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O tempo parece exaurir-se

Areia
Dar-se ao agora, ao que chega, dar-se ao próprio tempo, encantar-se e assombrar-se com o mundo e com a realidade, exigir de si respostas, mesmo que pequenas, para as muitas complexidades do mundo são chamados permanentes da existência. Esta convocação esteve nas horas primeiras de todas as religiões: assustado e encantado o homem abriu suas sensibilidades para as utopias. Esta convocação ressoa ainda mais fortemente nos nossos dias, marcados que são pelas agressividades, pelos fundamentalismos, pelas ameaças à vida tão assustadoramente reais.

Se as religiões surgem do assombro diante do que se encontra, do que acontece e do que se descobre ao se viver, ainda mais aqueles que se afiliam em comunidades de fé precisam se dar ao presente em modos de espanto, respostas, ousadias. “Não nos é lícito ignorar o que está acontecendo ao nosso redor, como se determinadas situações não existissem ou não tivessem nada a ver com a nossa realidade”, disse o Papa Francisco em Quito.

Não dominamos os acontecimentos que delineiam os territórios das nossas experiências, isso é um fato. Mas, em contrapartida, diuturnamente, nos são oferecidas as possibilidades de viver e agir para que o que é de um jeito possa ser de outro. E estas possibilidades só se apresentam no humilde, pequeno e limitado espaço do presente, o tempo que temos. E o tempo, diz o Papa Francisco em Santa Cruz de La Sierra, o tempo parece exaurir-se.

É sabido que esse deparar-se espantosamente com a vida e com os mistérios que lhe são inerentes não apenas se constituiu como um momento fundante das religiões lá longe no passado em uma terra de prodígios, encantos, e homens especiais, mas configura-se permanentemente como um evento estruturante e atualizante das mesmas aqui no mundo dos comuns e dos eventos cotidianos. Aliás, religião sempre é evento atual, que envolve viventes, a despeito de que muitas vezes ela se assemelhe mais a um grande e portentoso arquivo.

Confrontar-se com o que acontece parece ser o exercício que mantém as religiões como pontes entre o mundo que é e o mundo que pode ser. Se assim não for elas serão apenas as apresentadoras do passado em lindos ritos e textos, em estruturas e organizações.

Ouvir do momento presente, da realidade, do que nos cerca e acontece o sagrado apelo que nos convoca a todos a fazer algo pela vida e pelo mundo parece ser um convite a nos reconectar com as intuições, sensibilidades e utopias que guiaram nossos pais na fé. E ao se falar em mudanças, não apenas falamos de “grandes” mudanças. Falamos em modos e práticas, em posturas e jeitos, em afetos e gestos que podem fazer a diferença nesses tempos difíceis. Somos muito mais livres do que pensamos. Somos muito mais solidários do que temos sido. Somos muito mais generosos do que supomos.

O presente é a página sagrada que temos o prazer e a responsabilidade de escrever para as gerações futuras. Claro que é preciso pensar o que escrevemos, o que não é fácil, dada a complexidade dos dias atuais e também pela nossa imersão neles. Mas, como disse o Papa em Quito, “é urgente que nos animemos a pensar, a buscar, a discutir sobre a nossa situação atual”.

Dauri Batisti

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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