buscar
por

“Os irmãos cardeais foram buscar um papa ao fim do mundo”

Esta foi a primeira frase dita pelo Cardeal Bergoglio, já como Papa Francisco, em sua apresentação na Basílica de São Pedro em Roma. Naquele momento era difícil avaliar todo o sentido desta frase.

De 1522 a 1978 a Igreja só conheceu papas de nacionalidade italiana. Estes dados nos põem a pensar profundamente sobre o alcance de sua eleição.

Não ser italiano e nem do continente europeu é algo muito diferente na história do mundo moderno. E ainda mais significativo é o fato de sua origem ser de um continente marcado pela dominação econômica europeia e norte-americana. Ser latino-americano indica uma origem e uma missão a desempenhar. Ele poderia ser um papa argentino, mas com o espírito europeu como tem tantos bispos por aí. Isso não engrandeceria em nada a fala de ser escolhido no “fim do mundo”. Ser deste lugar e assumi-lo como um lugar por excelência em termos evangélicos faz de Francisco a cada dia uma pessoa reconhecida e admirada por pessoas que nem católicas são. Francisco transcende a cada dia os limites institucionais, perfil dos profetas, e alavanca forças para ações evangélicas diante dos desafios atuais.

Ao ser eleito rejeita viver no Palácio Apostólico e prefere continuar vivendo na Casa Santa Marta, que é uma casa de hóspedes. Sente-se hóspede em Roma a serviço da Igreja universal. Ele diz: “Isto faz-me bem e evita que fique isolado”. O Evangelho não é para ser vivido em palácios e nem para vida solitária. Rejeitou imediatamente toda a ostentação dos líderes, preferindo um trono simples e sem ornamentos, vestes brancas, crucifixo em aço e não em ouro, sapatos normais e não aqueles vermelhos distintivos dos papas. Que bela lição de simplicidade e humildade! Ele é fruto da experiência do Concílio Vaticano II aplicada na prática pastoral dentro de uma realidade vivida na América Latina.

Por isso, grande parte de suas mensagens e discursos ao longo destes anos está repleta de referências à crise migratória na Europa e no mundo, às periferias existenciais, ao neoliberalismo e suas atrocidades, à necessidade de uma verdadeira opção pelos pobres. Sua crítica às aparências – vestes e sapatos, carros e pompas, presentes na Igreja – são gritos proféticos em prol de uma humanidade mais solidária.

Ser pinçado no fim do mundo indica o lugar de onde devem partir os discursos teológicos e a prática pastoral: as fronteiras, as periferias, onde cheira povo e rua. Por isso, seu combate aos “burocratas do sagrado”. Ele incomoda, assim como sempre incomodaram os Profetas.

Edebrande Cavalieri
Doutor em Ciências da Religião e professor universitário na UFES 

editor1

Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

Mais posts do autor

COMENTÁRIOS