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O tempo acelerado e a vida abreviada

“Enquanto o tempo acelera e pede pressa, eu me recuso, faço hora, vou na valsa… a vida é tão rara”. Lenine

Ano Novo! O que vemos e o que sentimos no tempo que vamos vivendo? Olharemos para o que passou para fazermos o inventário de nossas perdas, ou para nos situarmos mais cheios de vitalidade no hoje que nos abriga/assusta? Os acontecimentos mundo afora e os modos de vida que vão se impondo a todos mais uma vez nos mostram que os sentidos que guiavam nossos passos, que fundavam nossas expectativas e nos orientavam estão sendo esfacelados. O que vivemos não se ampara mais em tempos de amadurecimento, em espaços para alargamento de caminhos, em horizontes a serem alcançados por etapas. Não. Tudo vem e tudo vai com uma rapidez inalcançável.

Mas isso não é apenas uma sensação ou um estado emocional, um mal-estar passageiro. Isso não é um mero estado de espírito. É um quadro real de corpo e alma massacrados, depauperados, exauridos, esgotados. Ou seja, o que se vive tem a ver com os rumos que o mundo toma e com a dinâmica que está cada vez mais a abraçar a todos.

O mundo, como aí está com base na primazia do poder e da financeirização de tudo, excreta como um dos seus subprodutos certa temporalidade. Ou seja, o poder do dinheiro não apenas promove, envolve e define valores, não apenas tatua nossos corpos com as cores dos desejos que ele nos faz ter, não apenas imprime cicatrizes nos nossos corpos pelas cargas a que somos submetidos, ou defini-lhes suas formas pelas rações que nos oferecem como comida, mas também altera o tempo que nos é dado viver. Decerto temos no tempo um vetor importantíssimo na constituição de quem somos. Mas o poder a que estamos submetidos com sua desenfreada necessidade de novidades tem acelerado o tempo para além de nossas capacidades humanas de assimilação. Somos esmagados pelo tempo, ou esgarçados por ele.

Nessa perseguição e apresentação de novidades – que logo virarão sucata porque têm que ceder lugar a outras novidades – somos impedidos de viver o que para nós sempre foi (e será) essencial como seres humanos: a experiência. Ou seja, a aceleração do tempo pela imposição e demanda de novidades nos impede de viver os fatos, as coisas, os acontecimentos, as informações de modo a arranjarmos bem – ou relativamente bem – em nossas almas, mentes e corpos o que nos foi dado viver. Não temos tempo para juntar benéfica e salutarmente significados, sentidos, razões, emoções, memórias, expectativas, conquistas…

Ainda, essa desenfreada e ensandecida produção de novidades para o consumismo tem como um dos seus efeitos “inesperados” – pela aceleração do tempo – a inscrição da morte com muito mais força em todas as coisas. Nada é feito pra durar. Tudo já nasce destinado ao fim, ao lixo, à caducidade, à perda de uso e sentido. Alguém poderá se enganar a ponto de supor que um mundo assim funcionando priorizará e promoverá a vida das populações?

A passagem de um ano para o outro não nos convida, decerto, para as melancolias nas quais sonhamos com um passado glamourizado, como se ali residissem as forças resgatadoras da vida bonita de que somos merecedores. O acesso a um novo tempo também não se dará com ilusões e esperanças vendidas/compradas a preço de sonhos de aluguel. O único convite para essa passagem – nem bonita e nem feia – será aquele que nos chama a olhar/viver o presente com radicalidade. Vamos?

ideia

Dauri Batisti
Padre, psicólogo e Mestre em Psicologia Institucional

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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