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Os 500 anos da Reforma Protestante: oportunidade de revisão de fé e das Igrejas

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Neste 2017 são celebrados os 500 anos da Reforma Protestante. Um movimento nascido europeu como posição, principalmente, contra a forma como a Igreja predominante na época, a Católica Romana, colocava condições para fiéis encontrarem perdão para os seus pecados e estimulava a prática de penitências associada ao elemento financeiro. Do protesto emergiram reflexões de fé de personagens como o alemão Martin Luther [Martinho Lutero], o mais destacado, além do escocês John Knox, do francês Jean Calvin, do suíço Ulrich Zwingli e do alemão Thomas Müntzer, este um líder dos “sem-terra” da época, entre outros. Daí nasceram as diferentes tradições chamadas protestantes (luteranas, presbiterianas, metodistas, batistas).

A base que representa a maior herança da reforma, em especial aquela pregada por Martinho Lutero, é a radicalidade da graça. A graça de Deus é compreendida como o fundamento da vida e da fé e sentido da redenção do ser humano: a salvação se dá pela graça, ou seja, o perdão de pecados é resultado do amor incondicional de Deus, e para alcançá-lo é preciso ter fé. A Bíblia emerge, nesta compreensão como fundamento para a fé e a vida que reside na graça de Deus. Esta herança está assentada nas cinco frases em latim que sintetizam o sentido da Reforma Protestante: Sola Gratia (Somente a Graça), Solus Christus (Somente Cristo), Sola Scriptura (Somente a Escritura), Sola Fide (Somente a Fé) e Soli Deo Gloria (Glória somente a Deus).

Destes princípios deriva um outro, também importante, que é o do sacerdócio universal de todos os crentes – um questionamento ao clericalismo e uma valorização do lugar dos fiéis no propósito missionário do Senhor da Igreja. Com isso, os diferentes grupos protestantes empreenderam uma popularização da leitura bíblica, bem como a ampla atuação e liderança dos leigos (os não ordenados). Consequência direta desse posicionamento foi a tradução da Bíblia, por Lutero, para a “língua vulgar”, o alemão, o que transformou radicalmente a relação dos fiéis com a Sagrada Escritura e abriu caminho para a livre interpretação do texto bíblico.

Estas bases teológicas moldaram as doutrinas das diferentes confissões protestantes que se expandiram por todos os continentes, por meio dos esforços missionários. Em nossos dias, na América Latina, o segmento é tão amplo e diverso, com uma presença tão significativa e crescente no continente, que é tarefa difícil nomeá-lo, explicá-lo e agrupá-lo por afinidade. Por conta das transformações ocorridas na teologia e no jeito de ser de boa parte dos protestantes, ou evangélicos, como popularmente se denominam, muito pouco foi herdado da Reforma. Podemos afirmar isto quando atentamos para as tantas leituras fundamentalistas da Bíblia, para o clericalismo que nega o protagonismo dos leigos e das leigas nos diferentes ministérios, para as disputas religiosas com o catolicismo romano e entre grupos evangélicos, para a pregação que esquece a doutrina da salvação pela graça e acaba enfatizando a demanda por retribuição e as ações humanas como moldes para a ação de Deus.

Entretanto, nesta diversidade, há muitos grupos que desenvolvem ações mais comunitárias e contextualizadas e que fizeram germinar sementes do jeito protestante de viver a fé na história. Como os protestantes/evangélicos que alfabetizaram tantos latino-americanos por meio da leitura da Bíblia. Como aqueles que pagaram com suas vidas o compromisso com a justiça, povoando as prisões das ditaduras militares, resistindo às torturas, enfrentando a morte ou o exílio. Como quem cultua, em comunidade, ao Deus da graça e da vida. Como quem busca forças para viver em vários esforços de solidariedade com empobrecidos, dependentes químicos, presos, vítimas de violência. Como há protestantes nessas frentes!

E há a inspiração ecumênica! Recordar os 500 anos da Reforma é também uma oportunidade de reconhecer a causa da unidade e as tantas iniciativas que envolveram diálogo e cooperação que, nesses cinco séculos de história, significam a não conformação com a separação, a intolerância e a competição que mutilam o corpo de Cristo.

Resultado deste processo foi a célebre Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, assinada, em 1999, por representantes da Igreja Católica Romana e da Federação Luterana Mundial em Augsburg, na Alemanha. Naquela cidade, em 1530, os seguidores de Lutero, convocados pelo rei alemão Carlos V, assinaram uma declaração de fé que rompia com a igreja romana e enfatizava a doutrina da salvação pela graça. Na passagem para o século XXI, católicos e luteranos registraram, pela Declaração Conjunta, que estão de acordo sobre as verdades básicas relativas à doutrina da justificação pela fé, um dos pilares da Reforma Protestante. Este foi um passo importante, um testemunho de que o diálogo e a cooperação são possíveis, sem desconhecer que ainda é preciso trabalhar outros aspectos antes de se alcançar um acordo total entre luteranos e católicos sobre o significado do Evangelho da Justificação na vida da Igreja.

A Igreja Católica, por meio do Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos, e a Federação Luterana Mundial têm afirmado a necessidade de que as duas partes continuem seus esforços ecumênicos. Assumem, ainda, que a Declaração Conjunta não é o objetivo final, mas um importante passo na peregrinação comum para uma completa unidade visível. Este é um testemunho e um estímulo para novas ações que envolvam outras confissões cristãs, na esperança ecumênica, e reafirmem um dos princípios da Reforma Protestante: “Igreja reformada está sempre se reformando”.

Magali do Nascimento Cunha
Doutora em Ciências da Comunicação, Docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo. É líder do Grupo de Pesquisa Mídia, Religião e Cultura 

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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