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O DIA DO POBRE E A MUDANÇA DO OLHAR

revista vitoria –– caminhos da bíblia

Hoje começo o texto com algo pessoal, que marcou, de forma muito simples, mas, ao mesmo tempo profunda, o meu modo de entender o que significa a mudança do olhar, ou seja, como o olhar é capaz de ser educado para ir além do que se vê.

Minha irmã, há um tempo atrás, resolveu fazer uma campanha, por meio de suas redes sociais, para arrecadar cobertores para as pessoas que via morando nas ruas perto de sua casa, um bairro nobre do Rio de Janeiro. A resposta ao seu apelo foi grande e todo o material foi entregue em sua própria casa, pois ela tinha o interesse de impactar seus dois filhos com a proposta, na época o mais velho deveria ter seus dez e o menor seus cinco anos de idade.

No dia da distribuição ela os levou consigo, algo que foi muito importante para o que ira acontecer com os dois, acostumados a uma vida tranquila, muito distante daquela realidade encontrada por eles nas ruas. Bem, passados alguns dias da distribuição, no percurso que ela fazia com o mais novo, de casa até a escola, ele, repentinamente, pediu que parassem o carro. Ela, sem saber o que estava acontecendo, perguntou a razão do pedido e a resposta do pequeno foi: “Mamãe, acabei de ver alguém que não recebeu um cobertor. Pode ser que ele esteja com frio também”. Acontecia diante dos olhos atentos, surpresos e lacrimejantes daquela mãe, algo que fazia do seu filho uma pessoa melhor, isto é, ele mudou a forma de olhar para o mundo ao seu redor.

O Papa Francisco convocou a Igreja, no ano passado, e novamente neste ano, para o Dia do Pobre, a fim de propor uma reflexão, uma tomada de posição, uma mudança de olhar e, sobretudo, um compromisso com os pobres. Em muitos lugares foram feitas ações, que mobilizaram muitas pessoas, a fim de responder aos apelos do Papa, diante de uma sociedade cada vez mais marcada pela exclusão e miséria. Todavia, o apelo do Papa não se reduzia somente, apesar de tão necessárias e urgentes, às ações de assistência, pois o seu desejo era que ocorresse uma mudança do olhar. Isto é, que cada um fosse capaz de olhar, tornar-se próximo e de reconhecer a presença de Cristo nos pobres e sofridos dessa terra.

Em todos os momentos da vida de Jesus, o seu olhar sempre esteve voltado na direção de todos aqueles que não eram reconhecidos pela sociedade, principalmente os pecadores, os pobres e os excluídos. O próprio Jesus afirmou que quem acolhe um necessitado é a Ele que está acolhendo, pois Ele se encontra nos pobres e necessitados, naqueles que sofrem nas estradas do mundo. Em sua entrega na cruz, Ele recolheu num abraço eterno de amor todos os sofredores, os de ontem, de hoje e de sempre. Enfim, todos os que sofrem são excluídos e marginalizados, padecem a dor do preconceito e da discriminação. Sendo assim, os que são chamados a viver a Fé, seguindo o Senhor no caminho do discipulado missionário, são convidados a trazer em seus corações, segundo o que afirma o apóstolo Paulo, as mesmas escolhas de Cristo. Nesse caso, é urgente a mudança do olhar, isto é, faz-se necessário uma conversão profunda na direção dos preferidos de Jesus, isto é, dos pobres. Somente assim, a partir do reconhecimento da presença do Senhor nos pobres e excluídos, é que os discípulos serão capazes de se tornarem a revelação da presença de Deus, junto aos seus filhos e filhas, um sinal de seu cuidado e de amor de Pai.

Num tempo de grandes desafios, no qual a sociedade se organiza para valorizar o mercado e o lucro, que os olhos dos discípulos missionários não estejam cegos, mas bem abertos e iluminados com as luzes e os valores do Evangelho. Que a mudança do olhar seja um movimento cotidiano, um aprendizado para a vida toda, a fim de que o esforço de tornar-se próximo dos mais pobres e necessitados esteja sempre presente no caminho dos cristãos. De modo que a Igreja seja marcada pela solidariedade e compaixão, saindo pelas estradas do mundo, espalhando o amor de Cristo que ilumina e aquece os corações.
Pe Andherson Franklin Lustoza de Souza
Professor de Sagrada Escritura no IFTAV e Doutor em Sagrada Escritura

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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