações, promova o diálogo com essa população, em especial com os representantes do Movimento Nacional e Estadual de População em Situação de Rua, para ampliação dos debates sobre sua realidade, visando propor políticas públicas que atendam efetivamente às suas necessidades”.

João José que “o olhar em relação a todas pessoas precisa ser sempre o olhar misericordioso de Deus”.

Adriana “que a Igreja, a sociedade, a família e o estado entendam que a pessoa idosa pode viver com mais qualidade, dignidade e respeito”.

Maressa “que cada excluído seja visto como a presença de Jesus”.

Tânia “que diminuam as diferenças entre o gasto mensal ou anual de uma família pobre que é muitas vezes menor que o gasto com um perfume ou uma roupa de marca de outros”.

E termino com duas frases prontas: “Viver a vida com o coração é sentir as feridas do mundo”. “A vida vivida com o coração é mais intensa, mais pura e mais nobre, mas em certos momentos também dói”.

Maria da Luz Fernandes
Jornalista

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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