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OBRIGADO AO PROFETISMO DA CNBB E DA IGREJA NO BRASIL

Cheguei ao Brasil em 1985. Fui morar numa comunidade inserida no Parque Santa Madalena, na zona leste da cidade. Eu que vinha da Itália com a ideia de colaborar na evangelização do Brasil, fui evangelizado graças a uma Igreja que, após o Concílio Vaticano II, teve a coragem de tornar-se discípula e apóstola de Jesus de Nazaré, seguindo seus passos no serviço ao Reinado de Deus, pondo ao centro de seus cuidados os mais pobres e marginalizados, comprometendo-se e cooperando com todas as pessoas de boa vontade para a transformação das estruturas injustas e a implantação da cultura da solidariedade. Antecipando o clamor profético de Papa Francisco, muitos bispos, espoliaram-se de títulos e privilégios, largaram as grandes estruturas e assumiram um estilo de vida sóbrio para marcar presença ao lado dos mais pobres, incentivando também as congregações religiosas e o clero diocesano a saírem rumo às periferias.

A contato com eles, na convivência com os mais pobres nas comunidades eclesiais de base, meditando os documentos das conferências episcopais latino-americanas e admirando os posicionamentos da CNBB, amadureci muito na fé e na paixão pelo Reinado de Deus. Apesar de suas fragilidades e contradições, a Igreja no Brasil tornou-se um sinal profético para a Igreja no mundo todo.

Confesso minha perplexidade diante dos sucessivos ataques que a CNBB vem sofrendo nos últimos tempos. Sofro ainda mais quando vejo que as agressões partem de pessoas que se dizem católicas. As redes sociais constituem um importante instrumento de comunicação e de circulação de ideias, mas frequentemente assumem o papel do “lixo no ventilador” quando servem para espalhar calúnias, preconceitos e inverdades.

O conflito, quando não desanda no desrespeito, é sempre bem-vindo. Produz riqueza. Educa à escuta do outro. Ajuda a aprimorar nossos entendimentos e produz posições mais amadurecidas. Mas hoje nós assistimos a uma verdadeira campanha difamatória, usando o Ano dos Leigos, para promover um protagonismo laical negativo. A escolha da internet, como canal para divulgar os ataques, é uma saída estratégica para evitar o contraditório que se dá na conversa, olho no olho. Antes de ir a público, deve haver disposição para o confronto a fim de garantir a todos a oportunidade de expressar suas opiniões, de esclarecer seus posicionamentos, apresentar as motivações de suas escolhas e, se for, o caso, de admitir os próprios erros. Não quero analisar todos os pontos contestados. Vou me entreter somente sobre a Campanha da Fraternidade. Por incrível que pareça, enquanto aqui no Brasil despontam estas contestações, outros países, sobretudo na Europa, aproveitaram da experiência brasileira e adotaram iniciativas similares. A oportunidade de refletir sobre assunto de atualidade à luz da Palavra de Deus e do Magistério da Igreja, propondo, inclusive caminhos para superação dos desafios apresentados, é coerente com o mandato de Jesus que pede à Sua Igreja de ser sal da terra, luz do mundo e fermento na massa. Naturalmente, isso gera mal-estar por parte de quem gostaria de aprisionar a Igreja entre as quatro paredes das sacristias.

O tema da CF deste ano, “Fraternidade e Superação da Violência”, é extremamente pertinente. O aumento assustador das violências consequências da violência estrutural, a dor dos familiares das vítimas, a sobrecarga de trabalho por parte das forças de segurança, a difusão de soluções populistas, a corrida ao armamento, o recurso ao linchamento, a criminalização dos direitos humanos e seus defensores, a precariedade das políticas públicas sobretudo nos territórios de periferia são alguns dos motivos que levaram a Igreja a abordar o tema da violência para ajudar os cristãos e a sociedade em geral a buscar soluções tendo sempre presente os valores do Evangelho.

Entre os pontos mais polêmicos desponta o Roteiro da Via Sacra proposto pelo manual da CF 2018. Ouvi vários depoimentos de leigos e até de padres que “rasgaram suas vestes e gritaram ao escândalo” porque o texto conteria uma referência à ideologia de gênero. Um pequeno parágrafo foi suficiente para colocar centenas de bispos e milhares de católicos, que se identificam com aquelas palavras, no banco dos réus submetidos a um sumário processo digno da época da inquisição. O pior é constatar que o suposto crime não viola o Evangelho, pelo contrário. Está bem em sintonia com a proposta de Jesus que, como em sua época, continua escandalizando os “fariseus hipócritas”, os “doutores da lei” e “falsos líderes religiosos”.

Eis o texto “herético”: “Hoje, somos chamados a olhar com compaixão e solidariedade para os nossos irmãos que sofrem a violência de gênero. Esses nossos irmãos e irmãs são imagem e semelhança de Deus e precisam ser respeitados e acolhidos como filhos de Deus”. E na oração seguinte, se pede a Deus “Tolerância unida à compaixão”.

Primeiro: a palavra gênero não é nova. Lembro que quando frequentava o ensino fundamental, a professora separava as palavras por gênero: masculino e feminino. Também sempre foi utilizada para indicar o sexo, sobretudo, quando, graças a Deus e à luta das mulheres, se começou a dar a devida atenção à violência contra as mulheres. Antes de surgir a “ideologia de gênero”, toda vez que se falava de violência contra as mulheres, já se utilizava a expressão “violência de gênero”, para dar uma qualificação específica a esse tipo de violência e prever consequências mais duras seja na prevenção seja no enfrentamento.

O texto recriminado está inserido no contexto do encontro de Jesus com a Verônica. Uma leitura menos preconceituosa poderia levar a uma dedução imediata: o tema abordado é aquele da violência contra as pessoas por causa de seu sexo, dando ênfase sobretudo à violência contra as mulheres.
Segundo: mesmo admitindo que houve uma referência à ideologia de gênero, em nenhum momento o texto apresenta-se como “declaração oficial da CNBB em favor da ideologia de gênero”.

O parágrafo fala de compaixão, respeito, solidariedade para com irmãos que sofrem violência de gênero, pois, independentemente de suas escolhas e/ou orientações, continuam sendo nossos irmãos e irmãs. Imagem e semelhança de Deus.

Onde está a heresia nisso? O único posicionamento da Igreja nesse texto é contra a violência independentemente do gênero, da idade, da cor, da religião, da ficha penal… de suas vítimas. Esse posicionamento é extremamente coerente com a postura de Jesus. Nos Evangelhos originais, e não nas versões distorcidas de alguns “cristãos”, há muitos exemplos que apontam nessa direção. No texto de João (8,1-11), por exemplo, Jesus toma as dores de uma mulher que estava sendo apedrejada na porta do templo, pois é acusada de adultério. A intervenção de Jesus é no intuito de salvar a mulher daquele ato de violência, independentemente daquilo que aprontara. Nessa mesma linha de Jesus se coloca também o testemunho do apóstolo Felipe que não tem medo, nojo ou vergonha de subir no carro de um eunuco a mando do próprio Espírito para anunciar-lhe o Evangelho (At 8,26-40), prova do que a acolhida fraterna é favorável à evangelização muito mais do que o preconceito.

Atualidade_CNBB

Pe. Saverio Paolillo (pe. Xavier)
Misisonário Comboniano Pastoral 
do Menor e Carcerária Cedhor – PB

 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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