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HOMILIA NA MISSA PELAS VÍTIMAS DE BRUMADINHO

Nesse início de noite nos reunimos aqui para colocar diante do Senhor todas as vítimas da violência, do crime bárbaro, do descaso e da indiferença em relação à vida de irmãos e irmãs nossos que viviam a sua fé na Igreja de Jesus Cristo, presente na Arquidiocese de Belo Horizonte, em Minas Gerais.

Pessoas que tiveram as suas vidas soterradas pela lama e pelos dejetos de um modelo econômico que não se preocupa com os pequenos e pobres, mas, somente se alimenta da ganância e do poder. Quando o dinheiro se torna o objetivo principal e final, a vida é levada a óbito. Queremos nos unir a todos os que estão empenhados no resgate e assistência das vítimas, bem como, aos homens e mulheres de boa vontade, voluntários da solidariedade e da bondade que não medem esforços para se fazerem presentes nesse momento de dor e sofrimento.

A palavra de Deus que acabamos de escutar nos questiona, quando no Salmo Responsorial apresenta a pergunta: Quem subirá até o Monte Santo do Senhor? Algo que é respondido na Primeira Leitura quando o autor da Carta aos Hebreus convida os irmãos e irmãs a serem atentos uns aos outros. Uma palavra de vida que implica em medir o nosso comportamento, nosso modo de viver e de nos relacionarmos com as pessoas, pelo crivo do Amor de Cristo.

O Salmo Responsorial cantado na Liturgia de hoje traz uma pergunta, algo que deve estar no coração de cada um de nós, ou seja: Quem subirá até o Monte do Senhor? Ao responder à pergunta que ele mesmo apresenta, o salmista indica que somente os que têm mãos puras, têm inocente coração e aqueles que não dirigem a sua mente para o crime, estão entre aqueles que se colocam a caminho da casa de Deus. De fato, aqueles que se dirigem para a casa do Senhor são todos homens e as mulheres que se reconhecem como Filhos e Filhas de Deus, promotores da Paz, e da Justiça. Por isso, a reposta a tal pergunta não diz respeito somente a uma convicção interior, mas, sobretudo, a uma proposta de vida, marcada pela presença de Deus e pela Luz de sua Palavra, pelo amor comprometido na construção da Casa Comum.

Ao refletir sobre a esperança de seguirmos confiantes rumo à Casa do Senhor, é colocado diante de todos nós o aspecto fundamental da Fé que professamos. Pois, aqueles que desejam viver em comunhão plena com o Senhor, não podem, em hipótese alguma, negligenciar a sua responsabilidade na construção de um mundo mais justo, fraterno e solidário. Desse modo, quando somos, mais uma vez colocados diante de um tamanho crime, uma tragédia anunciada e prevista, não devemos nos calar. A construção da Casa Comum, sinal do Reino de Deus nesta terra, deve ter início no coração de todos nós, discípulos e discípulas missionários de Jesus Cristo, chamados a viver as Bem Aventuranças, como promotores da Paz e da Justiça, reconhecidos como Filhos e Filha de Deus. Assim convocados pelos valores do Evangelho e unidos na defesa da vida, queremos seguir nosso caminho, rumo à Casa do Senhor.

Nesse caminho de construção de um mundo mais solidário e fraterno, todos são convocados a combater decididamente o descaso, a despreocupação com a vida e a indiferença diante da necessidade dos mais pobres e necessitados.

A Primeira Leitura, seguindo o caminho proposto pelo Salmo Responsorial, aponta para a atenção e o cuidado mútuo, como forma de viver e promover a caridade. O autor da Carta aos Hebreus indica o caminho de um compromisso de Caridade Fraterna como meio de construção de novos laços no coração da comunidade e, porque não dizer, de um mundo novo. Todos os que vivem o amor solidário, com aqueles que são promotores da Paz, os que são misericordiosos, refletem o desejo de Deus para a humanidade. De fato, aqueles que realizam as obras do amor comprometido e solidário se aproximam do modo de agir de Deus, algo que foi plenamente manifestado na vida de Jesus.

O Evangelho que acabamos de ouvir também nos coloca diante de uma situação dramática, “No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro…” Os Evangelhos, ou os Evangelistas, divergem muito entre si no que se refere aos detalhes daquela madrugada do primeiro dia da semana, quando a tumba de Jesus de Nazaré foi encontrada vazia.

Num ponto único eles são unânimes. Maria Madalena. Ela é a única constante de todos os relatos. E é apontada por todos eles como a primeira dentre os seguidores de Jesus a testemunhar que algo incomum ocorrera com o corpo do crucificado após a sua morte.

Ela que tivera os sete demônios libertados por Jesus, dali em diante permanece em sua proximidade. Uma vida celebrada, dilacerada, alucinada que junto de Jesus, retornou à serenidade, à grandeza e à integridade de sua vida.

É quase natural que tivesse sido, exatamente, ela a primeira ir à tumba de Jesus, depois daquele resto de sexta-feira e do interminável sábado, em que, aos judeus, era proibido qualquer contato com os mortos. Pois, ninguém mais que ela há de ter sentido a perda daquela morte. O dia mal começa, aos primeiros raios de sol, bem de madrugada, como diz o texto. Quantos irmãos e irmãos nossos lá em Brumadinho, nessa madrugada estão procurando o corpo do seu ente querido… Maria Madalena vai ao túmulo de Jesus buscar o que todos os homens e mulheres buscavam: alívio para uma infinita saudade. Ela quer estar perto de quem tanto amara. Dizer-lhe de sua gratidão. Lavar com aroma o corpo daquele que lavara a sua alma com o melhor de todos os perfumes, talvez apenas enxugar as lágrimas de seu terrível vazio, perto dos restos daquele que fez tudo por ela.

Nada sobrou, de Brumadinho, nada sobrou para esses nossos irmãos e irmãs, nada que objetivamente lhe servisse de consolo. Nenhum resto. É a mais absoluta desolação.

Ao final, onde quer que tenham terminado esses restos mortais de Jesus e de todos os seus irmãos e irmãs, eles serão apenas as cascas de um ovo que rebentou para que, então livres das estreitezas de todos os limites pudessem alçar voo, iguais aos pássaros cuja morada definitiva não é o sepulcro, o ovo, mas a vastidão dos céus.

Isso quer dizer para nós, pela nossa fé, que todas as tumbas estão vazias e o que lá encontrarmos, se encontrarmos, serão apenas resto do que é eterno.

Irmãos e irmãs, o desejo de Deus para os seus filhos e filhas é que tenham vida plena e abundante, que sejam capazes de crescer em todas as suas potencialidades e construam, de forma solidária um mundo melhor. A medida desse mundo deve ser o Amor comprometido de Cristo, que não a compactua com a violência e a exclusão, nem mesmo se cala diante da morte de inocentes, causada pela busca desmedida do lucro.

Hoje nos unimos a todos os que perderam seus filhos e filhas, sobretudo, colocamo-nos ao lado daqueles que esperam notícias de seus entes queridos. Muitos foram levados de seus lares sem ao menos se despedirem, tragados pela ganância daqueles que fecharam os olhos, corrompidos pelo dinheiro e pelo poder. Que a nossa oração chegue ao coração de Deus que a todos conhece e acompanha, a fim de que lhes sustente nesses momentos de dor e sofrimento. Mas que a nossa oração converta nossos corações, pois, enquanto houver situações como esta nesse mundo, em nosso país, nosso trabalho, nossa missão, nosso empenho devem ser redobrados.

Que o Senhor nos confirme sempre em seus caminhos, de modo que desejemos, a cada dia, seguir na direção de sua Casa, um caminho feito em comunhão com todos e todas que buscam um mundo melhor, um novo céu e uma nova terra.
Amém.

Dom Dario Campos, ofm
Arcebispo Metropolitano de Vitória

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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