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Os haters e a “cultura do descarte em rede”

“Diga-me o que curtes e te direi se vou te odiar.” Em tempos de conectividade, as pessoas em geral estão exponencialmente mais expostas umas às outras. Assim, nas redes sociais digitais, o ódio também vem ganhando cada vez mais espaço. Toda opinião é passível de outra opinião em sentido frontal e agressivamente contrário.

Não basta “curtir” algo: é preciso também descurtir aqueles que curtem aquilo que eu não curto. A raiva se traduz em bits e pixels, permeada por fundamentalismos, intolerância, superficialidade, simplismo, preconceitos, arrogância, ignorância. Sem respeitar nenhuma relação humana: tudo e todos podem ser odiados. E os sujeitos dessas ações já receberam até um nome próprio na cultura digital: os haters, os odiadores, aqueles que odeiam em rede.

Facebook e WhatsApp, para citar duas plataformas muito comuns na vida cotidiana atual, evidenciam esse paradoxo da conectividade. Por um lado, o Facebook assume como missão “dar às pessoas o poder de construir comunidade”. Mas o que vemos muitas vezes são guetos e bolhas de opinião em que o discurso único predomina, levando a ataques a perfis ou páginas que pensam diferente, como os chamados “vomitaços”. Já o WhatsApp se apresenta como um aplicativo “para manter contato com amigos e familiares, em qualquer hora, em qualquer lugar”. Mas basta estar em alguns grupos para receber certas “correntes” que alimentam a discórdia com quem é diferente em vários âmbitos da vida. O ódio quase escorre pela tela. E isso também envolve as relações dentro da própria Igreja, quando vemos a formação daquilo que o historiador italiano Massimo Faggioli chamou de “cibermilícias católicas”, que geram apenas divisão entre aqueles que deveriam ser “irmãos na fé”.

Mas o que difere o hater de uma pessoa comum que manifesta seu ódio? Dentre outras coisas, o diferencial do “odiador digital” é o alcance de seu ódio e a velocidade em que ele se dissemina – e, com isso, o dano e a infelicidade que causa.

Se antes o ódio se restringia ao contato pessoal e aos pequenos círculos, em uma sociedade da comunicação como a atual, um hater pode expressar esse sentimento publicamente, favorecido por todo um aparato de comunicação que cabe dentro do seu bolso, de acesso e uso muito fáceis. O próprio odiador pode controlar a transformação de seu ódio privado em ódio público, com um clicar de botões. Também é possível conectar os vários ódios, mediante a relação em rede entre vários odiadores, que “comungam” desse mesmo sentimento. Isso dá uma dimensão social muito maior ao ódio, cuja circulação ocorre de forma imprevisível e irreversível, adquirindo ainda mais força simbólica na cultura. A polarização que vivemos hoje é também fruto dessas contradições da comunicação. E, em 2018, o panorama deve se acentuar ainda mais, especialmente diante das escolhas políticas a serem feitas.

Diante do fenômeno dos haters, é importante repensar a comunicação a partir de uma perspectiva cristã. No fundo, o ódio comunicacional é uma forma de “descarte” do outro: o outro a quem eu odeio já não me importa, ou só me importa como “bode expiatório” das minhas próprias limitações. A internet, assim, torna-se campo fértil para o crescimento de uma “cultura do descarte” digital, para utilizar a expressão do Papa Francisco na exortação apostólica Evangelii gaudium (n. 53). E é significativo que a reflexão papal nesse parágrafo inicia precisamente a partir do mandamento “Não matar”. No caso dos haters, portanto, trata-se de pessoas que buscam “matar” o outro simbolicamente. Essa comunicação mata!

Mas o que fazer então? O pontífice mesmo nos dá uma resposta simples e direta em sua mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2017. Ele exorta a todos a uma “comunicação construtiva, que, rejeitando os preconceitos contra o outro, promova uma cultura do encontro por meio da qual se possa aprender a olhar, com convicta confiança, a realidade”. Usando a metáfora do moinho, o Papa Francisco diz: “A mente do homem está sempre em ação e não pode parar de ‘moer’ o que recebe, mas cabe a nós decidir o material que lhe fornecemos”. Se colocarmos trigo no nosso “moinho mental”, pode surgir daí um pão bem perfumado (uma boa notícia). Mas, se for joio, o resultado será o oposto (o ódio digital). A decisão é de cada um.

Como afirma o papa ainda na sua mensagem de 2017, é preciso “não deixar que roubem a alegria do Reino por causa do joio sempre presente”. O “joio” é uma presença constante e inevitável nas nossas práticas comunicacionais. Ele cresce em toda e qualquer plantação, como nos ensina o Evangelho (cf. Mt 13,24-30). Por isso, não precisamos perder a paz nem a alegria quando o “joio” dos haters é semeado nas nossas timelines: é inevitável que ele apareça, mas podemos separá-lo do “trigo” da boa comunicação e depois “queimá-lo” na boa e santa indiferença amorosa, como nos ensina Santo Inácio de Loyola (1491-1556).

Ser atacado por um hater não diz nada sobre mim: não é nem sinal de que eu estou me comunicando mal, nem de que estou comunicando a mensagem errada. A ação de um hater revela, apenas e exclusivamente, a miséria pessoal dele ou dela mesmo: daí sua tentativa de nos roubar a alegria, semeando seu “joio”. Mas já disse Jesus: “Quem diz ao seu irmão: ‘imbecil’, se torna réu perante o Sinédrio; quem chama o irmão de ‘idiota’, merece o fogo do inferno” (Mt 5,22). Ser um hater não é apenas faltar com a caridade, mas é também um pecado grave, que nos afasta (e muito!) do projeto de Deus.

Moisés Sbardelotto
Jornalista e doutor em Ciências da Comunicação

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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