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ECONOMIA BIOCENTRADA

Passagem do tempo é sempre momento para refletir sobre conquistas / equívocos no passado, e desafios e oportunidades para o futuro. Um momento ímpar de passagem do tempo – a mudança de milênio – foi vivido pela Igreja de Roma ao buscar em Levítico – principal estatuto de convívio entre seres vivente da tradição judaico-cristã – inspiração para a reflexão sobre a passagem do segundo para o terceiro milênio da era cristã.

A reflexão proposta em escala mundial foi a que indicava a necessidade do perdão da dívida dos países pobres. Inspirava-se na ideia de que a concentração de poder econômico leva ao empobrecimento da maioria da população, e o ano sabático deve ser o momento para realinhamento entre os que muito têm e os despossuídos.

No Brasil, a reflexão sobre a passagem do milênio ganhou força na medida em que a Constituição de 1988 já previa a auditoria da dívida e tinha no seu bojo o reconhecimento do direito à saúde, educação, seguridade social e meio ambiente como fundamental à dignidade das pessoas. Reconhecimento a partir de forte mobilização de segmentos da sociedade na construção de uma Carta Magna que buscasse conciliar crescimento econômico com sustentabilidade social e ambiental.

No Espírito Santo, o processo centrou-se na conscientização dos cristãos sobre os custos sociais de uma dívida financeira contraída através de processos pouco legítimos, inclusive nos anos da ditadura militar. Conscientização que começou com levantamentos junto às diversas comunidades sobre o quanto de dívida social existia.

Dívida social escancarada no baixo acesso da maioria da população a bens essenciais como alimentos e vestuário e a serviços básicos como educação, saúde, saneamento, transportes, dentre outros. Dívida social também a ser contabilizada pelo crescente processo de deterioração do meio ambiente, o que já colocava em risco direitos de gerações futuras.

Resultados objetivados dessa mobilização e conscientização podem ser questionados em função da baixa adesão ao processo por parte dos meios de comunicação de mercado e da baixa sensibilidade do governo da época, preocupado majoritariamente em ‘honrar a dívida’ contraída junto ao mercado financeiro. Apesar disso, o exercício feito de construção da consciência cristã baseada na necessidade de responder a necessidades da maioria da população e da Mãe Terra deve servir de inspiração no momento presente.

Inspiração para que a Igreja aja no sentido de identificar na crescente marginalização social e econômica de parcelas substanciais da população uma óbvia agressão aos preceitos cristãos. Inspiração para que a Igreja, junto à sua comunidade reunida em paróquias, ressalte a importância de cuidarmos do meio ambiente como forma de valorização da criação divina.

Criação divina presente em todos os seres viventes e que é crescentemente subordinada à lógica de mercado que a poucos beneficia e que cada vez mais pune os perdedores no jogo do individualismo exacerbado.

Explicitar o individualismo exacerbado e seus efeitos nocivos pode ser a mais nobre tarefa da Igreja comprometida com uma economia centrada na vida, biocentrada.

Arlindo Villaschi
Professor de Economia arlindo@villaschi.pro.br

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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