buscar
por

Justiça ou vingança?

Em tempos de desmedido aumento da violência é perceptível o fortalecimento do sentimento coletivo de busca por uma atuação mais dura do aparelho repressor do Estado. É cada vez mais comum na mídia, nos meios políticos e nas conversas nos pontos de ônibus o discurso em defesa de mais prisões, pela ampliação e endurecimento das penas e mesmo pela redução da idade penal como a solução para o fim da violência. Justifica-se essa defesa na ideia de que a lei é branda, de que ninguém fica preso e de que a justiça nunca é feita. Mas afinal, o que revelaria uma análise mais profunda desse sentimento? Estaria a sociedade clamando verdadeiramente por justiça?

Ao identificar que a violência aumenta, é compreensível que a sociedade busque no sistema de segurança respostas mais eficazes no seu enfrentamento. Se um crime é cometido, o seu responsável deve ser encontrado, processado, julgado, condenado e ressocializado pelo Estado. Assim, em tese, através de uma justa punição estaríamos desestimulando a criminalidade sob o velho princípio segundo o qual o “crime não compensa”.
Todavia, na concretude da vida real, o processo não é tão simples. Nunca se prendeu tanto no Brasil como em nossos dias. Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça, temos a terceira maior população carcerária do mundo, mais de 750 mil – 40% deles provisórios, ou seja, ainda aguardando o resultado do julgamento. Ao lado disso, nunca tivemos tantos homicídios. Em 2012, totalizamos mais de 56 mil assassinatos. Um recorde histórico. Portanto, se as prisões deveriam atuar desestimulando o crime, no Brasil parece que o efeito é contrário. O aumento das prisões tem gerado o aumento da violência.

Prisões realizadas sem a devida investigação policial e com seletividade racial e de classe econômica dos “suspeitos”; a falta de pessoal e de estrutura de trabalho aos quadros das polícias; a forte infiltração do crime organizado em seus aparelhos; presídios superlotados sem uma política consistente de ressocialização; torturas sistematicamente praticadas; fragilidade da defensoria pública e inacessibilidade do Poder Judiciário são algumas das questões que interagem para que o sistema de segurança e justiça do Estado brasileiro funcione hoje como um incremento à violência e uma máquina de injustiça.

Nesse contexto, defender mais prisões e mais tempo de prisão é defender o aumento da violência! Antes de somar vozes ao coro de mais prisões, clamemos por uma profunda reforma no sistema penal. Antes de mais prisões, mais escolas! Antes de mais prisões, mais acesso à Justiça! Antes de mais prisões, polícias menos violentas, mais preparadas, mais equipadas, mais cidadãs! Antes de mais prisões, mais Defensores Públicos! Antes de mais prisões, menos tortura e mortes nos presídios! Antes de mais prisões, mais políticas de ressocialização! Antes de mais prisões, mais investigação dos crimes de colarinho branco, e não só os da miséria! Antes de mais prisões, menos sensacionalismo aterrorizador da imprensa! O que impedirá, ao fim, o aumento da violência é a plena realização da justiça e ela só virá com mais igualdade, portanto, antes de mais prisões, mais igualdade social e racial no Brasil!

editor1

Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

Mais posts do autor

COMENTÁRIOS