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Família, política e fé a serviço da transformação

A senadora Ana Rita Esgário nos concedeu essa entrevista em maio deste ano e agora, ao final de seu mandato, fica um registro de suas lutas, conquistas e principalmente sua capacidade de se relacionar.

vitória – Os autores contemporâneos dizem que as mulheres, além de geradoras de vida, são gerativas, ou seja, se preocupam em dar continuidade, ou deixar alguma coisa, independente da geração dos filhos. Você já ouviu falar sobre isso?

Ana Rita – É um termo desconhecido por mim, mas me passa a ideia de uma mulher ativa, a mulher que toma decisões. A mulher toma iniciativa, impulsiona, provoca, é proativa, ela não consegue viver uma situação sem se manifestar sobre ela. Talvez esse termo “mulher gerativa” venha um pouco desse perfil que elas têm.

vitória – Você tem esse perfil: na política sempre busca alguma coisa que pode ser mudada? Você sente que gerou alguma coisa?

Ana Rita – Eu me sinto uma pessoa que busca gerar coisas novas. Diante de algumas situações, muitas vezes desafiantes, eu não me dou por vencida, eu corro atrás e já passei por várias situações assim. O mundo da política não é fácil, é um embate permanente, alguns até estranham, acham que eu sou até freira, por ser muito calma, muito tranquila, mas eu não sou.

Eu já comprei boas brigas no Senado, brigas no sentido de que outros não tiveram coragem de assumir e eu tive, até porque eu tenho muito clara a minha missão como cristã, e como tal, não posso me sentir intimidada diante de algumas situações difíceis. Nós somos chamadas e convidadas a mudar aquilo que não está bom, independente de quem seja a “vítima”, a gente precisa assumir o nosso papel de transformar o mundo, e transformar o mundo é fazer com que as pessoas possam ter dias melhores, dignidade, uma vida melhor. Acho que isso é ser uma mulher gerativa.

vitória – Na sua vida política, o que vê de resultado efetivo de lutas que participou?
Ana Rita – O período que eu mais produzi foi no Senado. A CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) da violência contra as mulheres foi uma coisa que eu gerei e ficou um legado para todos os poderes públicos do nosso país, algo que nunca tinha sido feito antes. A partir desse trabalho, muitas coisas começaram a mudar em diversos estados, mesmo antes de concluído.

Mas há algumas legislações que eu sinto imenso orgulho de ter podido fazer parte, exemplo: as cotas raciais – um projeto que tramitava no Congresso há 14 anos e que ao chegar a Brasília em 2011 eu fui desafiada a assumir a relatoria e topei. Depois de mais de um ano de trabalho conseguimos aprovar.

vitória – Por que as mulheres, com toda essa capacidade, ainda são as grandes vítimas da violência?

Ana Rita – Eu diria que as mulheres são vítimas de uma sociedade machista e preconceituosa, e isso vem de muitos anos. Mas com o tempo elas vão tomando consciência, ocupando espaços antes de domínio dos homens, vão ao mercado de trabalho, ocupam a política, participam da vida social. Isso gera em alguns homens o receio de perder o poder sobre a mulher, pois eles a têm como objeto. A partir do momento que a mulher conquista autonomia, tem seu próprio recurso financeiro, o companheiro começa a se sentir inferior a ela, e é aí que a violência vem junto. Os índices são muito altos, pois as mulheres tinham medo de denunciar, medo do julgamento da sociedade. As pesquisas mostram que as mulheres tomam coragem de denunciar após 5 ou 10 anos de sofrimento dentro de casa. Por outro lado, até pouco tempo, elas não tinham espaços apropriados para buscarem ajuda. Esse apoio só surgiu com a Lei Maria da Penha que é a 3ª lei mais importante do mundo no enfrentamento à violência contra as mulheres, mas que ainda não está sendo implementada do jeito que deveria.

vitória – O problema poderia estar em as mulheres assimilarem o lado conciliador, paciente, e por isso demorem a reagir?

Ana Rita – É assim que a sociedade e os homens enxergam as mulheres. Eu acho que ela se vê como a pessoa que consegue dialogar mais, mas ela já está acordando que não é só através do diálogo que se resolve as coisas. O diálogo é fundamental, mas em algumas situações não é suficiente.

vitória – O que fazer para mudar as novas gerações?

Ana Rita – Quando a gente fala de machismo, não são apenas os homens que o são, muitas mulheres também pensam como eles. Eu não vejo outro caminho senão a educação. A família tem um papel importante, pois muitos filhos são criados achando que são donos das mulheres e filhas aceitando que são submissas. É preciso se preparar e não reforçar certos valores que já estão superados, além de garantir valores de igualdade, respeito, tolerância, que respeitem os homens e as mulheres. A escola também tem um papel fundamental. Uma das coisas que debatemos no Senado é que a questão de gênero precisa perpassar os currículos escolares, desde o ensino básico até o superior. Preocupa-me o fato dos jovens de hoje se relacionarem apenas pela internet, não se relacionam com os irmãos, com os colegas. A tecnologia é fundamental, mas não pode substituir as relações humanas.

vitória – A Ana Rita fora da política também é gerativa?

Ana Rita – Eu acho que estou gerando outra vida que é o meu João, ele veio em minha vida, porque ele precisava de mim, e eu descobri que também precisava dele. Ele é uma pessoa que precisa de muito apoio, e eu acho que sou essa pessoa que dialoga, que reflete junto com ele, que dá tranquilidade, que ajuda a planejar um pouco a vida. A gente se conheceu na Igreja e eu consegui ver nele uma pessoa que eu poderia me dedicar, ajudar a reconstruir a sua vida. Ele tem três filhos que são maravilhosos para ele, e veio de um casamento que não deu certo, por isso estava em um momento de muita angústia. Eu acho que pude fazer um bem muito grande. Ele também veio para mim no momento certo, porque como estou em Brasília praticamente a semana inteira, eu precisava de alguém que fosse minha ponte aqui, alguém mais ligado à família. É ele me ajudando e eu o ajudando.

vitória – A mãe, o noivo, a família em geral, a comunidade. O que você gera nessas relações?

Ana Rita – Eu penso que eu gero vida, e muita vida. Na comunidade, por exemplo, quantas pessoas me procuram para falar sobre seus problemas pessoais, e não me procuram por eu ser senadora, mas porque veem em mim uma amiga, vão à minha casa trocar ideia, bater papo. Com o diálogo a gente alimenta a esperança nas pessoas, e isso é gerar vida, mostrar que o dia de amanhã vai ser melhor, e eu faço muita questão de dizer: nunca se esqueçam de colocar Deus na frente de tudo. Eu me vejo como instrumento de Deus na vida de algumas pessoas.

vitória – Com a família isso fica mais fácil, com as pessoas da comunidade e as que te procuram, você consegue manter uma relação fraterna, fora do cargo que exerce?

Ana Rita – Sim, é uma relação de amizade, principalmente com as mulheres idosas, elas conhecem minha mãe, então é uma relação de amor, elas nem tocam em assunto de que eu sou senadora, nada disso, elas me veem como uma filha. Eu moro há 45 anos na mesma comunidade então as pessoas me viram crescer. Comecei a dar catequese com 13 anos, vai além da minha missão mandatária, do meu cargo.

vitória – Existe uma diferença entre a relação na comunidade e quando você recebe pessoas em seu gabinete?

Ana Rita – Em algumas situações não. Quando recebo pessoas da minha comunidade a minha relação é a mesma, recebo com muito carinho. Onde consigo deixar a minha marca de parlamentar é quando estou nas comissões no Senado, porque ali se fala em pé de igualdade com os demais, olho no olho, e ali eu me coloco na posição de senadora. Tudo o que é feito ali é público, então aquele é um momento de postura. Eu digo que me desconheci quando assumi a CPMI das mulheres, porque eu assumi o meu papel de inquiridora, como relatora eu deveria inquerir as autoridades. Nos 17 estados que eu fui cobrei de autoridade, independente de quem fosse, pois eu estava ali para questionar.

vitória – O trabalho foi reconhecido?

Ana Rita – Sem a menor dúvida, o meu reconhecimento nacional é muito maior do que aqui no Estado. O Estado não deu o devido valor ao mandato. Eu digo isso de um modo geral, começando pelo meu partido, os meios de comunicação e a sociedade no geral. O nosso mandato ganhou grande visibilidade e respeito com a CPMI da violência contra mulher e minha atuação na Comissão de Direitos Humanos do Senado.

vitória – Como mulher, o que você acha que nós precisamos gerar?

Ana Rita – Primeira coisa, as mulheres precisam descobrir o seu potencial de saber, do conhecimento, e se preparar também cada vez mais para isso. É trabalhar no diálogo, na visita, uma postura de solidariedade com os próximos, são pequenas atitudes que mudam coisas enormes.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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