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Não percamos a esperança

Não estou seguro se vivemos um tempo especial. Chego a pensar que é uma experiência única, sem qualquer lembrança de alguma repetição no passado da história brasileira, pelo menos nos dois últimos séculos, XIX e XX, cheios de ação política, empenho transformador dos atores políticos, mudança de regime, passando da monarquia para república.

Depois do regime autoritário durante vinte anos, de 1964 a 1984, o Brasil vem exercendo a democracia com grandes dificuldades, expressas na imaturidade democrática, com conteúdos e atitudes próprias de um país adolescente, sem levar em consideração os valores centrais da pessoa humana, seus direitos e deveres, a corresponsabilidade na construção de um povo fortalecido na promoção e cultivo do bem comum.

Chegamos a um ponto crítico: fala-se que experimentamos uma crise econômica política e social. Eu diria, antes de tudo e sobretudo, vivemos uma crise ética e moral sem precedentes, e gravíssima! Perdeu-se o respeito à pessoa humana. Valoriza-se mais o cão enfermo do que a criança ou o idoso enfermo. Perdeu-se o respeito às religiões, sendo que algumas delas parecem mais oportunidade de negócio e ludíbrio dos incautos do que fé em Deus Senhor da História! A pessoa humana tornou-se um objeto de soma em busca de resultados lucrativos. O que vale mesmo é o lucro, resultado de um mercado livre e sem escrúpulos. Os poderes Legislativo e Executivo expressam uma sociedade sem ética e moral e se manifestam desde os pequenos negócios até aos maiores, “as malas” levadas às pressas entre os comparsas, “as caixas” de dinheiro em apartamento alugado para guardar o acúmulo da ignomínia vergonhosa e sem tamanho! Perderam a credibilidade por falta de compromisso ético e moral. E, ainda há quem os defenda como grandes personalidades!

O povo está desiludido, sem ânimo para encontrar um caminho de esperança. Perdeu a “alma da esperança”! Hoje, milhões de desempregados estão em busca da vida! Amanhã, como será? Há economistas que, através da mídia usam de um terrorismo intelectual avassalador, propondo reformas tributária e da previdência como única saída, sem as quais será o fim dos aposentados etc., verdadeiro terrorismo emocional para os pobres aposentados! Outras vertentes dos economistas chegam a escrever que não existe crise econômica e sim imposição de uma proposta de um capitalismo selvagem que aumenta a desigualdade entre os brasileiros, elitizando os mais ricos e empobrecendo os que já são mais pobres. Privilegiam o mercado e o lucro excessivo sobre o social, a distribuição de renda. Com isso cresce a violência, aumenta-se a miséria e acabo de ouvir que há quem deseje e ameace a volta ao autoritarismo militar.

A Igreja não pode se omitir. Os católicos políticos precisam dar testemunho do Evangelho de Cristo no compromisso com o Amor, a Justiça e a Verdade. Não podem entrar no jogo sujo dos descomprometidos com a ética e a moral. A Igreja deve ser sinal de esperança na sua pregação e gestos. As Escolas Católicas e cristãs, mais do que nunca, precisam empenhar-se com amor (como de fato o fazem) na formação ética e moral de seus alunos. As escolas públicas precisam ser ajudadas por professores que se preocupem com um Brasil melhor, pautados em valores humanos como a honestidade, a verdade, a justiça e o respeito ao ser humano.

Há esperança! Nem tudo está perdido. Longe de nós o autoritarismo! Conosco, sim, a democracia adulta e capaz de transformar este povo em uma Nação mais democrática, justa, alegre e progressista. Não percamos a esperança!

Dom Luiz Mancilha Vilela, ss.cc.
Arcebispo de Vitória

 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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