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FORA DO ÁLBUM DA COPA

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É como se eu tivesse uma pipa que não voasse e olhasse para o céu e visse uma outra pipa voando bem longe de mim, que eu não conseguisse pegar”. Foi assim que um menino do bairro Vila Nova de Colares, na Serra, explicou ao Pe. José Carlos, pároco da Paróquia São José de Calazans, com ele se sentia em relação ao álbum de figurinhas da Copa do Mundo na Rússia 2018, algo que ele sabe que existe, que ele tem vontade de ter, mas que está distante de sua realidade.

A analogia do menino foi feita durante uma dinâmica proposta pelo Pe. José Carlos com as crianças que frequentam o Centro Social São José de Calazans e revela que a realidade desta criança é igual a de tantas outras cuja renda familiar, muitas vezes não chega a um salário mínimo.

O esforço das famílias inseridas neste contexto, é tentar manter ao menos o básico dentro de casa, ou seja, a alimentação. Sendo assim, é praticamente impossível proporcionar aos filhos o objeto de desejo do momento de toda criança, pois colecionar as figurinhas e completar o álbum da Copa do Mundo na Rússia, que tem 682 cromos, fica em torno de R$ 1.938,00.

O cálculo, baseado no método estatístico Monte Carlo, foi feito considerando a compra de todas as figurinhas do álbum (a R$ 0,40 cada) e a média das figurinhas repetidas que também seriam compradas. O cálculo não leva em conta a troca de cromos.

Desempregada e contanto apenas com o salário do marido para manter as despesas da família que mora no bairro Vale Encantado, em Vila Velha, Mariane da Silva teve que dizer aos três filhos, 6, 8 e 11 anos, que não tem como comprar o álbum.

“O salário dele é de R$1.500,00 e eu sempre falo para os meninos que quando der, ou quando o valor dos pacotinhos diminuir, a gente compra. Eles pedem, falam que alguns coleguinhas têm, enfim, são crianças, mas acabam entendendo nossa explicação. Eu fico chateada e acho que as figurinhas deveriam ser mais baratas, acessíveis a todos, pois qual é o menino que não gosta de futebol? Muita criança fica de fora”, lamentou.

A opinião de Mariane é a mesma da empresária Verônica Rodrigues, que avalia o valor da coleção absurda e incompatível com a realidade social de muitas crianças. Proprietária de uma empresa no bairro Feu Rosa, na Serra, Verônica explica que convive com realidades opostas.

“Temos um bom padrão de vida e meu filho estuda em escola particular. Na escola os meninos só falam desse álbum, é uma febre. Mas na catequese, em nossa paróquia, tem criança que nunca viu. Não deixo meu filho levar o álbum para a catequese, porque acho dolorido para os que não têm condições. Estaríamos colocando no coração dessas crianças o desejo por algo que sabemos que para elas é inacessível”, observou.

Na comunidade de Jaburu, em Vitória, a realidade das crianças não é diferente, segundo o líder comunitário Cosme Santos de Jesus. No bairro, sequer existe banca de revista e o assunto copa do mundo tem repercutido pouco na região.

“A falta de perspectiva, a situação social e a desesperança em que as pessoas se encontram refletem em tudo, inclusive no esporte. Em outros anos de copa, a gente via o pessoal orgulhoso em vestir a camisa verde amarela, em mostrar que é brasileiro, mas este ano as pessoas falam pouco. As crianças se animaram um pouco e até ajudaram a pintar o beco do Centro comunitário e o muro do Cajun, mas as famílias que têm um pouquinho de dinheiro estão preocupadas mesmo é em colocar o arroz e o feijão dentro de casa”, disse.

O álbum de figurinhas da copa não é novidade entre a garotada, como explica o treinador de futebol Cosme Eduardo, que dá aulas para crianças de todas as classes sociais. Ele lembra que as edições antigas tinham um valor acessível a todos e ainda ofereciam brindes para quem as completasse.

“Agora o álbum é caro e os meninos mais humildes ficam de fora, pois sabem que mesmo que consigam ter o álbum não chegarão a completá-lo. Era algo que deveria contribuir como um estímulo para o esporte para as crianças de periferia, mas acaba ocorrendo o contrário. Para eles é frustrante”, afirma.

Na avaliação do secretário de relacionamento institucional da Associação de Moradores de Cariacica, Dauri Correia da Silva, o desestímulo no caso das crianças carentes reflete em outros aspectos da vida delas.

“Outro dia me deparei com dois meninos conversando e um dizia que tinha o álbum e estava comprando as figurinhas. O outro, bem mais humilde, afirmava que não tinha, pois, os pais não tinham condições. O olhar desse menino transmitia um sentimento de inferioridade. Era como se ele tivesse assimilado que ele não tinha direito de ter certas coisas. Isso é muito dolorido. Como explicar para as crianças, que vivemos em um mundo capitalista e que alguns podem e muitos não podem. Até para um pai, explicar isso a um filho é muito difícil. Aí vem sempre a desculpa de quando tivermos dinheiro, eu compro. Mas esse dia nunca chega. O álbum na verdade é só um exemplo das inúmeras coisas que são negadas a estas crianças”, comentou.

Mas se existem muitos “nãos”, sempre tem alguém para dizer “sim” e, com um gesto bacana, lembra a todos que ‘olhar para o outro’ é importante e faz diferença.

O professor e ex-jogador profissional de futebol Matheus Luchi Bernardes se comoveu com o fato de algumas crianças carentes, que ele treina em uma escolinha de futebol, não terem condições de adquirir o álbum e as figurinhas.

Matheus comprou alguns álbuns e pacotinhos de figurinhas e presenteou os meninos durante um campeonato disputado fora de Vitória.

“Eu queria que eles se sentissem incluídos, assim como as outras crianças que, por terem condições estavam com o álbum. Quando eu entreguei o álbum para esses meninos, foi automático. Tanto os que haviam recebido o presente como as outras crianças que já tinham o álbum começaram a pular de alegria e a gritar: Vamos trocar! Eu sei o quanto é importante estimular a partilha, a amizade e a percepção de enxergar o outro. Fiquei muito feliz com a reação dos meninos”, comemorou.

O estudante Adriel Fernandes Nascimento, 12 anos, foi um dos meninos que ganhou o álbum doado por Matheus. O menino, que mora em Viana, treina duas vezes por semana no campo da Curva da Jurema e acompanhado do pai, o caldeiro Carlos César Nascimento, revela um brilho no olhar ao falar do presente. “Tem muitos craques no álbum que eu já assisti na televisão. Acho que não vou completar o álbum, pois são muitas figurinhas e elas são caras, mas é muito legal colecionar”, afirma.

Adriel tem razão, colecionar é contagiante, tanto que o envolvimento não é somente das crianças. Adultos, adolescentes, jovens e idosos vão para as praças e shoppings da Grande Vitória trocar figurinhas.

reportagemalbumcopa (3)A administradora Mariângela Serrão, 62 anos, comprou o álbum e afirma que o interesse vem desde a época em que o filho era pequeno e o estimulava a colecionar as figurinhas.

“É divertido, mas também desenvolve raciocínio e colabora para o conhecimento. Agora que ele é adulto, venho eu interagir com as pessoas, conhecer gente nova e estimular minha mente”, comentou.

reportagemjosâniapretto (1)O estímulo para a Advogada Josânia Pretto é ver os três filhos de 9, 14 e 17 anos interagindo e se ajudando. “Aqui em casa é um álbum para os três e vejo que eles se unem para tentar completá-lo”, conta.

Para a administradora Elaine Butter, além da interação das duas filhas e do envolvimento de toda a família, o álbum da Copa a levou a uma reflexão.

“Moramos em uma região onde convivem pessoas de vários níveis sociais. Eu vejo minhas filhas muito alegres com a coleção, e vibro com a felicidade delas, é claro. Mas, por outro lado, muitas crianças da vizinhança não têm essa alegria. Parece algo tão simples, mas a oportunidade de olharmos o entorno e percebermos que existem outras realidades, acontecem o tempo todo nas pequenas coisas do dia. O álbum, por incrível que pareça, fez-me refletir sobre isto”, afirma.

Para o Pe. Adriano Francisco Souza, pároco da Paróquia Santo Antônio de Pádua, em Soteco, Vila Velha, refletir sobre essas realidades é oportuno e louvável, mas para ele, também é possível direcioná-la para outra vertente; o fato de darmos valor para o que realmente tem importância na vida.

“O álbum é um modismo, vai passar e é necessário que os pais conscientizem seus filhos com relação a isto. Alguns aqui na paróquia vieram conversar comigo, expondo que deixaram de comprar o pão para comprar figurinhas, pois não queriam ver seus filhos ainda mais rebeldes. A orientação que dou é que é necessário mostrar para as crianças o que é prioridade na vida; a garantia do direito à saúde, educação, alimentação e segurança para todos. Precisamos ter acima de tudo, discernimento”, concluiu.

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Andressa Mian
Jornalista

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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