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O lado desumano dos humanos

Atualidade-1Em época de muita tecnologia, muita técnica e muita informática cresce também e, muitas vezes demoramos para nos apercebermos, a desumanização dos humanos. Pode ser duro fazer este tipo de constatação e pensarmos sobre este contraditório, mas alguns alertas vão chegando e disparam sinais de atenção.

No ano 1986, a Banda Legião Urbana compôs a música Metrópole, que é lembrada até hoje e já atentava para isso.

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Alguns casos de atitudes desumanas assumidas por humanos provocam algumas reflexões. Em duas ocasiões a escritora Lya Luft, refletiu sobre isso. Em uma delas deveria escrever sobre ‘coisas humanas’, mas aconteceram as chacinas de Manaus e Roraima quando pedaços de corpos foram jogados sobre os muros da prisão e corações foram arrancados de outros corpos, e ela escreveu sobre coisas desumanas e terminou o texto assim: “Sinto muito: hoje escrevo sobre coisas desumanas. E que os deuses nos ajudem”.

Na outra ocasião Luft comentou uma frase do Papa Francisco “precisamos de um humanismo menos desumano” e relacionou-a com a forma desumana como o governo trata os mais pobres. “Recentemente as televisões do país (repetidas no exterior) mostravam médicos e enfermeiros tentando desesperadamente salvar a vida de um paciente no chão de um corredor de hospital. Por falta de aparelho, faziam massagem manual no coração do doente — no chão de pedra do corredor. Não faltavam médicos: faltavam leitos, aparelhos, limpeza, faltava a essência que possibilitaria salvar aquela pessoa. Outra reportagem mostrava um médico com lágrimas nos olhos que acompanhou uma paciente em vários hospitais, sem conseguir que fosse internada, e ela, com apenas 45 anos, morreu na sua frente. Não faltou médico: faltou lugar decente para sobreviver ou mesmo para morrer, pois nenhum ser humano deve morrer no chão, como um animal. É desse humanismo desumano, centrado no homem consumista e manipulável, que falava o Papa, dizendo ainda que, enquanto houver uma criança passando fome, um jovem sem educação, um velho sem atendimento médico, ninguém deverá dormir em paz, como um pai não dorme em paz se a seus filhos falta o elementar”.

O humanismo desumano está cada vez mais próximo da gente e é necessário ficar alerta para não se deixar levar. Entre as tantas denúncias que foram feitas sobre o acidente registrado em Guarapari no mês de junho no qual morreram 23 pessoas, uma realçou bem o lado desumano dos humanos. O fato também foi comentado em redes sociais. O escritor capixaba Anaximandro Amorim fez um comentário sobre isso para a Revista Vitória.

Enquanto pessoas tiravam foto com seus celulares, um ônibus pegava fogo, matando uma vintena de pessoas. Qual animal de circo, uma das vítimas implorava por socorro, pela vida de uma outra, presa às ferragens. Captar o mórbido espetáculo era mais importante. E, antes que você pense que este parágrafo dá início a um romance de terror, saiba que estou falando de Fabiana Silva, uma das sobreviventes de um terrível acidente, com 23 mortos, ocorrido no dia 22 de junho deste ano envolvendo um ônibus da Viação Águia Branca, uma carreta, uma mini-van e uma ambulância, na Rodovia do Sol, em Guarapari/ES. Seu esposo, o gesseiro Fernando de Souza Dias, acabou morrendo. Registrar o “show” era mais importante.

Foi Guy Debord o autor de “A Sociedade do Espetáculo”, livro que causou frisson quando publicado pela primeira vez, em 1967. Crítico feroz da sociedade ocidental da época, Debord vaticinou que, dentre outras coisas, seríamos todos acachapados pelo triunfo da imagem sobre as esferas da vida. Mais atual, impossível: depois que inventaram o celular com câmera, cada um de nós é uma celebridade em potencial. Tudo registrado, documentado, desde a palestra de um catedrático até uma simples ida ao banheiro. Debord só não contava com as redes sociais, afinal, quem não está nelas, não está no mundo. E como o bicho homem tem uma tendência geral ao exibicionismo, isso é elevado à décima potência, na proporção direta do bombardeio de coisas desnecessárias que ali produzimos, diuturnamente.

O problema é quando se extrapola o limite do bom senso, algo, aliás, bastante raro nessas épocas de pós-modernidade. Porque, da mesma forma que eu posso noticiar minhas necessidades fisiológicas para o mundo, posso também fazer aquela selfie do lado do cadáver ou mesmo captar o ônibus em chamas, a despeito dos gritos de socorro dos meus semelhantes. É o lado mórbido da natureza humana, que desafia a história: antes eu era testemunha ocular do enforcamento, da decapitação. Hoje, não me basta apenas ser, mas, também, mostrar. Atire a primeira pedra quem jamais recebeu fotos ou até vídeos de suicídios, acidentes, rebeliões e tudo o que a maldade humana produz. A primeira pedra, não: o primeiro celular. E para bem longe, de preferência.

Futuros distópicos, descritos em romances de ficção científica, previam que a consciência humana ficaria presa às máquinas. A vida anda imitando a arte a passos largos. Há quem prefira sair sem documentos a sair sem celular. A sanha de deixar tudo registrado, de produzir conteúdo para “aparecer” nas redes sociais (e ganhar “likes” por conta disso), está nos fazendo cada vez mais menos homens e mais máquinas. Isso custa nossa essência e nos subtrai do mundo real. Há quem diga que as pessoas, por conta disso, andam perdendo o respeito umas com as outras. Acho que não. Fotografar um pedido de socorro enquanto um ônibus em chamas comprova a perda da nossa humanidade.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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