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Há lições no deserto

As revelações cada dia mais assustadoras de como a política e as instituições têm funcionado no Brasil são chocantes, mesmo para quem não se iludia com salvadores da pátria e nem se deixava levar por arroubos de patriotismo contra a corrupção fomentados pelos meios de comunicação que sempre tiveram seus próprios interesses e vantagens. Transitamos por entre o horror e a revolta. Vemos-nos sobrecarregados dessas notícias e fatos que demonstram cabalmente o cinismo daqueles que deveriam zelar pelo bem de todos e o desprezo pelas demandas e queixas da população. Esta situação toda nos puxa com uma força poderosa para o pessimismo e a desesperança.

O desafio de se manter altivo e propositivo no momento se apresenta até para aqueles que situam seu olhar para além da realidade imediata e distinguem horizontes mais bonitos lá adiante. E que desafio, meu Deus! Manter a esperança como um componente fundamental para a estruturação de pensamentos e atitudes, para o exercício diário das atividades, para a prática da solidariedade e generosidade para com os que se deixam esmorecer. E falar de desânimo nestes tempos é falar especificamente em descrença no futuro do país. Mas, e por ser difícil, é exatamente agora que se faz necessário exercitar modos de firmar a possibilidade de um futuro bom no próprio coração. Depois de tantas dificuldades enfrentadas, e quando pensávamos ter alcançado um nível de desenvolvimento que só nos levaria mais adiante, e as políticas sociais ganhavam sempre mais importância a nos levar para a superação de injustiças seculares nos deparamos com um retrocesso inimaginável. Ou seja, quando pensávamos que o deserto tinha sido atravessado e que a terra prometida estava ali mais adiante, outro deserto se mostrou à nossa frente. Como um Moisés cansado que chega ao deserto do Sinai (mais um) e contempla a montanha à sua frente a partir do seu acampamento, e pergunta-se o que pode fazer se o caminho feito parece ter-lhe e ao seu povo esgotado todas as forças.

Mas há lições. Há lições nos desertos e mesmo e apesar de qualquer obstáculo a mente e o coração precisam se articular em modos de seguir adiante. Para Moisés a ideia foi retirar-se um tempo do acampamento, colocar-se em oração, mirar do alto as realidades, jogar o olhar para bem longe, lá onde o céu, que se confunde com o horizonte, tem um sorriso reservado e pronto para ser aberto com novas orientações.

Para nós os desertos parecem propor lições indispensáveis. Dentre elas destacamos a importância da dispensa da autossuficiência. Ninguém será capaz de propor ações eficazes senão aquelas que conjugam as forças, habilidades, pensamentos e criatividades de muitos. A autossuficiência é uma ilusão que se cultiva no orgulho e na presunção de se ser mais importante que outros.

A segunda lição, que é o prolongamento da primeira, pede que consideremos como fundamental o cultivo de vínculos que nos aliançam com os que conosco sonham sonhos de uma nova terra.

A terceira e como causa e consequência ao mesmo tempo das lições anteriores é a percepção de que a vida marcada pelas dificuldades do deserto não cabe nele. Ela é maior, bem maior que o mais largo deserto, bem mais alta do que o pico mais elevado, bem mais velha do que a soma de todos os dias e noites vividos. A vida. Uma força espiritual inconteste. Deus. E com ela dar-se em aliança. Amar sobretudo a vida na sua forma mais excelsa, Deus. Amar a vida e respeitá-la com seus vários nomes, manifestações e formas. Não matar, não desagregar o que tem que ser unido, não se apropriar do que é do outro.

Dauri Batisti

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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