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MOMENTOS ESPECIAIS NA CAMINHADA DA ARQUIDIOCESE DE VITÓRIA

Assim como a terra precisa de descanso para voltar a dar frutos, a Arquidiocese de Vitória fez algumas pausas ao longo de sua história com o propósito de que novas ações e ideias surgissem possibilitando a colheita de novos frutos. Nestes 60 anos, esses momentos aconteceram tendo como ponto de partida o Concílio Vaticano II realizado pouco tempo depois da criação da Arquidiocese. Estas pausas tiveram um significado importante para o rumo tomado pela Igreja Particular de Vitória.

Tendo participado do Concílio Vaticano II, que aconteceu entre 1962 e 1965 e lançou as bases para as reformas da Igreja Católica, em especial na liturgia e na ação política e social, Dom João Batista da Mota e Albuquerque, o primeiro Arcebispo Metropolitano de Vitória, percebeu o desafio que tinha pela frente; colocar em prática as determinações do Concílio.

Para esta missão ele contou com seu bispo auxiliar, Dom Luís Gonzaga Fernandes. Ao retornarem para Vitória ao término do Concílio, Dom João enviou Dom Luís para Colatina, e lá, como conta a professora do Centro de Educação da Universidade do Espírito Santo (UFES) Marlene Cararo, o bispo auxiliar, inquieto sobre como faria a transmissão das ideias do Concílio, fez uma segunda “pausa para reflexão” que teve como fruto a organização dos Concilinhos, encontros e cursinhos para divulgar a nova forma de ser Igreja.

Nesses encontros, explica Marlene – que atuou como leiga na Igreja de Vitória -, Dom Luís queria popularizar os quatro pilares do Concílio: Igreja povo de Deus, liturgia a alma da Igreja; o papel do católico no mundo, sendo “Sal da terra e luz do mundo” (Mt 5,13-16), e o acesso dos leigos à bíblia. Para cada tema o Concílio publicou um documento que era estudado nos Concilinhos.

“Os Concilinhos começaram em Colatina e imediações, e aconteciam regionalmente com a assessoria de padres e religiosas, qualificados para traduzir os documentos resultantes do Concílio. O material de apoio foi preparado pelo próprio Dom Luís com apoio de Dom João, e de maneira popular e pedagógica, traduzia as ideias força do Concílio Vaticano II para que todos pudessem assimilar”, comenta.

Em Vitória também ocorriam os Concilinhos, com duração de uma semana e com o conteúdo básico do Concílio sendo transmitido às lideranças eclesiais da Arquidiocese.

Entretanto, as novas ideias encontraram resistência, em especial nos grupos mais tradicionais, tanto no interior como na capital.

A funcionária pública aposentada, Teresa Côgo, que morava em Governador Lindenberg na época, conta que quando Dom Luís circulava nos distritos e fazendas para fazer, com muito jeito, a divulgação das ideias do Concílio, elas eram aceitas, já que era o bispo quem estava falando, mas a aplicação prática dessas ideias, provocaram desentendimentos.

“Lembro que a retirada dos santos dos altares principais das capelas foi motivo de muita briga. Muitos fazendeiros que haviam doado as imagens se revoltaram e levaram as imagens para casa. Havia muito bate-boca entre os que queriam aderir às mudanças e aqueles que não queriam”, lembrou.

Podemos dizer que como frutos da disseminação das ideias do Concílio, tivemos os leigos assumindo seu protagonismo na Igreja, participando cada vez mais de formações e cursos preparatórios para catequese, coordenação de grupos de jovens, liderança de círculos bíblicos. A falta de presbíteros para celebrar as missas também colaborou para que os leigos assumissem as coordenações e condução das celebrações da Palavra, trazendo a interpretação do Evangelho para situações do dia a dia e provocando os participantes a serem agentes transformadores nas questões sócio-políticas e econômicas. Este foi o modelo que deu origem às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), um movimento que partiu do interior para a Grande Vitória.

Em Colatina, Dom Luís atuou na linha de frente da formação dessas Comunidades entre os anos de 1968 e 1970 e a partir de 70, nos municípios da Grande Vitória, que recebiam grande contingente de pessoas vindas do interior por causa da erradicação dos cafezais e por conta da instalação de projetos industriais em Vitória e imediações.

A partir deste momento, as Comunidades foram ganhando força e assumiram as decisões, das Conferências de Medellín, na Colômbia, em 1968 e Puebla, no México, em 1979, que representaram o momento em que a Igreja da América Latina trabalhou com a ideia de integração fé e vida e fez opção preferencial pelos pobres.

Em 1968, com a aprovação de Dom João, criou-se em Vitória o IPAV (Instituto Pastoral da Arquidiocese de Vitória), que tinha o objetivo de formar animadores de CEBs e agentes de pastoral, dando assim formação aos leigos, e em 1° de maio de 1973, foi criado o Conselho de Pastoral da Arquidiocese de Vitória (Copav), destinado a reunir os bispos, padres, religiosas e leigos para juntos pensarem formas de evangelizar as regiões da Arquidiocese.

Neste período as CEBs incentivaram e apoiaram os católicos a participarem dos movimentos populares e associações de bairros que lutavam por melhorias sociais, justiça e igualdade de direitos. Dentro deste contexto, Dom Luís teve a ideia de realizar encontros Intereclesiais de CEBs para celebrar a caminhada e refletir sobre a realidade. O primeiro aconteceu em 1975 com o tema “Uma Igreja que nasce do povo” e o segundo, em 1976, com o tema “Igreja, povo que caminha” ambos em Vitória.

A linha pastoral adotada em Vitória, organizada em pequenas comunidades e crescente participação dos leigos foi descrita no documento “Pistas Pastorais” em 1974, elaborado pelo Copav, Conselho de Pastoral da Arquidiocese de Vitória. Pouco tempo depois, o documento foi traduzido para uma linguagem mais popular por Frei Beto com o título. “A Igreja que a gente quer”. Este documento ficou conhecido em todo o país e também no exterior, colaborando para que a organização da Igreja em Vitória se tornasse um exemplo a ser seguido.

Para o ex-deputado estadual Cláudio Vereza, que iniciou sua atuação como leigo no surgimento das CEBs, até 1981 a organização das CEBs foi crescendo, mas sempre sob alguma tensão das sedes aroquiais, principalmente em Vitória, onde foram ficando os padres que reagiram mais à formação das Comunidades. Os membros das CEBs eram vistos por alguns como pessoas que se afastaram dos trabalhos da Igreja após terem alcançado certo espaço na sociedade civil.

“As tensões aumentaram entre os setores mais conservadores e os mais progressistas da Igreja de Vitória, aliados ao crescimento da Renovação Carismática Católica e Encontro de Casais com Cristo e também a um novo momento que estava surgindo na Igreja com Papa João Paulo II”. Nesse contexto “Dom Luís foi transferido para Campina Grande, na Paraíba. A notícia da transferência surpreendeu a todos e foi motivo de muita tristeza”, relembrou Vereza.

Com a saída de Dom Luís, chegou ao estado como Arcebispo Coadjutor da Arquidiocese de Vitória, Dom Silvestre Luiz Scandian. Dom Silvestre assumiu o governo da Arquidiocese em 1984, após a morte de Dom João. Neste mesmo ano, foi nomeado Bispo Auxiliar, Dom Geraldo Lyrio Rocha.

Maria Elvira Bazet, que trabalhou como secretária da Coordenação de Pastoral da Arquidiocese de Vitória nesse período, conta que com a chegada de Dom Silvestre, os movimentos apostólicos como a Renovação Carismática Católica, Cursilhos de Cristandade, Encontro de Casais com Cristo, entre outros, se expandiram e geraram um desconforto para os participantes das CEBs que se indagavam sobre os rumos da Igreja em Vitória.

“Dom Silvestre via os movimentos como legítimos e percebeu que existiam forças vivas que não estavam se sentindo acolhidas dentro da estrutura da Arquidiocese. Ele dizia que tanto as CEBs quanto os movimentos eram legítimos”, lembra.

Era o momento de uma nova “parada” para reflexão, para avaliar toda a caminhada pastoral da Arquidiocese e refletir os rumos da Igreja em Vitória a partir daquele momento.

Para isso, em uma decisão tomada junto ao Copav, Dom Silvestre decidiu que seria realizada uma Grande Avaliação (Grava), que durou de 1984 a 1987, na qual, através de questionários todos os setores e forças vivas da Arquidiocese foram ouvidos.

Após três anos de trabalhos foi realizada a Grava, em Santa Isabel, com a participação de padres, diáconos, religiosos e leigos, na qual, através de votação, foram definidas as diretrizes da caminhada pastoral da Arquidiocese com a elaboração do Documento Final da Grava: “Opções e Diretrizes Pastorais da Igreja de Vitória”.

As diretrizes reafirmaram a opção preferencial pelos pobres e Comunidades Eclesiais de Base, e a participação dos leigos nos diversos níveis de organização na vida da Igreja. “O documento não deixou de fora os movimentos, pois eles foram chamados a viver a experiência de opção preferencial pelos pobres nas CEBs”, contou Maria Elvira.

Em 2006 aconteceu outro grande momento da Igreja em Vitória, a realização do Sínodo Arquidiocesano, que se propôs avaliar o modo como a Igreja Particular de Vitória evangelizava perante as novidades do mundo moderno como a globalização, o surgimento da Internet, surgimento de uma nova cultura urbana. Também foi detectado que no interior da Igreja de Vitória, continuavam acentuadas as oposições diferentes entre CEBs e movimentos.

“Quando cheguei aqui em 2003 percebi em Dom Silvestre o desejo de realizar um Sínodo Arquidiocesano, pois o tempo da Grava já havia passado. Era um momento novo, eu fiquei na escuta e assim que assumi a missão, percebi que de fato nós precisávamos dar um passo novo, convocar toda a Arquidiocese para uma reflexão sobre si mesma, sobre o presente e sobre o futuro”, conta Dom Luiz Mancilha Vilela, Arcebispo atual.

O Sínodo Arquidiocesano, que teve como tema “Caminhar juntos na acolhida fraterna e na esperança”, durou três anos – de 2006 a 2009 -. A primeira etapa foi a realização de uma pesquisa em duas modalidades (quantitativa e qualitativa). Foram ouvidas pessoas católicas e de outras denominações cristãs que expressaram suas visões sobre a Igreja Católica, avaliaram as ações evangelizadoras, a linguagem, o rito e manifestaram opiniões e desejos considerados por elas necessários para que a Igreja atendesse aos anseios espirituais dos fiéis.

Desta escuta surgiram os temas de reflexão que nortearam os trabalhos sinodais: Celebração do Ministério Pascal; Igreja missionária, acolhedora e aberta ao diálogo; Missionariedade da e na Igreja; Família; Cultura de paz; Formação integral para a fé e o agir cristão. Para cada tema foi realizada uma Sessão Sinodal, com a participação dos delegados sinodais, membros do clero e convidados, para aprofundamento dos desafios à luz da fé e da doutrina da Igreja e ao final o Arcebispo publicou orientações para a ação pastoral.

Em cada Sessão Sinodal os participantes viveram momentos de espiritualidade e oração que culminaram na grande celebração de encerramento na Praça do Papa com a participação de mais de 70 mil fiéis. O documento conclusivo reafirmou a opção pelos pobres incluindo-a no objetivo geral que acentuou a comunhão: Ser sinal de esperança para o povo, anunciando e testemunhando a Boa Nova de Jesus Cristo, à luz da evangélica opção pelos pobres, caminhando juntos, na acolhida fraterna.

“Esse Sínodo produziu um documento orientador que teve como consequência mais de 80 projetos pastorais colocados em prática durante a coordenação do Pe. Anderson Gomes. Depois do Sínodo começamos a trabalhar mais parte organizacional, atualizando todos os nossos serviços internos e melhorando nosso diálogo com o povo”, avaliou Dom Luiz.

No ano que a Arquidiocese de Vitória completa 60 anos de criação uma nova “pausa” aconteceu, desta vez mais celebrativa: Abertura oficial no dia 22 de fevereiro com caminhada saindo da Praça Pio XII, o Papa que criou a Arquidiocese – Via-Sacra pelas igrejas históricas no Centro de Vitória em 17 de março – Missa pelos bispos e padres falecidos no dia 26 de abril – Procissão luminosa da catedral à Basílica Santo Antônio em 10 de junho – Peregrinação da imagem de Nossa Senhora da Vitória pelas paróquias de fevereiro a agosto – Romaria a Aparecida em 27 e 28 de julho – Congresso Eucarístico de 1 a 8 de setembro – Exposição histórica imersiva de 30 de agosto a 8 de setembro.

“Celebrar os 60 anos é dar graças a Deus por tudo, por Dom João Batista e Dom Luís Fernandes, homens santos e justos que tanto fizeram pelo povo e por nossa Igreja, e por Dom Silvestre, que passou tempos muito difíceis vivendo também muitos conflitos. É importante celebrar cada etapa, pois cada uma teve algo maravilhoso para colocarmos diante de Deus e agradecer. Cada etapa teve também sombras e por elas devemos pedir perdão, por isso fizemos também nestes festejos uma caminhada penitencial pelas igrejas do centro de Vitória. Agora nós caminhamos de frente para o futuro. Olhamos no retrovisor da história as belezas do passado, mas estamos caminhando para o futuro, procurando linguagens novas para anunciar Jesus no nosso tempo”, diz Dom Luiz Mancilha Vilela.

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Andressa Mian
Jornalista

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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