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O silêncio na liturgia

mundo litúrgicoO silêncio é condição essencial para a percepção e consciência de si como vivente, em consonância com a dinâmica das relações: consigo mesmo, com a criação e com o transcendente. Ele é um elemento da comunicação, e requer o aprendizado e aprofundamento como capacidade do ser.

A Sacrosanctum Concilium, constituição sobre a liturgia, no número 30, exorta: “Seja também observado, a seu tempo, o silêncio sagrado.” Mas, hoje, como está a vivência do silêncio nas comunidades celebrantes? Ele está sendo valorizado como um elemento da participação ativa, ou está sendo abolido em nome de uma participação ativa, restrita à voz e aos gestos?

O lugar da celebração é o espaço da Nova Jerusalém (cf. Ap 21, 9ss), da nova criação, da superação do caos, da contemplação. A relação da assembleia nesse e com esse espaço tem um diferencial frente aos ruídos descentralizadores do mundo, os quais nem sempre compactuam com a nova ordem do Mistério Pascal de Cristo (cf. Cl 1,15ss). Existem ruídos sonoros ou visuais, além dos ruídos pessoais e circunstanciais que brotam da mente e repercutem na corporeidade.

Redescobrir e valorizar o silêncio durante a liturgia é observar, em primeiro lugar, os ritos e sua dinâmica. Conhecer a ritualidade com propriedade continua sendo um desafio para muitas assembleias. O rito, por si, já é um indicativo das atitudes correspondentes a ele, incluindo o silêncio. Há, pela liturgia, uma nova frequência de sonoridade, pulsação e integração dos batizados, em tom diferencial e potencializador, que repercutirá no mundo, com o envio da assembleia em missão de, com Cristo, por Cristo e em Cristo, fazer novas todas as coisas (cf. Ap 21,5).

O silêncio pede passagem em muitos momentos rituais como, por exemplo: terminado o breve ensaio dos cantos do dia, a assembleia guarda instantes de silêncio diante da grandeza do que irá celebrar; à exortação do presidente da celebração para a revisão de vida e a consideração da divina misericórdia (ato penitencial), todos guardam breve silêncio antes de entoar as misericórdias do Senhor; na proclamação da Palavra são essenciais breves instantes de silêncio entre uma e outra leitura, para interiorização e assimilação; o silêncio condiz após a homilia, como também após a distribuição da sagrada comunhão, no sentido de considerar tudo o que Deus comunicou, em tom de abertura, gratidão e compromisso para com Ele.

O silêncio é o tom da liberdade, própria da verdadeira comunicação, que não impõe e nem massifica, mas conduz ao centro, ao equilíbrio e converge para o bem e a vida plena. Ele é o condutor à integridade do ser. Foi do silêncio de um túmulo vazio (cf. Jo 20,ss) que brotou a boa notícia de vida para todos!

Fr. José Moacyr Cadenassi, OFMCap 

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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