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O nascimento da discípula missionária

A cena de Jesus com a samaritana, retratada na liturgia durante a quaresma, ocupa um lugar importante no Quarto Evangelho e indica a força e a presença dos samaritanos na comunidade joanina. O texto foi escrito seguindo os passos de uma verdadeira catequese na qual, passo a passo, a identidade de Jesus é revelada diante daqueles que acompanham o diálogo instaurado entre o Senhor e a mulher samaritana. Desde o primeiro momento, Jesus é apresentado como o que inicia o diálogo, ele o provoca ao dirigir-se à mulher que vem ao poço procurar água. O interesse do autor do relato é o de manifestar quem é Jesus, figura central do texto, e indicar que no encontro com ele, doador da água viva, toda a sede do homem é aplacada.

Ao longo de todo o texto, o autor do evangelho oferece aos leitores informações importantes a respeito da identidade de Jesus, que partem de sua humanidade até chegar à manifestação de sua divindade. Nos primeiros versículos, Jesus é apresentado como um homem que chega cansado e sedento a um poço, igual a todos os que por lá passavam (v. 6). Mais adiante, a mulher samaritana se dirige a Jesus falando de sua pertença ao povo judeu, oferecendo mais uma informação a seu respeito (v. 9). Na mesma direção, ao referir-se ao poço de Jacó, o Senhor é colocado em relação ao patriarca, que tinha dado aos samaritanos o poço de água do qual ele mesmo se serviu (v. 12). Nesse diálogo com a mulher samaritana, o Senhor a interroga sobre o seu marido, e esta revela parte de sua vida ao dizer que não tinha nenhum. A resposta do Senhor é direta e toca o coração da mulher que o reconhece como profeta, apresentando mais uma informação sobre a identidade de Jesus (v. 19). No que diz respeito à situação dos maridos, faz-se importante ressaltar que o discurso travado nesse ponto entre Jesus e a mulher, se dá num âmbito religioso e que a palavra marido é a mesma utilizada para falar dos deuses estrangeiros. Sendo assim, a pergunta de Jesus era sobre a qual deus a mulher se dirigia, já que na região dos samaritanos eles cultuavam pelo menos cinco deuses diferentes. No final de seu diálogo com a mulher, Jesus se apresenta como o Messias, algo que lhe tocou o coração e possibilitou que ela fizesse a sua experiência profunda com o Senhor (v. 27-27). Deixando para trás o cântaro que lhe servia para buscar a água, ela se dirige aos seus para anunciar-lhes o que tinha recebido do Senhor.

O relato se conclui com a presença do samaritanos reunidos ao redor de Jesus. Esses relatam o que a mulher lhes tinha dito e reconhecem, não mais somente por suas palavras, mas por terem feito eles também a experiência com Cristo, ser ele o salvador do mundo (v. 42). Desse modo, o texto é reconhecidamente catequético, apresentando a experiência da mulher samaritana como modelo de formação de verdadeiros discípulos missionários.

A samaritana, ao deparar-se com Jesus que se encontrava sentado sobre o poço de Jacó, tornando-se ele mesmo a fonte de toda a água viva, faz a experiência própria dos chamados ao caminho do discipulado missionário. Neste sentido, o encontro com o Senhor e os passos dados a partir do diálogo com ele fizeram com que a samaritana percebesse a necessidade de buscar em Cristo a água viva. Tendo bebido dessa fonte inesgotável, ela foi formada como uma verdadeira discípula missionária, capaz de, ao ser enviada, levar aos irmãos e irmãs tudo o que lhe foi confiado pelo Senhor.

Pe. Andherson Franklin
Professor de Sagrada Escritura no IFTA V e doutor em Sagrada Escritura

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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