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Hei de ser, preciso ser, não há alternativa senão ser...

Subir uma velha montanha, perdida num deserto povoado por muitas histórias acompanhando Moisés, pode ser uma fértil experiência espiritual-existencial numa manhã de domingo. Mas se fértil, do mesmo modo exaustiva, angustiante. Lá no sopé ficam os nossos mundos – tanto o dele como o meu – marcados pelas dificuldades, pelas incertezas, pelo medo. A violência cresce entre os nossos, a confusão e o individualismo solapam sonhos, os que deveriam unir forças ferem-se insensatamente. Soluções precárias e nostálgicas se erguem em bandeiras vistosas, as forças se esgotam, os corações se endurecem. De nossa parte carregamos montanha acima nossas fragilidades, nossas impaciências, nossos estresses.

Subo com Moisés, a princípio por dever. Logo me envolvo. É preciso avistar lá do alto o que os meus próprios esquemas mentais não mais me oferecem. É preciso avistar horizontes, outras possibilidades, ganhar novas disposições para a luta, instar-me a novos passos. Subo com Moisés sem que ele suba comigo, sem que me note. Na verdade o diálogo entre nós só pode existir pelo fato de fazermos parte de uma mesma linha narrativa, aquela em que vidas se marcam e se constituem por alguns referenciais comuns. Nossas vidas e mundos são distantes e bem diferentes, mas alguns elementos nos põem em diálogo. O Deus a quem me dirijo é o dele, o mesmo Deus que se apresenta na história em capítulos de discreta presença e sutil participação. Um Deus grande em silêncios, em demoras, em ausências, mas insuflador de sonhos, inspirador de grandes projetos e incitador de desafiantes jornadas.

É uma outra vez esta que Moisés sobe à montanha. Tenho especial apreço por esta outra vez. Talvez por isso o acompanhe com especial atenção. As leis que favorecem a convivência feliz já lhe tinham sido entregues na primeira vez. Mas a comunidade se enfraqueceu nos anos que se sucederam diante do deserto que se agigantou em problemas. Querem voltar ao Egito. Mas já que não podem voltar imediatamente, imediatamente retomam o culto ao touro Ápis. E para complicar ainda mais a situação Aquele que o chamou ao monte não se apressa em se mostrar. Meu Deus, penso, de que somos feitos na fé senão de desafios? Deus se esconde. Um soprar de vento aqui, um pássaro quieto ali, uma pequena vegetação tremulando acolá. Moisés parece não saber o que fazer. Observo-o e também não sei. Falta-me também o discurso. Minha missão imediata, a missa. O que dizer? É festa da Santíssima Trindade.

Então Moisés começou a andar como se procurasse algo que tivesse perdido, e enquanto olhava aqui e acolá com olhos carregados de distâncias, entre curioso e assustado, destituído das belezas e dos perfumes dos templos egípcios, repetia misturando palavras e línguas: misericordioso, lento na cólera, compassivo, rico em bondade, fiel, misericordioso, lento na cólera, compassivo, rico em bondade, fiel, misericordioso… Fiquei ali quieto, observando, pensando. A estola para a festa, com enfeites de leve dourado, pendia para um lado, acertei-a. E aquelas palavras começaram a entrar nos meus ouvidos com suavidade e força; minha própria boca não resistiu à repetição: misericordioso, lento na cólera, compassivo, rico em bondade, fiel, misericordioso, lento na cólera, compassivo, rico em bondade, fiel, misericordioso…

Moisés dirigia aquelas palavras para Deus, chamava-o, dava-lhe nomes, dava-lhe belos nomes, mas ao mesmo tempo ele como que aguardava o crescimento no seu coração daquelas mesmas forças e delicadezas presentes nos nomes. Era para si próprio que ele também pronunciava os nomes – e para mim – como convite. Nem sempre conseguimos – como ele não conseguiu – mas o desejo de incorporar em nós o que afirmamos de Deus será sempre um bom jeito de fazer as coisas. Hei de ser, preciso ser, não há alternativa senão ser… Para que a vida coletiva faça surgir comunidades, para que as comunidades tornem-nos cada vez mais humanas é preciso ser misericordioso, lento na cólera, compassivo, rico em bondade e fiel ao sonho de uma terra nova.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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