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FUNÇÃO PROFÉTICA DOS SINDICATOS

Na revista Vitória de maio de 2018, fizemos um apanhado do pensamento do Papa Francisco na relação entre “trabalho e justiça social”. Agora queremos dar continuidade com uma questão específica, mas também correlacionada com o conteúdo do mês anterior. E vamos buscar este tema no discurso do Pontífice com os delegados da Confederação Italiana dos Sindicatos dos Trabalhadores, ocorrido no ano passado. Seu discurso versou sobre o tema “pela pessoa, pelo trabalho”. De suas palavras, queremos refletir aqui a questão da prática sindical.

São muito comuns, entre nós, as manifestações de críticas às posturas de sindicalistas. E são corretas as críticas, pois muitos sindicatos perderam sua “vocação profética da sociedade” assemelhando-se com a própria política, com os partidos políticos. Muitas vezes, os partidos tomam as organizações sindicais como braços para penetração na sociedade. O sindicato torna-se instrumento dos interesses corporativos e partidários.

Muitas vezes, os sindicatos perdem sua aderência social na medida em que se afastam do lugar onde sua luta deveria ser fundamental: as periferias existenciais, os imigrantes, os pobres. A corrupção, conforme Francisco, penetrou também no coração de muitos sindicalistas. Para o papa, é preciso “habitar as periferias” a fim de se tornar uma estratégia de ação.

E conclui seu discurso com palavras de grande profundidade: “Não existe uma boa sociedade sem um bom sindicato. E não há um bom sindicato que não renasça todos os dias nas periferias, que não transforme as pedras descartadas da economia em pedras angulares. Sindicato é uma bela palavra que provém do grego syndike, isto é, “justiça juntos”. Não há justiça se não se está com os excluídos”.

O desafio da justiça social é essencial para a luta por um mundo melhor e se insere no contexto do Ensino Social da Igreja e nos coloca diretamente no horizonte do Reino de Deus. Não é pauta dos comunistas como muitos tentam desqualificar o conteúdo da luta, mas da fé cristã. Isso precisa ficar claro para todos os cristãos batizados. “Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e todas as coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6, 33). Antes de orar a Deus pedindo milagres e curas torna-se necessária a luta pelo Reino e sua justiça. Milagres e curas virão depois.

Para os cristãos brasileiros que se dedicam à vida sindical o desafio é ainda maior, pois o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, ou seja, mais injusto. Nossos sindicatos pouco a nada conseguem ou querem fazer. O que domina seus trabalhos se refere mais à ordem partidária e não a luta por justiça, que é a função profética dos sindicatos.

Edebrande Cavalieri
Doutor em Ciências da Religião

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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