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FAZER BOM USO DO QUE NOS ACONTECE

Acontecem tantas coisas ruins na vida! Sim, acontecem. É uma certeza. Cada um tem sua cota. Sendo assim, é bom não se deixar seduzir pela ideia de que é possível passar pela vida sem dar de “cara” com estes acontecimentos. Se é bom não se iludir, melhor ainda é agir, tirando proveito de tudo que acontece.

Bem sabemos que a vida nunca garantiu a quem quer que seja apenas as facilidades, muito pelo contrário. E se desejamos fazer a experiência da vida como satisfação e contentamento – e isso é uma grande possibilidade – tudo haverá de resultar da postura frente a esses momentos e do modo com que conduzimos o seu proveito. Há que se fazer um bom uso do que nos acontece, o tempo todo, das pequenas ocorrências às grandes. Mas, especialmente temos que aprender a fazer bom uso dos maus acontecimentos.

Temos medo de sofrer. O medo pode nos destituir de nossas forças e potencialidades. O medo pode nos impedir de crescer e de sermos quem de fato somos. O medo pode nos jogar num buraco onde só viveremos precariamente por projeção, por idealização, enganando a nós mesmos, perdendo a realidade e a vida que nela se dá. Mas o medo em si não é negativo. O medo é uma reação que nos antecipa, nos prepara, nos adverte, nos fortalece até para o enfrentamento do que vem. O medo e as dificuldades em lidar com certas realidades e situações não poderão nos paralisar. O medo de sofrer é naturalíssimo, a dificuldade em lidar com acontecimentos ruins também, mas ser paralisado por eles não. A mesma natureza que nos dá o medo, nos dá também a coragem. Só é preciso acessá-la. E essa habilidade de acessar as forças da vida vem também do treino em olhar com desejos de aprender mais sobre nós mesmos, sobre a vida e o mundo por intermédio do que chega, do que nos acontece.

Há outra coisa importante: o sofrimento nos compõe. Ele é uma importante parte desse complexo arranjo que somos. Não somos senão a composição em que os desafios, as dificuldades, os acontecimentos ruins, as perdas, as dores são elementos essenciais e importantíssimos. As notas mais elaboradas, as pinceladas mais finas, o brilho mais adequado, os movimentos mais bonitos na obra de arte que cada um haverá de fazer de si mesmo, se dão nas dificuldades.

Evitar o mal, no entanto, é um imperativo que se impõe a todos. Temos que fazer de tudo para evitar a dor, para não ter que passar por situações difíceis, para impedir que coisas ruins aconteçam. Temos que usar todos os nossos recursos, inteligência e forças para que fiquemos livres desses momentos, mesmo e apesar de saber que nem sempre nossas estratégias, desejos e vontades se realizam com êxito.

Além desse árduo, urgente e indispensável trabalho – evitar o sofrimento e a dor – outro, não menos árduo, mas sempre frutuoso, nos é proposto: agir. Sim. Agir a partir do que nos acontece. Fazer bom uso do de tudo que nos acontece, e também – sem vacilos, dúvidas e titubeios – fazer bom uso especialmente do mal que nos acontece.

Se diante dos acontecimentos/situações ruins nos faltar esse olhar, esse desejo de fazer um bom uso de tudo que nos acontece, muitas outras situações difíceis pesarão sobre nós com peso esmagador. Ou seja, o bom uso do que nos acontece muda, define, reorganiza, potencializa, alegra, embeleza a vida que nos é dada viver. E o bom uso do mal que nos acontece ainda mais opera isso.

Dauri Batisti
Padre, Psicólogo e Mestre em Psicologia Institucional

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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