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O BEM QUE FAZEM OS LIVROS

revista vitoria –– ed abril - entrevista2O mês de abril é celebrativo para a literatura infantil, pois comemoram-se nos dias 02 e 18, os dias Nacional e Internacional do livro infantil, respectivamente. O escritor capixaba Diuliard Costa, o tio Diu, que também tem uma companhia de bonecos, fala sobre a importância da leitura na infância e sobre seu papel como ferramenta de conscientização de crianças e adultos na preservação da natureza e respeito ao próximo.

Qual a importância da leitura para as crianças?

A leitura proporciona a coordenação de ideias, pois quando a criança lê, ela cria a ideia da ordem do texto e começa ordenar as situações do seu dia a dia. O texto infantil está aliado à imagem, e isso ajuda a criança a visualizar o mundo de uma forma mais simples. A leitura estimula a criatividade, pois enquanto lê, a criança vai imaginando toda a história e, além disso, todo livro traz uma mensagem, um ensinamento. É um veículo capaz de colaborar com o processo de crescimento intelectual, pessoal, social da criança. Enfim, é uma ferramenta extremamente importante no desenvolvimento infantil.

Estamos inseridos em um mundo tecnológico e isso é um grande atrativo para as crianças. Como você avalia o interesse delas pelos livros?

Nós, os adultos, ocupamos todo nosso tempo do dia com algo que avaliamos ser importante, mas esquecemos do tempo mais precioso que é o de estar com nossos filhos. O tempo de brincar, de ler um livro e de cultivar na vida deles o interesse pela leitura. Dar um celular ou um tablet na mão da criança durante todo o dia é mais fácil. Então, para que a criança vai querer um livro se ela não vê os pais lendo, se ela não ouve os pais lendo para ela? O fato dos livros estarem se afastando da vida das crianças, não está relacionado às crianças não gostarem de ler. A questão é que elas não estão sendo apresentadas aos livros. Isso tem que partir, inicialmente, dos pais. Não precisa ler um livro inteiro todos os dias, mas um pedacinho em cada dia. Isto já insere a criança na rotina da leitura e consequentemente seu interesse pelos livros.

Mas como lidar com a concorrência da tecnologia?

A tecnologia deve ser uma aliada, mas não substitui os livros. O contato com o papel é muito importante, mas infelizmente os livros ainda são de pouco acesso para muitos. Quanto menor o poder aquisitivo, menor a quantidade de livros em um lar. Para os que têm o poder aquisitivo maior, os filhos terão o tablete, e também os livros.

Você já participou de várias bienais do livro infantil aqui no estado e de vários eventos relacionados à literatura infantil. Mesmo diante de tudo isso; da tecnologia, da falta de estímulo dos pais, nesses eventos é possível notar se há interesse do público infantil pela leitura?

Bom, há 4 anos não temos mais bienais e nem feiras que valorizem a literatura infantil, por falta de incentivo do governo. Mas em todos os eventos que já participei e os que continuo participando, é notório o interesse de todas as crianças pelos livros. Nesse eventos, estão presentes contadores de histórias, apresentações teatrais, ou seja, têm alguém interpretando os personagens e interagindo com as crianças. Isso colabora para que elas tomem gosto pela leitura.

Atualmente estamos presenciando o fechamento de muitas livrarias. Como você avalia isso?

Estamos na era da tecnologia e muitas estão deixando de ser lojas físicas e migrando para plataformas virtuais. Uma loja física em um shopping, por exemplo, paga um aluguel de R$ 20 mil por  mês. Com uma plataforma virtual, se gasta cerca de R$ 3 mil para manter um site no ar. Então, fica caro manter uma loja física que venda livros. Muitas tentaram se adaptar, vendendo outros produtos, mas a maioria está migrando mesmo.

Você vê essa mudança como positiva?

Não. A gente precisa desses espaços sociais onde os livros fiquem expostos, sejam apreciados e ofereçam uma interação, especialmente porque nossas bibliotecas públicas não são atrativas. Se tivéssemos ambientes diferenciados, não teria problemas nenhum, as livrarias poderiam fechar, mas não é o que ocorre.

O que é ser uma biblioteca atrativa?

É ser adaptada para cada público. No caso do público infantil, que tenha cores, espaços para sentar, deitar no chão. Que tenha um ambiente de conforto para que a criança construa seu hábito com a leitura. Porque a partir dessa construção, ela será alguém que vai ler em qualquer lugar, até dentro de um ônibus. Mas o que vemos nas bibliotecas são cadeiras duras, ar condicionado inapropriado, paredes brancas, pessoas estudando que exigem silêncio, enfim, não há atrativo.

O livro a Descoberta do Condor foi seu primeiro livro? Sobre o que o livro conta?

Sim, eu o lancei há seis anos e fala sobre a poluição do meio ambiente. É um pássaro que morava em uma reserva ambiental e que ao viajar para conhecer outros lugares, descobre que as pessoas estão destruindo a natureza. Ele fica desolado.

Como surgiu a ideia de ter como personagem principal da história um pássaro que conta tudo isso? 

Esse livro foi uma inspiração de Deus. Nas apresentações da companhia de bonecos, eu falava sobre meio ambiente com as crianças usando o personagem de um rato. Então eu pensei em fazer isso usando o personagem de um urubu. A ideia era fazer o urubu explicar que ele não come lixo, e mostrar para as crianças que não se deve jogar lixo no meio ambiente, pensando que assim estariam alimentando os urubus. O artista que cria os bonecos se atrapalhou um pouco e acabou criando o Urubu Real dos Alpes Suíços (risos). Quando eu recebi o personagem eu pensei: na boa, eu moro no Espírito Santo e aqui não tem o Urubu Real dos Alpes Suíços (risos). Ninguém vai dar crédito para esse urubu aí. Então eu guardei o boneco no meu escritório e dois anos depois, eu estava trabalhando de madrugada, olhei para ele e pensei: você parece uma águia, um condor. Aí primeiro surgiu a música que está no livro… eu tô condor, eu tô condor no coração, de tanto lixo, de tanta poluição…e na mesma madrugada nasceu a história.

E como foi a receptividade das crianças com essa história?

As crianças gostaram bastante. Eu sou suspeito para falar, já faço teatro de bonecos para elas há 10 anos, mas quando eu lancei o livro foi um marco. Foi algo bem significativo para mim, pois uma coisa é contar uma história, outra coisa é contar a sua história e as pessoas pararem para ouvir a história de um autor capixaba.

Você acredita que o personagem do Condor consegue passar bem a mensagem sobre a importância da preservação da natureza?

Eu falo sempre que quando os pais falam, ensinam, as crianças ouvem, mas o que um personagem fala, para elas vira uma regra. Os pais brincam, abraçam, conversam, explicam, amam, mas a mágica, o lúdico só um personagem consegue. Para eles é uma pelúcia que tem vida e que reafirma o que os pais ensinaram. As crianças acham isso é incrível.

Você lançou outro livro, “Imagine só; uma história para crianças de 0 a 180 anos”. Qual é o assunto desta vez?

É um livro para todas as idades. Vem em forma de gibi, que todo mundo gosta e a função deste livro é falar sobre o respeito pelo próximo. O personagem principal se chama Toinho e ele quer tudo do jeito dele, mas começa aprender com os outros personagens que a vida não é assim, que em sociedade a gente tem que respeitar as outras pessoas.

Como escritor e como pai que você é, que conselho você daria aos pais hoje?

A regra máxima hoje nas famílias é dizer que não tem tempo, ou dizer que trabalham muito para dar conforto para as crianças. Trabalhar muito para dar conforto para o filho, não é o que ele te pediu. Os filhos serão muito mais gratos se os pais oferecerem para eles tempo com qualidade. Brinque, leia um livro, aproveite esse tempo. Esteja junto para que as crianças entendam que é mais importante ser do que ter. Vamos cuidar dos nossos filhos, pois eles são nosso maior tesouro.

Andressa Mian
Jornalista

 

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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