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Francisco em Myanmar: promover a paz e curar as feridas

Em fins de novembro do ano passado, o Papa Francisco realizou uma visita a Myanmar, que se tornou independente em 1948 com este nome, chamando-se Birmânia com a ocupação soviética e hoje retornando novamente com o nome antigo. O país tem 52 milhões de habitantes e 135 minorias étnicas. E é neste ponto que se encontram as maiores dificuldades para a convivência pacífica. Uma destas minorias é composta pelos Rohingya, privados da nacionalidade, contando com 620.000 pessoas.

O país é marcado por muita violência decorrente das profundas divisões civis, étnicas e religiosas. Trata-se de um dos piores países no que se refere à tolerância religiosa. A minoria Rohingya de fé islâmica tem sofrido muitas perseguições, e quase todos tiveram que fugir para Bangladesh. A violência com esta minoria é feita tanto pelo governo como pelos líderes budistas. E assim o Papa teve que ser muito cauteloso e não utilizar a palavra Rohingya, pois isso desencadearia maiores ações de violência.

Contudo, o Papa não deixou por menos e disse: “Só se pode avançar através do compromisso com a justiça e o respeito aos Direitos Humanos”. E conclama o povo budista a partir de sua tradição religiosa, como fez Paulo na antiguidade: “Quero expressar a minha estima a todos aqueles que vivem no Myanmar segundo as tradições religiosas do Budismo [...] formados nos valores da paciência, tolerância e respeito pela vida, bem como numa espiritualidade solícita e profundamente respeitadora do meio ambiente”.

Os católicos representam apenas 1% da população de 52 milhões, ou seja, quase 700.000. Portanto, o Papa Francisco visita um país de minoria católica e isso tem um significado muito especial. Por esse motivo, escolhemos este tema. Visitar um país onde todos os ventos são favoráveis é uma coisa, mas visitar um país onde o budismo e o islamismo são predominantes é desafio ainda maior. Até as palavras usadas devem ser muito bem cuidadas, pois podem pôr tudo a perder.

A mensagem central dirigida a todos e especialmente aos católicos, situa-se na disposição de se lançar pontes para a promoção da paz e curar as feridas. E mais ainda: enquanto a humanidade caminha na direção da uniformidade, a Igreja Católica deve avançar no reconhecimento da diversidade, pois cada tradição religiosa possui riquezas e valores e é sobre isso que se constrói a paz; é no corpo das diferenças que a unidade se reafirma na paz e não da uniformidade.

É preciso superar as formas de incompreensão, de intolerância, de preconceito e de ódio. E Francisco não teme em colocar lado a lado as palavras de Buda contidas no Dhammapada XVII, 223, para vencer o rancor, a mentira e a avareza com a oração de São Francisco de Assis de se pôr como instrumento da paz.

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Edebrande Cavalieri
Doutor em Ciências da Religião

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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