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Lares para acolher, proteger e amar

Um lar onde exista afeto, carinho, cuidado e proteção é o sonho de toda criança, em especial daquelas que por algum motivo foram afastadas do convívio de suas famílias. A procura por famílias que aceitem por um período crianças e adolescentes nesta situação é a proposta do Programa Família Acolhedora. A coordenadora Cláudia Serafim fala sobre o programa.

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vitória – O programa está com uma campanha para conseguir famílias acolhedoras. O que é essa campanha?
Cláudia – O programa é uma política federal, porém no município de Vitória foi criada uma lei municipal para poder ser executado. Consiste em famílias residentes em Vitória que queiram acolher crianças que estão nos abrigos do município. Então a campanha tem como objetivo sensibilizar famílias que queiram dar proteção, carinho e afeto a crianças e adolescentes de zero a 18 anos, que estão sob medida protetiva, ou seja, crianças e adolescentes que por algum motivo foram retiradas do convívio familiar de origem por uma decisão da justiça. A vara encaminha essas crianças e adolescentes para abrigos e lá, a equipe do abrigo junto com a equipe da Família Acolhedora faz um trabalho para que essas crianças aguardem a decisão judicial em uma família, em um ambiente familiar.

vitória – Existem dados comprobatórios que para uma criança é melhor um lar provisório do que um abrigo?
Cláudia - Sim, existem várias pesquisas, inclusive a política nacional já tem isso delineado. A lei federal tem trabalhado essa questão de incentivo ao programa Família Acolhedora com os municípios e com os estados, pois estudos dentro e fora do Brasil, mostram que a criança institucionalizada tem um desenvolvimento mais demorado do que uma criança que está em um ambiente familiar. Esses estudos mostram que existe uma proporção: cada quatro meses em um abrigo é comparado a um ano de perdas cognitivas da criança. O desenvolvimento delas fica muito prejudicado em um acolhimento institucional devido a questão da tensão. Em um abrigo existem educadores que se revezam em turnos e as crianças acabam perdendo um pouco a referência da pessoa que cuida. Mesmo que se tente padronizar, um educador, às vezes, tem uma maneira de dar o banho diferente de outro. Então a criança fica sem referência de uma pessoa cuidando dela o tempo todo, muito diferente do que acontece em uma família.

vitória – Então isto justifica o fato dos abrigos não serem lugares tão bons para as crianças?
Cláudia - Isso. No acolhimento institucional a criança perde essa referência, ela não tem um trabalho personalizado. Na família ela vai ter a individualidade dela muito mais preservada em termos de cuidado.

vitória – As famílias acolhedoras ficam com a criança até que aconteça o quê?
Cláudia - As crianças que estão com uma família acolhedora são crianças sob medidas protetivas e existe um processo da Vara da Infância de Vitória no qual está sendo avaliado se há possibilidades delas voltarem para a família de origem ou se serão destituídas dessa família e encaminhadas para adoção. O processo de uma criança na Vara pode durar até dois anos.

vitória – E se a criança for destituída da família de origem e não for adotada?
Cláudia – Se ela não for adotada nesse período pode acontecer de estender um pouco mais o prazo dela em uma família acolhedora ou pode até acontecer dela retornar para um acolhimento institucional, dependendo do caso. Também tem a questão da idade, quando ultrapassa a idade de acolhimento, até 18 anos, esse jovem é encaminhado para uma república. O município de Vitória, por exemplo, tem republicas hoje para os maiores de 18 anos, onde é trabalhada com eles a questão da independência financeira e dado o encaminhamento para um emprego.

vitória – A família que está acolhendo essa criança ou esse adolescente tem alguma prioridade no processo de adoção?
Cláudia - Não, não é atalho. O programa família acolhedora é diferente da adoção. Essas famílias que nós cadastramos, por exemplo, nem estão inscritas na fila de adoção.

vitória – O programa acredita que a sociedade está preparada para este tipo relação, na qual a criança ou o adolescente partilhará da convivência familiar sem ser integrado como filho ou filha desta família?
Cláudia - Sim, porque nós já temos essa experiência. A lei no município de Vitória é de 2006 e nós temos famílias habilitadas que já estão no 8º acolhimento familiar. Essas famílias relatam que a maior alegria e também a maior tristeza é o momento da partida. Alegria por saber que a missão foi cumprida, pois se a criança está retornando é porque o problema na família de origem cessou, ou, se ela está sendo adotada, é porque ela terá um lar definitivo. Isso é trabalhado com a criança também, porque na maioria dos casos a criança deseja voltar para a família de origem, por maior que seja o palácio no qual ela esteja morando. E quando ela não tem esse vínculo familiar, ou quando não é possível que ela retorne para a família de origem, será trabalhada em uma família que vai acolhê-la também como filho. Então, a questão do apego e do desapego é bem trabalhada. A gente costuma dizer que na verdade quem mais sofre é a família que está acolhendo, porque a criança se adapta melhor, ela quer mesmo é saber que está vivendo relações de amor, de afeto e de segurança principalmente. Então isso tudo é trabalhado.

vitória – A família que acolhe uma criança recebe uma ajuda psicossocial. O projeto tem profissionais para atender todas as demandas que são necessárias, tanto da criança, quanto das famílias que as recebem?
Cláudia - A equipe que está posicionada tem uma capacidade de assistir 15 famílias em acolhimento e no momento em que a gente chegar nesta meta, existe a possibilidade de ampliar a equipe.

vitória – O que é preciso fazer para se tornar uma família acolhedora?
Cláudia - O primeiro passo é fazer contato com o nosso programa no telefone 3019-8060 ou no WhatsApp 99791-7199. É necessário ser morador de Vitória e apresentar alguns documentos, entre eles o atestado de antecedentes criminais e laudos que comprovem bom estado de saúde física e mental. Além disso, é preciso ter acima de 25 anos e interesse em oferecer proteção afetiva e emocional para a criança ou para o adolescente. Essa família receberá uma visita dos técnicos da equipe psicossocial para ver as condições de moradia e todos os moradores responderão a um questionário. Após a visita é marcado um dia de capacitação, no qual serão abordados temas sobre a guarda, sobre o papel do guardião e sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente.
Após esta etapa de avaliação, capacitação e entrega da documentação, se tudo estiver certo, a família estará apta a acolher. É interessante falar também que a família traça um perfil que está apta a receber, pois às vezes a dinâmica do dia a dia não permite mais um bebê, por exemplo. Pode acontecer que a família já tenha uma filha e então fica muito mais fácil receber uma menina.

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Andressa Mian
Jornalista

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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