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Evaldo Assumpção

CADA PERDA É UM LUTO

Evaldo Assumpção ensina a fazer pastoral do luto em 15 minutos. Ele vive sua aposentadoria na
Praia de Castelhanos em Anchieta e procura aos poucos colocar em prática o que ensinou, presenciou
e viveu durante sua carreira de cirurgião-plástico e trabalho social na área da tanatologia.

entrevista 2

vitória – O senhor é um médico tanatólogo?

Evaldo Assumpção – A tanatologia não é uma atividade médica. Eu exerci cirurgia-plástica durante 45 anos. No decorrer desse período, em 1978, tive a oportunidade de fazer um seminário que me despertou curiosidade exatamente pelo inusitado do tema que era “Psicologia Transpessoal da Morte”. Eu sempre gostei de psicologia, “transpessoal” eu não tinha a menor ideia do que era e morte, eu não achava muita graça não. Então fui fazer o seminário e lá tive contato, pela primeira vez, com a tanatologia, ciência, que tinha surgido no final da década de 1960 com duas pessoas: uma enfermeira na Inglaterra, Cicely Saunders e uma médica psiquiatra suíça, mas radicada nos Estados Unidos que era a Elisabeth Kübler-Ross. Saunders começou todo esse trabalho observando os pacientes que estavam em fase terminal da doença que, de alguma maneira, eram abandonados pela comunidade médica. O médico é formado para salvar vidas. Quando eu já não tenho mais jeito de salvar uma vida, o que eu faço? Saio correndo, abandono, não tenho nada pra fazer mais. E a Cicely Saunders percebeu isso e criou uma ala no Saint Christopher, um hospital da Inglaterra, para aqueles enfermos que os médicos falavam: “Não tem mais nada o que fazer”. Aí ela falava: “Agora tem muito que fazer, manda pra mim”.
Depois isso evoluiu para uma consequência inevitável, o trabalho com o luto. Já em 1978, eu tive essa visão e de repente me caiu a ficha de que aquilo era uma coisa importantíssima. No Brasil não tinha nada disso, então comecei a ler e publiquei o primeiro trabalho meu chamado “A Morte” numa revista católica de Belo Horizonte. Isso foi o começo, depois vieram os desdobramentos. Eu continuei como cirurgião até para poder pagar algo tão diferente, mas dedicava alguns fins de semana ao trabalho social com o luto.

vitória – O senhor passou quanto tempo exercendo a profissão e paralelamente trabalhando o luto como atividade social?

Evaldo – As duas coisas juntas desde setembro de 1979. Depois passei a fazer trabalho profissional mesmo, em Belo Horizonte. Eu não podia colocar médico tanatólogo, porque parecia que eu estava colocando como especialidade. E eu corria risco de ter um problema com o Conselho de Medicina, se bem que, paradoxalmente, consegui criar o Departamento de Tanatologia, que existe até hoje em Minas Gerais. É um departamento atuante, e agora uniu-se a uma coisa que surgiu posteriormente, que eu considero como uma decorrência da tanatologia, que foi a mãe de tudo disso, que é o cuidado paliativo. O que é o cuidado paliativo se não a aplicação dos conceitos da tanatologia por parte do médico que virou o paliativista? Acho que está caminhando para uma especialidade.

vitória – Esse trabalho deu origem à pastoral do luto?

Evaldo – Eu fazia grupos de suporte ao luto no auditório das Paulinas e na paróquia Santo Inácio, em Belo Horizonte, por causa do livro que publiquei. Então me ocorreu: Como é possível que a Igreja não tenha uma pastoral do luto? Eu tinha raiva da tal da Pastoral das Exéquias. Tinha e continuo tendo. Porque eu acho que a Pastoral das Exéquias é uma coisa muito fora de propósito. Ajudar o pessoal, ir ao enterro, sepultamento e tal, tudo bem. Mas, e depois o que acontecia? Eu falava com Dom Serafim e depois com Dom Walmor que precisava ter uma pastoral para que os leigos e os padres falassem sobre a morte, porque eles não sabem falar. A Pastoral do Luto precisa existir porque, na hora em que a pessoa morre, a Pastoral das Exéquias o que faz? Dá tchau e vai embora? A Pastoral do Luto entra na hora em que a Pastoral das Exéquias sai. Ela vai acompanhar durante dois anos, porque dois anos é o tempo médio do luto.

vitória – Como o senhor criou a Pastoral do Luto?

Evaldo – Eu propus à Arquidiocese a criação da pastoral. Só que, você sabe muito bem, não é fácil. A começar pelo nome. “Vamos fazer a Pastoral da Esperança”, definitivamente não. Eu mandei carta para muito bispo e padre, Pastoral da Esperança não existe. Esperança: você vai pegar uma pessoa que acabou de perder um filho atropelado e falar em esperança com ela? Nós temos que ter a noção de que há coisas que a gente tem que fugir daquela religiosidade, não espiritualidade, muito certinha e saber que nós temos que ir por outros caminhos. Jesus não falou que nós temos que ser espertos como a serpente? Eu vou receber uma pessoa que está enlutada, eu não vou falar assim: “Não… Sua filha está no céu…”. Naquele momento, isso e nada é a mesma coisa. Uma pessoa amada, querida está ali estendida no chão, “Deus queria ela lá com Ele”. Isso para mim é até falta de caridade. Tem uma técnica facílima para fazer a Pastoral do Luto, eu ensino em quinze minutos: duas orelhas, uma boca, de preferência fechada, ombrinho, para a pessoa chorar, abraça e escuta o que ela quiser falar. Quando eu fiz o grupo de luto, ele era oito/nove sessões, uma vez por semana. Isso é uma forma ideal, depois por falta de tempo das pessoas reduzi para duas sessões por semana. Tempos depois fiz num final de semana. Era um grupo de diversas crenças e eu não colocava nada de oração. Naquele momento, ali, que oração nós vamos fazer? Nós estamos orando. Oração não só é “Pai Nosso”, “Ave Maria”. A vontade que eu tinha, pena que por ética eu não podia fazer, era de esconder uma câmera e filmar o pessoal chegando e depois filmar o pessoal saindo. Você não reconhecia as pessoas. A pessoa que chegou lá quase se arrastando de manhã cedo, saía rindo abraçando todos. Milagre? Não, não era milagre, elas apenas puderam vomitar toda a dor que tinham. A expressão das emoções, dos sentimentos, é fundamental. A Pastoral do Luto é uma coisa muito simples.

vitória – E a reação das pessoas? O que dá um retorno maior para quem está fazendo uma proposta, trabalhar com médicos, enfermeiros ou famílias enlutadas?

Evaldo – Eu acho difícil responder, porque não tinha aquela que me dava mais satisfação. Eu ficava feliz com tudo o que fazia. Mas, a resistência dos médicos é muito grande. Dos enfermeiros, muito pequena. E os psicólogos eram a grande e esmagadora maioria nos cursos que a gente fazia. Médico tem uma pretensão, mas o médico tem sentimentos, igualzinho qualquer um de nós, só que ele embute o sentimento, ele fala assim: “Você não pode se manifestar”. Meu pai tinha uma expressão que eu gostava muito: se a gente tivesse uma torneirinha de sentimentos na cabeça, se pudéssemos fechar e abrir na hora necessária, seria ótimo. Mas não existe a torneirinha, então você vai ter que conviver com eles. O médico faz isso, ele imagina que tem a tal torneirinha, só que o sentimento fermenta lá dentro e explode. E isso explode na cabeça dele, no coração dele, no câncer que aparece nele. Tanto que o índice de suicídio, de câncer, de doenças mentais, de consumo de drogas entre médicos é altíssimo.

vitória – Teve algum caso de doente terminal que marcou a sua experiência?

Evaldo – O trabalho com o enfermo em fase terminal não é só no psicológico, é no econômico, no prático também. Quantas pessoas têm um testamento feito? Esse era um dos temas que eu abordava. Ter um testamento, organizar o seu patrimônio. Eu tive uma experiência com meu ex-sogro. Era minha primeira esposa e uma irmã mais nova. Gostava demais dele. Quando ele morreu, não tinha nada, nada. Eu tive que destrinchar a vida dele. Sei que a família dele passou muita dificuldade, inclusive, porque muita coisa dele se perdeu, a gente não localizava. Isso era um tema que eu colocava nos grupos. Porque na verdade, nós estamos falando em luto, Não estamos falando, apenas, em morte. Se você tem uma perda, você passou pelo luto. Se você olhar as fases do luto, vai ver que as mesmas fases que você vive quando perde uma pessoa, você vive quando perde um relacionamento importante, quando perde um bem material importante, quando perde um emprego, enfim, perdas. E nós temos que aprender a lidar com as perdas. Quem aprendeu a lidar com a perda maior, que é perda pela morte, as outras se relativizam.

vitória – Você não conseguiu virar ateu, nem se perguntando quando daria aquele “estalinho”?

Evaldo – Bem que eu tentei, só para ver como era o gosto, mas eu não conseguia (risos). Eu aprendi com Dom Serafim e uso muito essa expressão: “Aprender com as pequenas gentilezas de Deus”. E a minha vida é repleta de pequenas gentilezas de Deus.

Você acha que a dimensão religiosa, da fé, o ajudou a despertar para esse trabalho?

Evaldo – Com certeza. Principalmente ser pioneiro numa coisa que é completamente estranha. As dificuldades e obstáculos eram muito grandes. Eu acredito que essa dimensão de fé me fez ser persistente. Eu acreditava no que eu estava fazendo, eu via que aquilo ia ser útil, não só para os enfermos, mas para os meus próprios colegas que passariam a poder se soltar mais e ter menos alma profissional, mas também porque eu achava que aquilo era uma forma de eu estar exercendo um apostolado sem fazer muito estardalhaço.

vitória – E se eu pedisse para você me definir a morte?

Evaldo – Eu considero a morte simplesmente como uma transição. Não é um fim, mas uma passagem, simplesmente uma passagem. Eu gosto muito do Guimarães Rosa, quando fala: “A gente não morre, a gente se encanta”. Eu acho que nós estamos numa passagem, numa mudança de circunstância de vida. Eu tenho uma vida estritamente dentro de um campo material, claro que com uma diversidade do meu psiquismo, espiritual, mental, mas quando eu morro eu deixo tudo aquilo que era da dimensão material, que é a dimensão da impermanência, porque tudo aqui é impermanente.

vitória – Como médico, a vida acaba?

Evaldo – Não acaba. Eu trabalhei em pronto-socorro por trinta anos, mas eu não sentia que estava acabando. Nessa época eu não mexia com tanatologia, eu tinha uma base religiosa, que eu devo muito aos meus pais. Eu tive um período da minha vida que eu era religioso, mas era religioso de missa dominical. Depois eu tive a experiência do cursilho, onde muita coisa mudou na minha vida. Quando eu vejo uma pessoa morrendo, ela não está morrendo, quem está morrendo é o corpo dela. Biologicamente, a cada sete anos, você morre. Suas células são praticamente todas renovadas. Na hora que meu corpo morrer, eu não morri junto com ele. Pra onde eu vou não me pergunte, que eu não sei. Não sei nem quero saber. Para quê que eu quero saber como é o outro lado? Primeiro, eu não tenho condição de saber. Se eu saio do espaço-tempo, a minha razão eu não tenho competência para alcançar.

vitória – E atualmente? Profissão, não está exercendo mais, Pastoral do Luto, ainda não implementou em Anchieta.

Evaldo – Essa é uma profunda mágoa que eu tenho com a Arquidiocese de Vitória. Porque eu fui lá duas vezes fazer palestras, que seriam preparatórias para a nossa pastoral, mandei para o Secretariado de Pastoral a proposta de treinamento para a Pastoral do Luto. Aí tudo foi ficando para o ano que vem. Quando chegou o fim do ano passado, eu falei: “Agora, encerrei definitivamente minha tranquilidade”.

vitória – E como você vai se reconciliar com a Arquidiocese de Vitória?

Evaldo – Torcer para que a Pastoral do Luto seja formada lá. Tem uma médica que me ajudou, Flávia, que me conheceu onde eu trabalho, fez curso de tanatologia em São Paulo e é muito amiga do Dom Luiz, e eu falei: “Agora você assume”. Acho que é a pessoa mais indicada.

vitória – Mas não tem como levar Evaldo de Anchieta para Vitória?

Evaldo – Evaldo tem que ser coerente. Eu procuro o máximo ser. Eu estou num processo sequencial de acabar com certas coisas. Nós temos que tomar muito cuidado, nós queremos ser permanentes em muita coisa. E essa uma das maiores causas de sofrimento.

vitória – Não tem um pouquinho de exagero nas suas decisões?

Evaldo – Não tem. Eu acredito também que a própria capacidade da gente não é permanente. Eu tenho noção absoluta da minha limitação física e mental. Eu não tenho hoje a mesma agilidade física e mental que eu tinha há quinze anos. Eu me julgando insubstituível, eu tiro a oportunidade de outras pessoas, que podem e estão em condições muito melhor do que eu hoje, para fazer as coisas. Hoje eu não estudo mais. Eu gosto de ler, eu leio muita coisa, mas a minha leitura não é compromissada com o estudo para me atualizar. Em medicina e em tanatologia, ela exige uma atualização constante e eu precisaria estar em congressos… E eu não tenho disposição nem disponibilidade para isso. Hoje eu faço muito melhor escrevendo as memórias. Eu prefiro escrever meus artigos, que são mais pontuais, eu não preciso estar fazendo grandes pesquisas.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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