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Ideologia! Eu quero uma pra viver

O ano de 1988 representa um marco na história brasileira com a promulgação da Constituição Republicana e o fim de uma era difícil para a vida democrática. E neste mesmo ano Cazuza lança seu terceiro álbum chamado “Ideologia”, que é também o título de uma das músicas e mostra a sintonia com aquele momento. É considerada uma de suas melhores composições.

Ilusões perdidas, sonhos vendidos, heróis morrendo de overdose, inimigos no poder e aquele garoto, que ia mudar o mundo, assiste a tudo em cima do muro. E ainda por cima, pagar a conta do analista para nunca ter que saber quem se é. E para completar o cenário sombrio do mundo, “o meu prazer é risco de vida”. Era o vírus HIV que se alastrava pondo o próprio autor entre as vítimas. A doença agora é assumida. Não há por que esconder mais. A doença sempre nos pega de surpresa e nos põe pelo avesso.

Trinta anos depois, vive-se um momento histórico semelhante nas terras brasileiras. A mesma Constituição ainda em vigor, mas sem tanto vigor, com muita coisa não regulamentada e tantas outras que foram emendadas, tirando-lhe seu viço e sua força. A crise nas instituições políticas provoca um total descrédito da população em relação às lideranças que governam o país. Parecem inimigos do povo. Vive-se o fim das ilusões e os sonhos nos foram roubados. Os partidos repartem a fatia do poder e negociam as migalhas que para o povo são bilhões e bilhões. Os inimigos estão no poder, porque nos compraram os votos com o dinheiro do caixa 2 e com as propinas concedidas por empresas de todo tipo.

A vida que era um sonho virou um sufoco e só o grito dilacera nossas almas na noite escura do tempo – “Ideologia” – pelo menos isso, pois nem a análise mais se consegue pagar. O muro virou lugar seguro para se assistir a tenebrosa marcha dos que ousaram sonhar. O muro ou a morte da alienação final. O medo está em todas as esquinas, até uma exposição pode ser objeto de execração pública. Além do vírus HIV, as guerras, as intolerâncias de todo tipo, as balas cruzando os céus das rocinhas são risco para o prazer da vida. O próprio cansaço nos faz perder a vontade de viver.

Ideologia! O sonho! A esperança! Com as lanterninhas de cada pessoa, o mundo não apenas grita, mas se move e se contorce quando dói. As velas nos altares dão um pequeno alento, mas o mundo cruel nos força a sair das Igrejas e caminhar em suas trilhas nefastas, fedorentas, cheirando a pólvora. Das cinzas do enorme cansaço, da desesperança, da decepção, o fênix de uma nova vida e uma nova espiritualidade brotará como garantia de um futuro humano para o planeta.

Edebrande Cavalieri
Doutor em Ciências da Religião e professor universitário na Ufes

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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