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ILUSÃO DIGITAL, SOLIDÃO E FRUSTRAÇÃO NA CONTEMPORANEIDADE

Periodicamente nós depositamos em alguém ou em algo o melhor de nossas esperanças e de nossos sonhos, legítimos, diga-se de passagem, de alcançarmos de alguma forma uma vida mais feliz, mais confortável ou mais fácil de ser vivida. Alimentamos a ilusão de que seja possível, ao humano, alcançar a plenitude de uma vida feliz a partir de uma exterioridade que nos complete, nos torne mais potentes ou nos possibilite ter mais poder, mais dinheiro, mais tempo para nos divertirmos, mais tempo para descansar ou, até mesmo, mais de algo que nem sabemos o que é, mas que desejamos.

Desejar coisas, consumir, parece, às vezes, algo intrínseco à natureza humana, como se “ter” nos constituísse enquanto sujeitos. Desejamos cada vez mais, e transformamos em mercadoria, tantas coisas que deveriam fazer parte de nossas vidas de forma natural, compartilhadas nos afetos do cotidiano com as pessoas a quem amamos e que nos amam pelo simples fato de existirmos, independente daquilo que temos.

Amigos virtuais em profusão, elogios múltiplos e curtições em fotos montadas e escolhidas a dedo e publicadas somente depois de editadas e acrescidas de textos que destacam nosso sucesso, nossas conquistas, nossas viagens, nossas riquezas ou nossas belezas, ainda que cuidadosamente montadas para esse momento de exposição púbica de coisas que compõe, na realidade, a esfera privada de nossas vidas.

Público e privado se misturam de tal forma que perdemos, hoje, a dimensão da importância da privacidade e da intimidade como espaços essenciais a nossa reconstituição das perdas naturais que acontecem nos enfrentamentos da vida pública.

Depositamos nas redes sociais nossas expectativas de potencializar nossa carreira, ainda que a mesma já esteja solidamente consolidada em um emprego que nos traga relativa segurança e do qual não queremos nos desligar.

Depositamos nas redes sociais nossas expectativas de ampliar nosso inventário de amigos, como se a multiplicidade deles fosse nos tornar mais felizes, quando, no fundo, não temos tempo para dedicar nem aqueles que nos são mais chegados e compõem o rol privilegiado chamado família.

Depositamos nas redes sociais nossas expectativas de encontrar os amores, os políticos e os produtos mais adequados a atender nossa cultura de consumo que está sustentada na ideia do “se não me servir troco por outro” na próxima compra.

A diferença entre necessidade e desejo não é mais feita com base em uma avaliação pessoal criteriosa e definidora da experiência de viver um projeto de vida adequado ao possível, desenhado de forma lúcida, coerente e planejada. Somos, cotidianamente, capturados pelo mercado que transforma desejos em necessidades, nos tornando prisioneiros de uma saga consumista, que também nos consome o tempo de pensar, ler, refletir, sonhar, amar, afagar e contemplar.

Quantas horas passamos na internet a procurar e namorar produtos que não precisamos e que não estão na nossa esfera de possibilidades. Quantas vezes nos frustramos pelas impossibilidades múltiplas que se nos apresentam.

Impossibilidade de fazer a viagem que nossos amigos fizeram e publicaram. Impossibilidade de ter os filhos perfeitos, virtuosos e comportados que os amigos apresentam no instagram e no facebook.

Impossibilidade de frequentar os restaurantes de pratos sofisticados, cuidadosamente fotografados, antes de serem consumidos, quando na realidade amamos o arroz, feijão e bife quentinho, feito em casa e deliciado junto com pessoas que de nós cuidam e nos protegem.

Impossibilidade temporal, que afeta aos intelectuais, de ler todos os livros dos autores mais desejados que estão ali disponibilizados a um clique no teclado. Frustrações múltiplas e representativas de nossas impossibilidades de acompanhar tudo e todos que se colocam disponíveis ao desejo humano de dominar informações, saberes e até curiosidades que pouco haverão de acrescentar à nossa frágil capacidade de armazenamento.

Impossibilidade, para tantos, de reverter os votos depositados nas urnas, cheios de esperanças, capturados por discursos cuidadosamente alinhavados por profissionais do marketing que sabem exatamente o que se deseja ouvir e o colocam na boca dos políticos para os quais trabalham, fazendo chegar até nós, de forma direcionada, por meio de lógica algorítmica e de fake news, capazes de transformar mentiras em verdades, como se a mesma coisa fossem.

Quantas frustrações ao nos encontrarmos com o verdadeiro discurso, proferido sob a forma de decisões políticas, ou de votos em projetos de lei, que nos afetam em nossa dignidade e honra, retirando direitos e nos transformando em meros objetos para a consecução de projetos escusos, de interesses de poucos, consumindo nosso sangue, nossa saúde, nossas forças e nossas esperanças.

Impossibilidades múltiplas. Frustrações múltiplas. Ilusões virtuais à quais nos quedamos impotentes e vulneráveis.

Mantemos o linkedin, o instagram, o facebook e os blogs sempre atualizados e alimentados, mas não alimentamos os afetos daqueles que verdadeiramente nos nutrem o espírito e nos suportam nos momentos de crise, de fracasso ou das penúrias que não desejamos ver estampadas nas páginas virtuais, já que evidenciariam nossas mazelas, incapacidades, fraquezas e abandonos sofridos.

Acompanhamos, diuturnamente, todas as redes sociais que conhecemos e os grupos de WhatsApp aos quais estamos vinculados, mas nos isolamos, em uma superficialidade solitária, produtora de ansiedade, frustração e depressão.

A virtualização da existência que conduz ao consumismo, também medicaliza as nossas vidas e nos torna prisioneiros sem celas, nos distanciando daqueles a quem amamos e que nos amam.

Enfim, ilusões virtuais que promovem solidão e frustrações, com as quais não sabemos lidar.

Elda Bussinguer
Doutora em Bioética e Coordenadora do Doutorado em Direito da FDV

 

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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