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Meu Senhor e Meu Deus

dom luiz

Na segunda metade do século passado eu ouvia algumas expressões de pessoas descontentes com as atitudes de membros da hierarquia da Igreja Católica sobre questões sociais. Para justificarem que eram católicas, diziam que a Igreja delas era a do papa e não aquela que estava na sua região. Mal sabiam que o ensinamento social tem a autoridade do magistério da Igreja. Porém, estas expressões, “minha igreja” e “meu Deus”, vêm manifestando algo que chama a atenção do catequista, do professor de teologia, dos párocos, uma vez que em virtude da missão a eles concedida de ensinar, formar a consciência cristã e eclesial das pessoas de fé cristã, não podem ignorar que tais expressões manifestam um fenômeno comportamental e ideológico que pode se transformar numa nova cultura religiosa de nossos tempos. É uma espécie de cultura do indivíduo que gera o individualismo. Aliado a isso, hoje, cultua-se o corpo com um cuidado tão especial como que um autoelogio e veneração de si mesmo. Cuidar de si é realmente muito importante, mas sem se fechar ao outro.

Ora, uma religião que tem o seu sentido no Amor, na doação de si não poderá coabitar com este estilo de vida voltado para si. Toda a proposta comunitária soa como absurda para quem vive cultuando o seu corpo como expressão inconsciente de uma espiritualidade. A pessoa precisa sair bem na foto! Com esta base de auto-compreensão de si mesma, ela elabora uma espiritualidade que justifique uma espécie de narcisismo, um “narcisismo teológico” que gera a espiritualidade individualista: “eu e Deus e mais ninguém”.

Esta forma de religiosidade desvia-se da piedade popular, que é profundamente solidária, como autêntica expressão religiosa, a qual no cântico da ladainha soa a força do povo “tende piedade de nós”. Esquece-se que “o eu”, a pessoa só é feliz quando é um “ser em relação”! Eu e tu que desembocam no nós, como um riacho que se abre para o outro riacho, e, juntos compõem o rio. A autossatisfação empobrece a si mesma, empobrece o outro.

A religião cristã tem sua razão de ser, na Trindade, Deus que é um e único e se revela para nós como Comunhão em Três Pessoas distintas. O culto de si mesmo choca-se com o Mistério de nossa origem e destino Trinitário, plenitude de realização de nós mesmos por toda eternidade!

Hoje predominam no mundo, de modo geral, os sistemas políticos sociais que chamamos de Socialismo de Estado e Capitalismo. São sistemas fechados sobre si mesmos que acabam gerando ora o egoísmo do estado, ora o individualismo capitalista. Estas experiências sociais têm sua influência direta na religião e na vida da sociedade. Vemos todos os dias concorrências desiguais entre pessoas e desconhecimento do Bem comum. Nossos lares são invadidos pela propaganda individualista e desafiam nossa vocação comunitária como família!

Consequentemente, a expressão religiosa de alguém que bebeu deste “veneno”, se não houver uma educação para fora de si, para o outro, o Grande Outro, Deus, corre-se o risco de cair ou proclamar um novo tipo de idolatria. Usa-se Deus como “meu servo” que deve “me atender” em todos os meus pedidos. Usa-se Deus de acordo com as necessidades individuais, uma atitude pagã! Por isso quando o indivíduo faz este tipo de uso religioso é o mesmo que dizer “meu Deus” ou “meu ídolo” que domino. Consequentemente o indivíduo idólatra, passa usar a Igreja como mercado de consumo religioso que o abastece daquilo que necessita para aquele momento.

Quando o individualismo predomina, até os símbolos, as vestes litúrgicas que expressam a eclesialidade de povo de Deus orante, podem ser usadas para servir a vaidade e o autoelogio. Corre-se até o risco de fazer das vestes sacras, sinais que reverenciam eclesialmente o mistério celebrado, a entronização daqueles que deixam de ser servos e servidores chamando a atenção para si mesmos e não para o Senhor e Único Senhor!

A proposta cristã é radical. Jesus veio ensinar-nos e revelar-nos o Caminho de realização pessoal e comunitária. Ensina-nos que o semelhante é parceiro para sairmos de nós mesmos e descobrirmos o “nós”, na realização do Reino de Deus. Ensina-nos que Deus não é um ídolo ou objeto que obedece ao meu comando. Deus é Amor! É através de Jesus que aprendemos um Caminho diferente e único para sermos felizes. É o Caminho do Amor.

O meu semelhante é meu parceiro não é meu servo. Juntos aprendemos, com Jesus, a sair de nós mesmos. Deus é o Senhor revelado na Pessoa de Jesus Cristo, Nosso Senhor! Podemos e devemos dizer como São Tomé: “Meu Senhor e Meu Deus!” Podemos dizer com alegria “minha Igreja”, na qual e pela qual vivo. Meu Deus, do qual vivo como filho e membro de uma Família, a Família de Deus.

Dom Luiz Mancilha Vilela

Arcebispo Metropolitano

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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