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Espera, palavra que não tem fim

Para a coordenadora de eventos Daniella de Almeida Carvalho, 37 anos, a Festa de Natal tem um significado muito mais especial este ano. Depois de passar pela perda (ainda no útero), de um dos gêmeos que esperava e perder o segundo bebê, o Davi, com cinco meses e cinco dias de vida, vitimado por uma bronquiolite (doença que se caracteriza pela inflamação das pequenas vias aéreas dos pulmões, os bronquíolos), Daniela, o marido, Renato Vasconcelos Ribeiro e a família, passarão o Natal com o pequeno Théo que chegou em junho deste ano, trazendo assim o amor, a alegria e a esperança de volta para Daniella e sua família e para todos que conhecem sua história.

vitória – Para você qual é o significado da palavra espera?
Daniella - É difícil. É uma palavra que não tem fim porque eu esperei demais para ser mãe, e com todas as atribulações que passamos, eu sou grata demais por isso, sou grata demais pelo Davi, pelo Théo… esperar em Deus é tão difícil… (choro) a gente tem que ter uma fé que vem do além. Mas graças a Deus eu consegui ter essa fé que não me deixou desistir. Foi muito pesado o que a gente passou. Eu espero em Deus sempre, e continuo esperando que Ele consiga nos ajudar na criação do Théo e nos ajudar a sempre lidar com a dor da saudade do Davi. Essa dor não passa. Ela fica ali quietinha, dói menos hoje, machuca menos porque a gente entende que ele está bem.

vitória – Você passou por experiências de perdas significativas. Como foi aceitar essas perdas?
Daniella - Não foi fácil, num primeiro momento eu me revoltei muito. Briguei, falei tanta besteira, mas eu sabia que Deus estava me entendendo. Eu brigava de dia com Ele e pedia perdão à noite. Fazia as pazes com Deus porque eu tenho certeza que foi Ele quem carregou a gente até aqui. O desespero quando se perde um filho é tão grande, é um vazio tão grande, que a gente acha que não vai conseguir continuar. Então, se a gente não tivesse Deus na nossa vida de forma tão presente, a gente teria desistido. Eu principalmente, porque acho que meu marido tem mais fé do que eu. A minha fé ficou mais abalada, mas eu tive uma rede de solidariedade muito grande que se formou em torno da nossa história, que foram os enviados de Deus. A gente teve muito apoio. Então isso é Deus. Esse Deus que nos ajuda na vida de uma forma absurda. Quando sei de alguma mãe que perdeu um filho, e tenho oportunidade de conversar com ela, eu falo: pode brigar com Deus, que Ele perdoa. Porque num primeiro momento, a vontade é de brigar, mas depois você sente… você vai continuando em frente, sem saber como, meio perdida, mas você sabe que alguém está te carregando. Você está no colo Dele, de Jesus, de Maria… Então, a aceitação vem sem você dizer eu aceito, ela acontece.

vitória – Você encontrou forças para tentar outra gestação. Como foi isso?
Daniella - Eu não evitei a gestação, eu entreguei nas mãos de Deus.
Eu pensava: eu não sei quantos filhos mais Deus precisa de mim. Me mandou dois e me tirou os dois. O tempo foi passando, fui fazendo as pazes com Ele, fui tentando entregar minha dor, e deixei que Ele conduzisse as coisas. Meu marido queria muito que eu engravidasse de novo, e eu tinha muito medo, mas acredito que no fundo eu queria. Mesmo com uma luta interna muito grande, mesmo com pensamentos de que tudo poderia acontecer novamente, a força vem, e vem de Deus. Eu entrego todos os dias a vida do Théo nas mãos de Deus. Meu casamento se fortalece muito com oração e a gente reza muito, a gente pede muito juntos.
À noite quando a gente dá as mãos e reza, o primeiro pedido é pelo Davi, onde quer que ele esteja, que ele esteja bem. E a gente pede pela vida do Théo, pela saúde dele, pois aos três meses de vida ele teve a mesma doença do Davi e ficamos muito desesperados, mas pedimos muito a Deus, para que Ele nos permitisse ficar com o Theo, e ele se recuperou muito rapidamente. Pedimos também para que nosso casamento continue harmoniosos e que a gente consiga ter sabedoria para criar o Théo. A força vem de Deus, totalmente.

vitória – O que representa a figura de Maria nessa sua história?
Daniella - Nossa… (choro). Me emociona muito porque quando eu vi meu filho na UTI, no finalzinho, com muita dificuldade de respirar… eu falei: Minha Nossa Senhora, leva o meu filho e cuida dele para mim. Três minutos depois meu filho morreu. Ela me ouviu. Eu pedi muito. Falei: cuida, pois a Senhora assistiu também seu filho indo embora, então a Senhora vai me entender, vai cuidar dele para mim porque eu não posso mais cuidar… (choro). Meu filho morreu perto das 18 horas. A presença de Nossa Senhora foi muito grande. Eu pedi muito pelo seu amor de mãe, que ela cuidasse de mim e que eu tivesse a mesma entrega e confiança que ela teve. Eu não tenho dúvidas que Nossa Senhora me ajudou.

vitória – O que a experiência da maternidade mudou na sua vida?
Daniella - Tudo. Essa entrega, ter um coração batendo literalmente fora da gente, um coração que é da gente e que a gente tem que cuidar… eu acho a forma mais linda do amor se expressar. Eu acredito que não exista amor maior que este. É tudo. É responsabilidade, é maturidade, é uma maneira diferente de ver o mundo, tudo muda. A gente começa a querer um mundo melhor e a ver o mundo de uma forma melhor. Muda a maneira de pensar qual o mundo a gente está dando para o filho. Isso é bom porque a gente começa a pedir pelo mundo, a gente fica menos egoísta, a gente quer um mundo melhor para o filho conviver nele, e para isso temos que fazer alguma coisa, colaborar para um mundo melhor.

vitória – É o primeiro Natal de vocês juntos. O que este Natal vai representar para sua família?
Daniella - Ah!… Nossa…. Eu diria que é uma ressurreição para nossa família. O Natal para a gente este ano será quase uma Páscoa, porque a gente renasceu, a gente voltou a sorrir. O Natal mexe muito com a gente… logo depois do que aconteceu com o Davi, a gente passou o Natal só na oração, nós não conseguimos celebrar o Natal. A gente se encolhia e agradecia pela data, pelo sentido em si do Natal, o nascimento de Jesus, mas esse ano vai ser diferente, porque a gente tem um sentido novo na nossa vida, e a gente quer comemorar muito o Natal, porque a gratidão por este presente, que é o Théo, é muito grande, é muito forte sabe… É poder viver isso de novo, um Natal com um filho nos braços, um Natal com muito amor.

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Andressa Mian
Jornalista

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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