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O drama que a cidade não quer conhecer

Quem vive do cultivo da terra, fazendo da agricultura e das atividades do meio rural a fonte de seu sustento, tem muito claramente em seu dia a dia que sem a água não há vida. Mas quem está nas cidades, com o conforto de ter água chegando através das torneiras das residências, parece não perceber que a escassez deste recurso significa a dificuldade de sobrevivência para todos.

O relato de um agricultor familiar de Santa Maria do Jetibá, feirante em Vitória, deixa evidente esta falta de percepção, segundo o técnico do Incaper, Iosmar Mansk. “O agricultor contou que uma senhora, vendo as alfaces murchas, o indagou sobre a qualidade do produto. Ele respondeu que as hortaliças estavam daquele jeito pela falta de água, afirmando ainda que, não poderia garantir que nas próximas semanas teria hortaliças para vender. A senhora, indignada, respondeu que não havia problema, pois se não tivesse hortaliças na feira, ela compraria no supermercado”, contou.

A realidade do campo, que não é percebida na cidade, representa um verdadeiro drama para as famílias de agricultores, que acabam sendo responsabilizadas pelos prejuízos que a falta de água traz a toda população.

“Em períodos de seca, a primeira atitude do governo é cortar a água da agricultura, baseado na lei federal 9.433 de 1997, que preconiza prioridade para o consumo humano e de animais. Mas as pessoas esquecem que sem água para a agricultura não há alimento. Eu também não vejo campanhas e nem imposições que atinjam o meio urbano com tanta efetividade como as que atingem o meio rural. As campanhas, quando são feitas são superficiais e não retratam de fato a realidade. É necessário ser mais incisivo até para haver um contrapeso, pois o agricultor se sente prejudicado. Enquanto eles, que são produtores de água, sofrem com as limitações para uso, para quem mora na cidade, não há limitações”, observa Mansk.

As imposições para o campo são demasiadamente pesadas e muitas vezes significam a perda de grande parte das plantações. Foi o que aconteceu quando a Agência Estadual de Recursos Hídricos (Agher), através da normativa 58, proibiu a irrigação durante o dia em todo estado, podendo ser realizada, apenas, à noite. A proibição resultou na perda de mais de 40% das plantações de muitos agricultores. Mesmo com as chuvas de dezembro, a normativa continua valendo.

“O desespero com a falta de água foi tão grande que agricultores colocaram fogo em plantações de eucaliptos vizinhos de suas propriedades, na esperança de que a água voltasse a aparecer em suas regiões”, contou o técnico do Incaper.

Outra situação que tem gerado revolta é a possibilidade do governo estadual e do Comitê de Bacia do Rio Santa Maria da Vitória iniciarem a cobrança do uso da água na irrigação para os agricultores familiares.

Para o produtor agrícola Dauber Henrique Thom, a cobrança é mais um prejuízo para quem sofre com a escassez de água durante a maior parte do ano. “Já fomos prejudicados demais por causa da limitação da irrigação, e agora querem nos cobrar por uma água que nós mesmos produzimos. As nascentes estão em nossas propriedades e somos responsáveis por elas. Podem me prender, mas eu não vou pagar mais esta taxa”, desabafou.

O agricultor orgânico Valdemar Flegler conta que a limitação de água, aliada à possibilidade do pagamento pelo seu uso, vem favorecendo o êxodo rural na região.

“Os agricultores estão cansados das dificuldades que só têm aumentado, pois cerca de 80% da produção do município é de hortaliças e folhosas. Muitos estão desacreditados e preferem ir embora para a cidade, pois acreditam que com um emprego fixo terão mais chances de sobreviver. A situação está muito difícil”, lamentou.

Flegler observa que estas e outras ações fazem parte de uma cultura de desvalorização do homem do campo, que precisa ser revertida. “Muitos têm o sonho de comprar uma propriedade no meio rural, e eu digo para não comprar. Venha conhecer a vida do agricultor, venha ao campo valorizar quem produz seu alimento, venha entender quais as dificuldades e limitações de quem lida com a terra, com a escassez de água. Só assim as pessoas passarão a nos dar valor”, afirmou.

A fala dos agricultores revela que confiar apenas à natureza a responsabilidade de garantia no fornecimento de água não é uma atitude sensata. No entanto, esta é a atitude do Governo do Estado que, mesmo em um contexto de crise hídrica que se prolonga há cerca de 3 anos no Espírito Santo, não realizou Investimentos significativos para resolver ou amenizar o problema.

A denúncia parte de especialistas e gestores, e o secretário de Agropecuária de Santa Maria do Jetibá, Agnaldo Andreatta, é incisivo em afirmar que não houve em Santa Maria ou em qualquer município da Região Serrana – região produtora de água, que compreende Santa Maria do Jetibá, Domingos Martins, Marechal Floriano e Venda Nova do imigrante – nenhum investimento significativo nos últimos 10 anos para resolver a crise hídrica.

“O governo criou uma “torneira de ouro” para abastecer a população da Grande Vitória, mas ignora as regiões que produzem a água que abastece a área urbana. Eu desconheço algum investimento volumoso que signifique a importância dessa região produtora de água para o estado, e afirmo que nos últimos 10 anos, milhões de reais foram investidos pelo Governo do Estado apenas na construção de estações de captação e tratamento de água para abastecer a Grande Vitória”, desabafou.

Engana-se quem acredita que as chuvas de dezembro resolveram a crise hídrica no Espírito Santo. Com exceção da Barragem de Rio Bonito, em Santa Maria do Jetibá, não existe hoje no estado, barragens capazes de armazenar água que possa ser usada em épocas de estiagem.

Procurado por nossa equipe de reportagem para uma entrevista sobre a situação, o presidente da Agência Estadual de Recursos Hídricos (Agerh) Leonardo Deptulsk, nos respondeu através de um áudio que o governo está investindo na construção de 60 barragens em todo o estado. As barragens têm previsão de entrega para 2019.

No entanto, as águas dos dois principais rios que abastecem a Grande Vitória – Rio Jucu e Rio Santa Maria da Vitória – e que se tornaram mais volumosas por causa das chuvas, seguiram para o mar sem serem aproveitadas. Como não há garantia de que as chuvas continuem durante o período do verão, a escassez de água continua sendo um problema eminente.

“A média de chuva na região de Santa Maria do Jetibá é 1.250 milímetros por ano e nos últimos três anos de crise tem chovido uma média de 700 milímetros. Se fôssemos somar o deficit hoje, em quatro anos, choveu três. Não houve ainda um carregamento das bacias e o depósito que tem como função abastecer as nascentes não está cheio. É necessário uma frequência de chuvas durante o ano todo”, esclareceu o técnico do Incaper, Iosmar Mansk.

No Rio Jucu, a seca durante a maior parte do ano, soma-se ao problema da poluição, pois em suas águas são lançados esgotos residenciais sem nenhum tratamento em todo seu percurso. A falta de investimento, neste caso, prejudica não só o abastecimento, mas a qualidade da água captada para o consumo da Grande Vitória.

Mas se por um lado o governo ainda não apresenta soluções efetivas para a escassez de água, algumas iniciativas particulares tentam amenizar o problema. Um dos integrantes de um grupo de jovens da Comunidade São Luiz Gonzaga, em Santa Maria do Jetibá, Odemilson do Carmo Cezar, conta que a ação de recuperação de nascentes que o grupo desenvolve em propriedades da região, já tem surtido efeitos, pelo menos no que diz respeita à conscientização dos agricultores.

“O agricultor que tem uma nascente que secou e quer recuperá-la, nos chama. Nós limpamos a área e reflorestamos o local com mudas de plantas nativas da região. O custo com o material é dividido entre o grupo. Cada um ajuda com o que pode”, contou.

Em Domingos Martins, mais de 80 residências localizadas na comunidade de São Miguel, já têm instalado o biodigestor. Os sistemas devolvem ao Córrego do Chapéu – córrego que desemboca no Rio Jucu – limpa e própria para o consumo, toda a água utilizada nas casas da região.

O agricultor Gilmar Mayer Simon mostrou-nos satisfeito um copo com água lançada no córrego após sair do biodigestor. “É muito gratificante saber que não estou mais poluindo o Rio Jucu”, comemora.

No bairro Ataíde, em Vila Velha um projeto do Instituto Verde Vida transforma óleo de cozinha em sabão ecológico, evitando que o material seja descartado em ralos e pias e entre em contato com a água. Ao entregar o óleo, as pessoas recebem a moeda verde, que pode ser trocada por produtos no mercadinho do Instituto.

As três inciativas provam que com boa vontade, com responsabilidade social e vontade de colaborar com a natureza é possível conseguir grandes mudanças. E, como diz o ditado “o pouco com Deus é muito”!

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Andressa Mian
Jornalista

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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