buscar
por

Na falta de água plante água

A falta de água no Espírito Santo é uma ameaça constante que vem provocando diálogos, reuniões, criação de grupos, promessas do governo e pouco, muito pouco mesmo de iniciativas concretas para encontrar soluções.

A falta de água é uma questão que afeta o Brasil e outros países, mas a situação na Grande Vitória assusta sobretudo por não existirem reservatórios e por falta de ações que se proponham resolver o problema.

Assistimos a alguns movimentos da sociedade que buscam pautar o assunto com preocupação e seriedade: FAMA, Fórum Alternativo Mundial da Água que levantou a bandeira da privatização e já realizou um Seminário Regional do Sudeste em Vitória e MAB, Movimento dos Atingidos por Barragens que como o nome já explica, encabeça a luta em favor das pessoas atingidas por acidentes em barragens e fará o primeiro Encontro Estadual de 20 a 22 de novembro. Neste mês de novembro também completa dois anos do rompimento da barragem de Fundão em Bento Rodrigues e os problemas daqueles que “se alimentavam” do Rio Doce ainda não foram sanados. O Governo do Estado também já lançou a campanha para que a população poupe água

Além disso, algumas notícias vão surgindo à surdina e para as quais é necessário ficar atento: aqüífero, lençol freático, barragens, outorgas!

A Revista Vitória inicia, nesta edição de novembro, uma sequência de matérias, artigos e entrevistas sobre esse assunto. Nesta primeira vamos falar de duas ações que prometem fazer diferença e que estão longe da mídia, sem a devida atenção do governo, apenas sobrevivendo na base da boa vontade e até mesmo de recursos de poucos que acreditam ser possível ajudar a natureza a cumprir bem o seu papel.

Uma visita a Santa Maria de Jetibá no mês de outubro trouxe-nos uma visão geral de como está a situação do Rio Santa Maria da Vitória, um dos rios que abastece a Grande Vitória, mas principalmente de como as pessoas naquela região percebem o problema da falta de água.
Conversamos com o Incaper, Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural, com o Sindicato, com a Prefeitura e com alguns agricultores. Essas conversas serão publicadas no site da Arquidiocese, nas redes sociais, nas Emissoras de Rádio América e Líder, nas mídias das paróquias pelos grupos da pastoral da comunicação (PASCOM) e aqui na Revista Vitória.

A água está escassa e os agricultores sofrem para cuidar da lavoura. Mas o que mais chamou nossa atenção foi que apesar da preocupação com a falta de água, as penalizações que estão sendo feitas aos agricultores como irrigação noturna, o conhecimento de brigas entre eles motivadas pelo plantio de eucaliptos, insatisfação com a perspectiva de ter que pagar pela água, a preocupação acentuada de que a informação não chega ao agricultor como deveria e a linguagem não é de impacto e compreensível, apesar de tudo isso, o trabalho realizado há dois anos por jovens da comunidade era praticamente desconhecido ou pouco valorizado pela liderança local.

Constatamos que o nível do rio e da barragem estão baixos, ouvimos a preocupação de pessoas que moram próximo ao rio e já sofreram com enchentes. Tomamos conhecimento dos erros históricos que desmataram a região e da falta de educação para poupar, mas o pouco que está sendo feito nos sensibilizou.

O grupo de jovens da comunidade Santa Rita, em 2015, ao perceber que as agressões ao meio ambiente cresciam, resolveu agir. O desafio era tão grande que eles não sabiam por onde começar. Então confeccionaram uma cruz e a soltaram dentro de um balão. A cruz caiu em Laranja da Terra e o grupo preparou-se para agir a partir dali. Produziram mudas de plantas nativas da região e específicas de Laranja da Terra e foram para lá dando início ao replantio. Quatrocentas mudas foram distribuídas nesse dia. A partir daí organizaram outra ação: a de limpeza da rodovia que liga as cidades de Santa Maria de Jetibá e Santa Leopoldina. Para esse mutirão a comunidade foi convidada e reuniu 42 pessoas que recolheram duas toneladas de lixo. A ação foi percebida pela Câmara de Vereadores e quando os jovens se apresentaram para cobrar uma ação da Prefeitura a proposta veio seguindo o modelo que já tinha dado certo: os lugares onde a coleta seletiva não chegasse, receberiam mutirões da Prefeitura para manter e conservar a cidade limpa. Diante desse retorno, os jovens voltaram-se para a ideia inicial de preservação e começaram a se organizar para chegar nas áreas degradadas e recuperar nascentes. O próprio grupo criou uma associação e com o dinheiro dos sócios mantém o viveiro para recuperação das nascentes.

Onde eles sabem que existiram nascentes e secaram, lá vão em mutirão para fazer a contenção e cercar a área. Depois plantam as mudas e entregam à natureza para que ela se recicle e retome seu ciclo.

É pouco para resolver? Certamente. Mas é uma esperança que ganha força.

Do outro lado, outro fornecedor de água da Grande Vitória também luta para sobreviver. O rio Jucu além de pouca água, a mesma está fortemente poluída, em todo o seu curso, mas particularmente a partir da chegada a Viana. Porém, também ali existe uma iniciativa que, junto com o rio, luta para sobreviver. A iniciativa é de utilização de biodigestor que já teve algumas adesões e apresentou bons resultados. O biodigestor é um equipamento simples que instalado nas residências, indústria ou comércio tem capacidade de tratar a água utilizada em diversas atividades e devolvê-la ao rio num processo de reutilização. O equipamento separa os gases, o esgoto, as águas cinzas e a gordura e funciona de forma semelhante ao aparelho digestivo humano. No final toda a água é tratada e volta ao rio. Em algumas residências em Domingos Martins, pequenas experiências foram realizadas e aprovadas. Em algumas localidades, é possível constatar o resultado. Quem aderiu está feliz com a inovação. Os primeiros biodigestores foram adquiridos com a ajuda do Ministério Público.

Contudo, a dificuldade é a mesma que encontra o grupo de jovens de Santa Maria: não tem apoio do governo. Neste caso o custo não é acessível a grande parte da população e o idealizador vai de porta em porta buscando apoios e ajudas para conseguir baixar os custos de equipamento e instalação.

Será que recuperar nascentes e tratar água para devolvê-la à natureza não são projetos que mereçam atenção do governo? Que tal incluir como “kit gratuito” às famílias inscritas em programas sociais ou de baixa renda? Será a água menos importante que o canal digital de TV?

Maria da Luz Fernandes
Editora

editor1

Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

Mais posts do autor

COMENTÁRIOS