buscar
por

Escolas de tempo integral: solução para a educação?

Integral. Por definição, quer dizer total, inteiro, global. É o que pretende ser o projeto de escola em tempo integral proposta pelo governo para algumas escolas do estado, de forma piloto.

Um dos pilares da campanha política do governador eleito, Paulo Hartung, o projeto educacional de tempo integral, batizado de “Escola Viva”, enfrenta resistência de professores e estudantes. Nesse novo modelo de ensino, o tempo de permanência do aluno na escola será ampliado e passa a oferecer, além das aulas no turno regular, atividades em diversas outras áreas no turno inverso.

A partir da década de 90, com a publicação do Estatuto da Criança e do Adolescente (1997) e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (1996), o Brasil passou a compreender a educação integral como resposta às muitas vulnerabilidades das crianças e adolescentes e possibilidade para o aprimoramento contínuo da qualidade da aprendizagem.

Segundo especialistas, a existência por si só desse turno inverso de estudos não resulta em educação integral. As atividades oferecidas precisam estar ligadas ao conteúdo regular para que possam desenvolver os alunos de forma completa, em sua totalidade. Muitas escolas brasileiras já oferecem a opção do período integral com resultados positivos, mas o projeto também gera desconfianças e incertezas.

Um dos riscos de implantação de escola em tempo integral é a concepção assistencialista do projeto, de suprir as carências sociais dos alunos, um alívio para os pais que trabalham o dia todo e não conseguem dar o suporte que os filhos precisam. A garantia de alimentação e o distanciamento dos perigos do lado de fora dos muros escolares são elementos que dão força ao projeto, principalmente nas periferias. O estado surge então, como resposta a essas necessidades já que mantém os estudantes com atividades enquanto os pais buscam o sustento das famílias.

Aqui no Espírito Santo, a proposta era aprovar o projeto para que as primeiras escolas em tempo integral já funcionassem no segundo semestre desse ano. A rapidez do governo assustou alunos, professores e até deputados. Depois das críticas, a Comissão de Cidadania da Assembleia Legislativa pediu vista à proposta. O secretário Estadual de Educação, Haroldo Rocha se reuniu com um grupo de estudantes para discutir melhorias no programa. Há criticas quanto a falta de um plano pedagógico mais consistente, além da logística com as atuais turmas de meio período nessas unidades e a infraestrutura das escolas que vão receber o projeto.

Pela proposta, entre as ações previstas estão o uso de mídias (televisão, jornal, rádio e revista) de forma articulada e a ampliação do currículo escolar com atividades nos campos da cidadania, ética, cultura e artes, esporte e lazer, direitos humanos, educação ambiental, inclusão digital, saúde, investigação científica, educação econômica e comunicação. Os estudantes receberão refeição e lanche.

Outra questão que deve ser discutida é a capacitação dos professores. Segundo o texto referência do Governo Federal, a implantação da Educação em tempo integral nas escolas “impõe também e principalmente projeto pedagógico, formação de seus agentes, infraestrutura e meios para sua implantação”. Estaria o corpo docente das escolas preparado para este novo modelo de ensino?

Também surgem críticas quanto à eliminação da possibilidade do jovem poder desempenhar atividades em programas sociais do governo, como o “Menor aprendiz’, ou estágios para os alunos que também fazem cursos técnicos. Segundo o secretário, Haroldo Rocha, em matéria publicada pelo portal G1-ES, o aluno terá autonomia para dizer se quer ou não participar do projeto.

É fato que todo novo projeto que vem na perspectiva de alterar um sistema causa desconforto, insegurança e incertezas. Professores terão seus horários alterados, outros necessitarão de capacitação para a nova realidade, novos poderão ser contratados. A abertura de turmas em tempo integral, numa perspectiva macro de ampliação do projeto, elimina turmas de meio período nessas escolas, o que pode causar remanejamento de alunos.

Inquestionável também que a integralidade do processo de educação irá criar hábitos de estudos, aprofundamento de conteúdos vivenciados no turno regular; desenvolver outras habilidades do aluno, possibilitar aos estudantes ambiente mais adequado e assistência necessária para a realização de suas tarefas; entre outras vantagens.

O que se precisa buscar com o projeto, mais do que ter o aluno por horas dentro das escolas, é uma educação integral. Toda a cidade deve ser o espaço educativo. É importante pensar também no tempo doméstico da criança, que precisa da convivência com a família para se desenvolver integralmente.

Para um aprendizado integral, deve-se considerar o investimento em outras políticas setoriais na sociedade, como cultura, esporte, assistência social e meio ambiente. A educação integral acontece quando está integrada a um projeto que vê a política social como um todo, deve prever as possibilidades de interação com a comunidade e com a cidade.

editor1

Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

Mais posts do autor

COMENTÁRIOS