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O carisma e a simpatia a serviço da população

Meirelles é um guarda de trânsito diferente. A sua forma de trabalhar no município de Vila Velha virou sua marca registrada e hoje ele faz sucesso entre os cidadãos e também nas palestras e nos vídeos que circulam na internet. Nessa entrevista ele mostra o porquê de sua popularidade.

vitória - Para começar, conte um pouco das suas peripécias durante o trabalho.
Meirelles - Às vezes quando eu vou fazer abordagem, a tendência das pessoas é olhar feio para o guarda, pois nos veem como agente punitivo, então eu já chego e falo: cidadão bom dia! Primeiro as pessoas se assustam porque minha voz é grossa, segundo porque pra eles guarda não dá bom dia, eles costumam é multar. Uma vez eu peguei dois pregadores de roupa, aí o motorista se assustou e eu falei: senhor, deixe sua raiva secar, sabe por quê? Porque o barro quando bate na sua roupa e você tenta limpar ele te suja mais, a mesma coisa com a raiva, quanto mais raiva, mais irado você fica. Então leve o pregador e pendure a sua raiva quando chegar em casa e deixe secar. Depois sacode e sai tudo.

vitória - O senhor já carrega tudo aí dentro da roupa?
Meirelles - Tenho tudo aqui. Tem pessoas que precisam de tempero, então eu levo um pacotinho de tempero e entrego pra ela dar uma temperada na vida. Eu tenho erva cidreira, chás. Quando as pessoas estão nervosas, entrego um chá pra elas se acalmarem. Carrego bombons para os bons motoristas. As pessoas pensam: esse guarda é doido. Se ‘ser doido’ é tratar bem a população, fazer bem, eu sou doido sim. Se eu conseguir salvar um já valeu a pena.

vitória - O senhor foi sempre assim?
Meirelles - Eu fui sempre assim, meu comportamento sempre foi pra cima. Devido a educação do meu pai, nós somos seis irmãos e meu pai era militar, sempre respeitou, ensinou a respeitar todas as pessoas e tratar todo mundo bem. Na minha família são todos brincalhões. A vida pra mim é um dom, graças a Deus eu sou feliz. Eu percebi assim, se eu sou feio com a cara feia, vou virar um Shrek! Então decidi abordar sempre as pessoas com educação.

vitória - Essa decisão de agir assim, o senhor tomou enquanto guarda municipal ou em outro momento?
Meirelles - Eu já trabalhava dessa forma. Eu sou ex-funcionário da Petrobras, e pedi para sair na época porque meu pai estava doente e eu preferi tomar essa decisão. Depois disso eu decidi fazer o concurso para ser guarda, fui aprovado e pensei que eu poderia ser mais, poderia fazer diferente, tirar essa imagem de que guarda foi feito para multar. Sou a favor de multar, mas sou a favor da educação, da maneira de abordar, de como falar. Nas multas que aplico eu nunca tive problema com nenhum condutor. Eu chego e pergunto: O senhor pode colocar o cinto? Se ele coloca o cinto, para mim sanou o problema. Eu creio que dessa forma não preciso aplicar a multa, embora a legislação preveja que eu a aplique. Mas se a pessoa ouviu, acatou, não vejo motivos. Agindo dessa forma eu diminuí muito o índice de pessoas sem cinto ali na ponte em Vila Velha.

vitória - Já conseguiu mudar a forma de trabalhar de outros colegas?
Meirelles - Sim, nós temos outros guardas que trabalham dessa forma. Mas não existem seres humanos iguais, sei que há colegas melhores do que eu. Cada um tem autonomia para trabalhar da maneira que julgar correta. Sempre acreditei que podemos melhorar. As pessoas se impressionam quando cai um avião, mas o nosso trânsito mata um avião por dia. Enquanto a gente dá essa entrevista já morreram cinco. Em média são 130 mil pessoas mortas no trânsito por ano. Nós temos que fazer alguma coisa, e como a gente pode mudar isso? Com gentileza, com normas mais duras, etc. As pessoas acham que eu não multo, mas eu multo sim, mas também discordo de um ônibus andar com 60 pessoas em pé, andando a 80 km/h. Por que essa multa não vai para o ônibus também?

vitória - Lembra qual foi o primeiro gesto que criou para abordar os motoristas?
Meirelles - São tantas coisas. Além do chá, o bombom, tem pirulito. Dois motoristas disputando quem chega primeiro, tentando ultrapassar o outro, eu chego assim: bom dia senhores, tudo bem? Eu preparo, abro a bolsa e o cidadão já acha que vai ser multado, eu tiro dois pirulitos e dou um pra cada: isso que vocês estão fazendo é coisa de criança, então toma o pirulito. Eu não sou 100% em nada, nem quero que pensem isso, mas eu sou um funcionário, servidor público. Se você não tem condição, saia do serviço público, porque ali é lugar para servir o próximo.

vitória - Depois que começou a agir dessa forma, o que mudou na sua vida?
Meirelles - Mudou tudo. A gentileza é uma coisa que você dá de balde e recebe de barril. Alimentação, por exemplo, eu tenho almoço, café da manhã, os restaurantes me ajudam na dieta (risos). E eu não recebo isso por não multar, pelo contrário, é porque eles gostam da forma que eu trabalho. Ali no ponto onde eu ficava, eu parava o ônibus para as pessoas, porque elas perdiam o ônibus por não conseguir chegar a tempo. Aí você pode perguntar, mas o que você tem a ver com isso? Eu sou guarda de trânsito, somos responsáveis pela segurança. Não me custa nada parar o ônibus, ao invés de ficar parado ali. Nisso eu fui conhecendo as pessoas e isso abriu portas até para minha filha. Já ganhei tantas bíblias ali, tudo por causa do meu trabalho, fazendo aquilo que todo mundo deveria fazer, que é tratar os outros bem. As pessoas estão se sentindo carentes de serem bem tratadas.

vitória - Sente necessidade de estar criando coisas diferentes?
Meirelles - Eu não me preocupo, porque é tudo muito natural, de momento. A minha mente, Deus me deu esse dom de criar coisas. Eu e o Mendonça, meu companheiro de trabalho, criamos uma música da faixa de pedestres que nunca foi tocada, mas vou cantar para vocês: “As pessoas estão sem paciência, estão perdendo o respeito e a educação, quem sabe ouvindo essa canção, você muda de opinião. Pare na faixa, é nota 100, você praticando o bem. Pare na faixa, que beleza, você gerando gentileza. Pare na faixa, é nota mil, eu e você mudando o Brasil. Agora que já sabe essa canção junte comigo nesta missão, com a gentileza e a educação, cantemos juntos essa canção”.

vitória - Você tem três personagens: é pai, tem a sua família; é guarda de trânsito e é palestrante. A sua essência muda em cada um desses ambientes?
Meirelles - Do mesmo jeito que eu dou palestra é o mesmo jeito que eu trabalho, senão eu soaria falso. Quem vê as minhas palestras sabe que na rua eu sou a mesma coisa. O que eu falo aqui, eu vivo na prática. Hoje tive uma palestra com alunos de escola municipal, de 15 e 16 anos. Nós mostramos para eles aquilo que acontece quando se está sem cinto, quando está com outra pessoa embriagada ao volante, entre outros exemplos impactantes, que é para alertá-los dos riscos e fazer deles motoristas mais conscientes.

vitória - O que é mais gratificante na função?
Meirelles - Não tem preço receber o reconhecimento. Certo dia na praia, vi uma senhora com dificuldade em estacionar, então fui até ela: Bom dia, senhora, em que posso ajudar? E ela: é que estou com dificuldade de estacionar. Então eu disse: Não seja por isso, guardei uma vaga para a senhora, a minha viatura não precisa estar ali, ela estava guardando a sua vaga. O filho dela que mora na Suíça disse que só viu guarda assim na Suíça. Isso mexe com a pessoa, imagina a qualidade de vida da Suíça. Mas todos deveriam agir dessa forma. Eu não sou melhor do que ninguém, apenas gosto de fazer a diferença.

vitória - Sempre tem essa energia? Não fica estressado?
Meirelles - Só quando eu estou com sono, e mesmo assim, em casa (risos). Mas é só de imediato, eu tenho facilidade em acordar, sou disposto, me canso é claro, porque sou humano, mas se for para ajudar os outros estou sempre disposto. Eu não tenho tempo de ficar estressado, isso faz mal para o coração, para a mente e para os outros. Eu não levo meus problemas de casa para a rua e nem o contrário, é difícil, mas o tempo nos ensina.

vitória - Se você deixasse de ser guarda seria o que?
Meirelles - Ia ser médico. Eu gosto de atender, de lidar com as pessoas. Eu ia ver a medicina muito mais pela pessoa do que pelo dinheiro. Seria muito bom chegar e dizer que Deus me usou para curar outra pessoa e falar que ninguém me deve nada. Eu gosto de ser útil. 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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