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Imitação da vida e ficção

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Quando se estabelece a dúvida sobre a novela imitar a vida ou a vida imitar a novela é possível que a melhor resposta seja o título deste artigo. A novela é uma imitação da vida, inspira-se nos costumes e histórias reais, mas ao mesmo tempo, os ficciona. Se resgatarmos o surgimento e um pouco da história da novela no Brasil, ‘Sua vida me pertence’, primeira novela; ‘2-5499 Ocupado’, a primeira com transmissão diária e, a ainda lembrada e citada hoje, ‘O direito de nascer’, podemos citar Élide Fogolari no livro ‘O visível e o invisível no ver e no olhar a telenovela’, que se refere à novela “como narrativa ficcional que aproxima a história narrada ao mundo vivido dos indivíduos”.

Inicialmente as novelas foram traduzidas de produções argentinas e cubanas e, aos poucos, substituídas por produções brasileiras que trabalhavam os dramas da vida cotidiana, os conflitos, as falas do povo nas ruas, o jeito e o humor brasileiro que foi criando sua identidade e se afastando da teatralidade para adotar o naturalismo, onde o povo facilmente se identifica. A identificação acontece pelos enredos traçados para as novelas, que estão constantemente ligados àqueles vividos por qualquer cidadão comum: problemas familiares, violência, romance, dilemas existenciais, etc.

Na prática, a novela dá novos significados à vida e “permite” o público que assiste experimentar sensações, adotar palavras e estilos que a vida real não lhe permitiria. Ao ver a vida retratada e ficcionada na tela, o telespectador deixa de perceber os limites entre o real e a ficção e passa a incluir os personagens da novela no âmbito familiar, ou ainda, confunde o ator com o personagem interpretado e transfere para ele os sentimentos de empatia ou repulsa. A proximidade e, ao mesmo tempo, a identificação de afinidades fizeram das novelas brasileiras uma verdadeira extensão da vida, tornando-se o assunto nas rodas de conversa, na mesa de jantar ou mesmo nas filas de ônibus e supermercados.

Importante para quem assiste novela é considerar que os temas abordados e a forma de abordá-los dependem da visão, da vivência e do incômodo que os temas sugeridos causam ou provocam no autor. É essa visão, juntamente com a interpretação do ator ou atriz, que é mostrada para o telespectador. Para tornar atrativos os desejos e pensamentos, todos os envolvidos precisam ‘exagerar’ as interpretações, criar textos e imagens de impacto e compor as cenas com imagens e cores que provoquem os afetos de quem assiste. Assim, o telespectador tende a envolver-se com essas formas de comunicação e tem dificuldade de distanciar-se e separar o “real” da “ficção” criada para envolvê-lo. A novela é uma ficção que trabalha com histórias da realidade cotidiana, cabe, por isso, ao telespectador a decisão de esforçar-se para criar as devidas distâncias e criar a sua própria opinião sobre o que assiste, sem deixar de apreciar a arte dos folhetins e a interpretação dos personagens.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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