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Incapazes de dormir, mas interminavelmente ocupados em sonhar

Há livros e tempos. Há livros, tempos e os entremeios entre eles onde podemos cair. E quando ali estamos, entre um livro – um bom livro – e o tempo (o ano, a realidade na qual o lemos), uma conjunção se estabelece e uma poderosa e enigmática usina é acionada para a produção abundante de bons sentimentos, insights, entendimentos e novas percepções das realidades.

Normalmente os leitores – incapazes de dormir, mas interminavelmente ocupados em sonhar – somos levados a ler o que o momento apresenta como boa leitura seja por indicação de alguém, por uma escolha numa livraria ou biblioteca, ou por outro viés qualquer, mas, sempre – impossível não ser assim – bons livros ficam para trás. E somente mais tarde, sabe-se lá por quais acasos ou arranjos da vida, alguns podem reaparecer para favorecer a conjunção a que me referi. E quando isso se dá somos tomados por um espanto: que maravilha!

Das obras do Colombiano Gabriel Garcia Marques – cito como exemplo – O Amor Nos Tempos do Cólera ficou reservado nas gavetas dos anos para que eu o desfrutasse somente agora há uns meses atrás. Não sei exatamente quando, mas penso que por volta de 2007, um belo filme foi feito a partir desta obra. Vi o filme. Foi outro apelo para ler o livro. Não o fiz. Não sei exatamente por quê. Provavelmente outro se colocou no lugar. Ou o livro se pôs a me esperar na curva certa da estrada. Ali onde ele se fazia irremediavelmente necessário para uns bons momentos de longas viagens por Américas sempre a se descobrir.

Agora outro extraordinário alinhamento acontece. Claro que outros livros foram lidos nesse ínterim. Mas falo aqui dos que ficam como referências, dos que se inscrevem no cânon pessoal como os melhores. Tomo-o em doses sem pressa. Não o leio para chegar à última página e exclamar: ah, terminei mais um! Não. Tomo-o para desfrutar de bons sentimentos, para coletar nas minhas experiências, ao eco daquelas vozes, entendimentos mais bonitos sobre a vida. E este livro não me apareceu como uma novidade. Ele sempre esteve diante de mim – de um modo ou de outro – como uma possibilidade. Explique-se por que ficou para trás. Não há explicação. Ficou para o momento certo – arranjo um sentido. Pois bem… foi assim… deparei-me de novo com ele, agora na internet, na forma que tem sido minha frequente forma de leitura, via EPUB (Electronic Publication). Pronto. Aconteceu.

Falo de Memórias de Adriano, da escritora belga Marguerite Yourcenar, publicado pela primeira vez em Paris no ano de 1951, com grande sucesso. Como falar dessa profusão de pensamentos, contemplações, sentimentos em que o livro e o tempo no qual o leio me colocam. Talvez a melhor expressão seja aquela que aponta para o pano comum que acolhe, que ampara, que reúne de todos o que todos carregam: a beleza e a fealdade da própria existência; a pedra e a pluma que constituem nossos sonhos.

Vai-se no livro em viagens com o imperador Adriano pelas várias e vastas paisagens do Império. Mas é pelos meandros da alma humana que vamos quando nos são compartilhadas suas memórias, seus pensamentos, sua intimidade. Em várias páginas o leitor perde o seu lugar, e é a personagem quem lê o leitor. Ao mesmo tempo em que pela janela das páginas o leitor percorre as províncias romanas, as mesmas páginas brilham diante dele como espelho revelador de movimentos e nuances dos mediterrâneos da própria alma.

Seguindo com a autora que recria as memórias perdidas do imperador famoso percebo que o sentimento de solidariedade é o que cresce com a leitura. Ali está a autora, o imperador, vidas, anseios, outros de mim mesmo. Outros tão bonitos e feios quanto, tão especiais e comuns quanto, tão estranhos e tristes quanto, tão frágeis e capazes quanto… E essa percepção do outro, humano, ali, na rua ou no livro, tão dessemelhante e tão igual, precisa me sensibilizar para que eu me reinscreva sempre entre aqueles que temperam cotidianamente suas atitudes com a força da solidariedade… e, se possível, da ternura.

Dauri Batisti

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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