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OLHAI OS LÍRIOS. OLHAI PARA VÓS MESMOS. OLHAI EM VOLTA E OBSERVAI. OLHAI QUE NINGUÉM VOS ENGANE.

Se falta algo em nossa existência é disposição para se voltar para a vida, para se compor com ela e para criar realidade com e através dela. A questão é que colocamos a vida, que de fato temos, em segundo lugar em função de idealizações, espiritualismos e cultivo de ilusões. Tem sido assim, infelizmente. Mesmo e apesar de apavorados com o que acontece no mundo e com o que estamos fazendo de nós mesmos, preferimos seguir como ressentidos, tristes e amargurados e, por compensação, agarrados a ilusões, a pequenos prazeres e complacentes com o rumo das coisas.

Dentre outras forças que seguem na mesma direção de negar a vida, o conservadorismo cristão, em várias e diferentes configurações se levanta com uma larga pauta moral e de costumes e faz vistas grossas ao mundo e à vida que nele está e nele quer continuar. A vida se vai maltratada, espezinhada, crucificada e as pautas morais são colocadas como se por aí as coisas se resolvessem. Assustamo-nos e nos apavoramos com o incremento da violência, com a crescente desumanidade, mas nos fazemos complacentes com os que propõem a “lei do talião”. E ainda ouvimos a superficial e arrogante afirmação de que todo o que de ruim o mundo vive é “falta de Deus”. Não, Deus está presente na vida que teima em ficar no mundo. Deus está presente na nascente que volta a brotar se lhe são dadas as condições. Deus está presente na criança esquálida por desnutrição que volta a sorrir com vigor quando lhe são providenciados os cuidados necessários e a alimentação suficiente.

Mas, não obstante nossos medos e pavores não queremos outro mundo. Reclamamos deste para nos aliviar do que nos pesa na consciência, mas estamos agarrados a ele mais do que nunca. Apesar de dizermos que é falta de Deus não o deixamos ficar entre nós através do seu modo mais usual e potente: a vida. Estamos esgotados, mas agarrados ao que nos esgota. Estamos tristes, mas não ousamos outras alegrias. Estamos ansiosos por liberdade, mas capturados por pequenos prazeres que nos são vendidos a troco do nosso tempo e vida. Até oramos ao Senhor da Vida com a sagrada expressão de Jesus “venha a nós o vosso reino”, mas sabotamos essa vinda com nossas atitudes.

Então, que mecanismos são usados para que permaneçamos assim os mesmos, nos mesmos lamentos, lamurias e desculpas? Usamos os mecanismos produtores e mantenedores de ilusões. E são muitos e variados. Decerto gostamos de ilusões e as buscamos com avidez. Se são doces (e por serem doces e atraentes) são raptoras. Elas nos capturam a vida. Perdemos a vida, essa mesma, essa complicada, prenhe de acontecimentos, linda, provocadora, sonhando outra. Perdemos o paraíso por nos expulsarmos dele escolhendo nos alimentar de ilusões. Perdemos Deus, esse absoluto em nós (A Vida), para cultivarmos prescrições e regras. Perdemos o tempo abençoado de cada dia onde a vida se apresenta em eternidades de instantes em função de uma eternidade fria e distante.

Não tem sido fácil viver. Não tem sido fácil suportar as cargas que nos são impostas. Não tem sido fácil cultivar a lucidez quando as hortas e pomares das ilusões se vão floridos ganhando tantos fieis, aplausos e poderes. Precisamos então forçar o pensamento: onde buscar forças? Na própria vida. A vida é a fonte de forças. Na verdade a vida é A força. Nela Deus é. Sim. Na vida que se dá nos fortaleceremos. Dialogaremos com o que se apresenta (Olhai os lírios. Olhai para vós mesmos. Olhai em volta e observai. Olhai que ninguém vos engane) e não desistiremos das forças que podemos extrair de cada fato e de cada acontecimento, de cada alegria e de cada dor.

Dauri Batisti
Padre, Psicólogo e Mestre em Psicologia Institucional

 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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