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Iguais ou diferentes?

Nós somos iguais ou diferentes dos outros? Possuímos mais semelhanças ou diferenças entre nós? Como lidamos com as sensações de sermos diferentes ou idênticos a outras pessoas? Perguntas como essas têm gerado debates intensos na psicologia desde a sua fundação, no fim do século dezenove. De lá para cá, a psicologia identificou muitas semelhanças e diferenças nos comportamentos e pensamentos dos indivíduos. Parece que aquilo que nos diferencia dos outros animais, ou seja, possuirmos uma consciência em um grau complexo, também torna mais complexa a questão: quando pensamos, estamos agindo em conformidade com os outros ou estamos fazendo uso do livre arbítrio?

Um dos mais fortes argumentos a favor do livre arbítrio aponta que só possuem uma mente consciente aqueles que são capazes de se diferenciarem e se individualizarem através do ato reflexivo. Assim, a afirmação do ato humano se daria essencialmente pela diferenciação do indivíduo em relação aos seus pares. Em oposição à premissa da escolha, psicólogos sociais perguntam: quem já não desejou ardentemente ser igual a um grupo social? O sentimento de pertencimento coletivo é uma das forças mais atuantes sobre o nosso comportamento.

A psicologia social descobriu que nós estamos o tempo todo observando atentamente nossos amigos, parentes, colegas e até os nossos ídolos e pessoas que admiramos à distância. Pessoalmente, pela televisão, pela tela do computador ou do smartphone nossa vida é mediada pela observação e cópia dos comportamentos e gestos alheios. Somos seres individuais, certamente, mas também coletivos. Mas, então, como a psicologia estabelece um consenso a respeito dessas questões?

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A articulação entre os aspectos coletivos e individuais de nossas personalidades não é tarefa fácil, mas pode ser feita. Uma tentativa parte de dois conceitos mais ou menos recentes desenvolvidos pela pesquisa em psicologia: o self semiótico e o self dialógico. “Self” é como a psicologia denomina a consciência de si, ou autoconsciência. Somos a única espécie que sabe – e, consequentemente, pode se sentir bem ou mal por isso. Essa capacidade, conforme a teoria do self semiótico, nos coloca na posição ímpar de produzirmos sentidos e significados únicos e originais no mundo. Dizendo de outra forma, essa teoria legitima as escolhas individuais que fazemos o tempo todo na vida.

Essas escolhas são múltiplas, daí a escolha do termo “semi”. E referem-se a múltiplas formas de ver o mundo, por isso “semióticas”. Segundo a perspectiva semiótica, afirmamos nossa capacidade humana sempre que fazemos escolhas e com isso nos individualizamos. Mas, se nossas escolhas são individuais, isso não quer dizer que sejam totalmente livres. Se queremos nos fazer entender – e isso é crucial para a afirmação do nosso próprio ponto de vista, já que legitimamos nossa subjetividade através do olhar do outro – precisamos falar uma linguagem compartilhada com os outros.

Dialogar implica no mínimo dois: duas pessoas, dois entendimentos, duas perspectivas. E entre tais perspectivas, só haverá compreensão quando a linguagem se constituir em um espaço de intersecção. Essa intersecção só é possível quando os códigos são comuns.

A teoria do self dialógico, assim, complementa a teoria do self semiótico porque determina que a legitimação do ato reflexivo individual se dá pela compreensão do outro. Dessa forma, a psicologia explica no ato reflexivo pessoal a necessidade de sermos originais e únicos, mas na compreensibilidade e no compartilhamento do ato comunicativo, a necessidade que temos de não estarmos sós. Colocando de outra forma, queremos ser únicos para garantirmos que temos escolha e autonomia. Mas queremos que essa escolha esteja reconhecida e chancelada em um sistema compartilhado, podendo assim reconhecer-nos nos outros e reconhecê-los em nossos atos. Queremos ter escolha para depois usá-la para estar junto aos outros.

Desejamos a originalidade para exercê-la através da semelhança com quem convivemos. E afirmamos nossa individualidade através das similaridades alheias. Finalmente, a resposta da psicologia às questões sobre nossas diferenças e semelhanças indica que o ato de ser diferente está profunda e estruturalmente ligado às semelhanças que estabelecemos no contato social e somente através dele alcançamos a originalidade.

Adriano Jardim

Doutor em Psicologia e professor da Ufes

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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