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O dilema do Rio Doce

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O Rio Doce sempre foi o grande colosso hídrico da região Sudeste do Brasil. Tudo que envolve sua história e natureza é descrito com grandiosidade. Por isso, quando se ouve dizer que o Doce não tem força para romper a barreira de areia na foz e desaguar no mar, a primeira sensação que se tem é de que o fim do mundo está próximo ou que o homem foi longe demais em sua ignorância cega de agressão à natureza.

O próprio nome do rio Doce já traz essa noção de suas dimensões majestosas. Reduto de várias tribos indígenas da família macro-gê, o primeiro nome do Doce foi Watu, que na língua dos Krenaks e povos irmãos queria dizer rio largo. Depois, na época da “descoberta” dos portugueses, quando as águas barrentas do rio foram percebidas no mar a cerca de 15 milhas da costa, as caravelas vindas do oceano penetravam rio adentro como se ele fosse um mar de água doce, sendo por isso chamado de Mar Dulce, e logo depois Rio Doce.

Assim como o rio, as florestas que guardavam as suas margens eram também monumentais. Hoje já é cientificamente comprovado através da pesquisa conduzida pela Profa. Dra. Luciana Thomaz que os recordes mundiais de biodiversidade florestal ainda pertencem às florestas do Rio Doce.

Um dos motivos desta região ter se mantido como um local isolado por muito tempo foi a descoberta, em 1696, de jazidas de ouro nas Minas Gerais. Pouca gente se dá conta, mas Ouro Preto e Mariana, as duas primeiras cidades do ciclo do ouro, estão situadas na Bacia do Rio Doce. Ou seja, se o ouro descesse em canoas até o mar chegaria naturalmente em Regência, a foz do Doce. Mas a Coroa portuguesa decidiu que o controle da riqueza dependia da manutenção de apenas um caminho, por terra, até Paraty, no Rio de Janeiro.

Algumas das páginas mais célebres sobre o Rio Doce e suas matas, mostrando os resultados deste isolamento, foram escritas pelo naturalista francês Auguste Saint-Hilaire, que aqui esteve em 1822, e registrou em seu livro “Viagem à Província do Espírito Santo e Rio Doce” o quanto se sentia assustado ao navegar naquelas águas e se embrenhar nas matas escuras e densas que se espalhavam em várias direções.

O mais impressionante é que este conjunto de rio e florestas se manteve praticamente intacto até o início do século XX, mesmo estando encravado no coração da região sudeste, a mais industrializada e urbanizada do Brasil!

A situação da região só começa a mudar com a construção da Estrada de Ferro Vitória a Minas a partir de 1903, processo que se encontra revelado na obra “O Desbravamento das Selvas do Rio Doce”, escrita pelo engenheiro da ferrovia, Ceciliano Abel de Almeida.

As selvas foram transformadas em madeira e em cinzas, dando lugar ao café e este, depois, aos pastos.

Hoje, com as margens e encostas sem a proteção da vegetação, as chuvas na Bacia do Doce carreiam toneladas de solo para o leito do rio produzindo um assoreamento tão gigantesco quanto tudo que se refere a este grande manancial.

E, provavelmente, foi a gigantesca enchente de 2013 a responsável pelo assoreamento da foz agora em 2015. Naquele ano, as águas do rio Doce chegaram, por exemplo, até Urussuquara, cerca de 65 km ao norte de Regência, inundando tudo que havia no caminho. Os sedimentos trazidos das montanhas pela força descomunal da cheia foram estocados na foz. Agora, embora a seca não seja a mais severa já enfrentada pela região, a quantidade de água do rio não consegue ultrapassar o volume excedente de areia trazido em 2013.

Alberto Pêgo
Ambientalista

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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