buscar
por

O DESAFIO DA MULHER

entrevistamichellazortéacarneiro (1)Os diversos papéis desempenhados pelas mulheres na sociedade atual fazem recair sobre elas uma carga pesada, e é cada vez mais comum ouvi-las reclamar dessas diversas atribuições. Ouvimos uma mulher que representa esse universo e, ao mesmo tempo, reflete sobre isso. A Mestre em Ciências Sociais Aplicadas, Doutora em Ciências Jurídicas, professora universitária, mãe de uma adolescente e de três crianças, dona de casa e esposa, Michella Zortéa Carneiro, falou um pouco sobre as multitarefas da mulher de hoje.

É difícil ser mulher atualmente?
Michella - Nossa… eu diria que sempre foi difícil. Nos primórdios da humanidade a mulher concorria com o homem na disputa pela sobrevivência através da caça, coleta e fuga dos predadores. Mas, a partir do momento que humanidade se assenta e passa a desenvolver a agricultura, passando a cultivar para prover seu alimento, o poder passa a ser algo inerente aos homens e de alguma forma as mulheres passam a desempenhar um papel de submissão, de inferioridade com relação aos homens. De lá para cá isso foi sendo repetindo em todas as culturas na história da humanidade.
Hoje em dia com o feminismo, movimento que foi e é muito importante, a situação não exatamente melhorou. Digamos que melhorou em alguns aspectos apenas, porque hoje temos a liberdade de trabalhar, a liberdade para escolher com quem vamos nos casar, ou se vamos nos casar, mas me parece que os papéis sociais não estão muito bem definidos nessas sociedades modernas e por isso fica difícil para a mulher se encontrar. Quando se tem os papéis bem definidos como, por exemplo, nos países do Oriente Médio, nos quais a mulher é do lar e pronto (não estou aqui defendendo esse modelo, apenas tomando como exemplo). Então, neste tipo de sociedade, de alguma maneira se tem ali um objeto de felicidade preenchendo aqueles papéis e está tudo certo. Aqui eu diria que estamos perdidos. Não só as mulheres estão perdidas, os homens também. Porque vivemos ainda um momento de transição, de flexibilização dessas funções e, ao mesmo tempo, a sociedade impõe que os homens fiquem o tempo todo provando sua masculinidade, e as mulheres sua feminilidade.

Encontrar-se é um desafio para as mulheres hoje?
Michella -Penso que é tentar encontrar um equilíbrio entre a sua individualidade como mulher, como esposa, como mãe e como profissional. É um “quadripé” e isso é bem complexo. O equilíbrio não é fácil.

Você diria que as mulheres estão cansadas?
Michella - Estão sim. Estão cansadas porque embora os papéis sociais não estejam bem definidos, existe uma predeterminação cultural sobre isso. São valores culturais que vêm da nossa formação como pessoa, das nossas mães, que passaram para nossa geração e que se traduzem na crença de que a mulher tem que dar conta de tudo, que tem que estar sempre bem para cuidar dos filhos, das questões administrativas da casa, do marido e do trabalho, sendo o alicerce da família. A questão é que não dá para ser perfeita. A gente como mulher tinha que lançar um slogan que fosse contra essa perfeição. Temos que ser todas contra essa perfeição.

É uma cobrança das próprias mulheres então?
Michella - A mulher se cobra a perfeição, mas não é uma cobrança simplesmente pessoal. Há uma imposição cultural e social muito forte e que nós nem sempre nos damos conta. Eu sempre falo que para uma mulher se casar hoje, principalmente no Brasil, e se tornar uma dona de casa é preciso muita coragem. No Brasil quando a mulher não está no mercado de trabalho, se diz que a ela é “só” uma dona de casa, como se esse “só” fosse pouca coisa. Ser dona de casa é cuidar de toda a administração da casa, da alimentação da família, da educação, orientação e cuidado dos filhos, é dar atenção ao marido que representa a pessoa com quem ela escolheu para dividir a vida, e também dar atenção aos parentes, que com o tempo vão ficando idosos. Isso não é só, isso é muita coisa. Na sociedade brasileira isso é muito desvalorizado. Quando tomamos o exemplo de sociedades europeias desenvolvidas, a mulher pode se dar o direito de ser dona de casa com orgulho, pois lá ser dona de casa e desempenhar todas essas funções é algo louvável.

Os papéis que a sociedade impõe para homens e mulheres mudaram ou continuam os mesmos se comparados há décadas atrás?
Michella - Os papéis mudaram, só que as pessoas não se deram conta disso de uma maneira muito clara. Por aí se fala muito em novos papéis dos homens e eles têm essa noção. Mas eles foram criados de maneira diferente. Então, para os homens, ter que se encaixar nas atividades domésticas, é sofrido. A mulher hoje precisa de um parceiro que divida as funções com ela e não de um ajudante. Para eles, se encaixar nas atividades domésticas, é como se estivessem perdendo a masculinidade. E as mulheres se sentem como se estivessem pedindo uma ajuda, e na verdade elas apenas precisam que o companheiro cumpra sua parte. Espero que nós possamos caminhar para encontrar esse equilíbrio. Eu costumo ouvir de amigas que elas pedem ajuda ao marido, mas eu digo que isso não é pedir ajuda e sim que ele faça a sua parte, “não é um favor”. Isso tem que ser trabalhado na cabeça das mulheres, tem que estar embutido no consciente e inconsciente delas e deles, que o fato de compartilhar as tarefas da casa e o cuidado dos filhos não é um favor que os maridos lhes fazem.

Então, pelo que vem acontecendo atualmente com relação às mulheres, existe uma dificuldade nisto?
Michella - Me parece que há uma dificuldade de comunicação, porque como a criação é diferente, a gente já parte para um casamento pressupondo que quem tem que cuidar de tudo é a mulher. Se ela vai para o mercado de trabalho, mais justo ainda que as tarefas sejam divididas. É necessário também que as mulheres façam uma autoavaliação e conversem com seus companheiros para que esta questão seja discutida, mostrando que se os dois trabalham, a divisão de tarefas se faz necessária. Mas não como algo imposto, mas com troca de ideias para que o diálogo não seja bloqueado.

Esse quadro pode mudar começando com a educação dos filhos?
Michella - Isso é muito importante, pois temos a tendência de reproduzir nossas mães. Dessa forma a gente impõe para as meninas as tarefas domésticas, de ajudar nos cuidados da casa, e os meninos ficam sendo esquecidos nessas funções. É importante que não fiquemos apenas no discurso, mas que coloquemos isso em prática dentro de nossas casas, atribuindo também aos meninos parte destas tarefas.

Qual a mudança necessária hoje na sociedade e na família para que a carga da mulher diminua?
Michella - Eu respondo esta pergunta com um questionamento. Será que nós devemos continuar tentando ser “supermulheres”? Porque é isso que estamos fazendo conosco, tentando ser “super mulheres”. Isso é mesmo necessário? Ao fazermos isso nós perpetuamos a ideologia que temos que dar conta de tudo.

É cada vez mais comum ver homens jovens passeando com bebês nos parquinhos, ou fazendo alguma atividade com os filhos, sem a companhia das mães. É um sinal de transformação?
Michella - Com certeza. Me parece inclusive que os homens estão muito dispostos a fazer isso. Vejo meus primos mais novos, recém-casados, e eles já têm um olhar diferente com relação à paternidade e as tarefas domésticas. Se eles vêm assumindo esses papéis com a clareza de que é uma função que também é deles e que isso não fere a masculinidade deles, é um grande avanço. A partir do momento em que a sociedade aceita de uma maneira bem clara estas posições, fica mais fácil para as mulheres que elas também assumam e aceitem a necessidade de dividir as tarefas.

Andressa Mian
Jornalista

editor1

Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

Mais posts do autor

COMENTÁRIOS