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“É fundamental que existam os políticos, que existam os partidos e que exista a política. O que não é fundamental é que existam políticos como os nossos, partidos como os nossos e política como a nossa.”

“É fundamental que existam os políticos, que existam os partidos e que exista a política. O que não é fundamental é que existam políticos como os nossos, partidos como os nossos e política como a nossa.”

A democracia clássica como a gente pretende supor que cultiva e segue, ou seja, um regime que se paute pelo respeito de diversidade de ideias, não pode prescindir de estruturas que organizem e agrupem ideias afins. Também não pode prescindir da prática desse confronto de ideias e de propostas, e não pode prescindir dos homens e mulheres que assumirão a tarefa de dar andamento à discussão e chegar aos consensos possíveis representando a maioria da população. O que são essas estruturas? São os partidos. O que são essas pessoas? São os políticos. E o que são essas práticas? É a política.

A democracia real é indissociável desses elementos. Mas no Brasil, historicamente, a gente vem sendo condicionado a um padrão de política, de exercício da política, de representação da política, de organização da política que criou uma percepção coletiva de que é assim. Quando a gente olha para muitos outros países onde as democracias se consolidaram, e isto não foi uma questão de tempo e sim uma questão de escolha, a gente vê que não é assim. Na Suécia os políticos andam em seus próprios carros, compartilham apartamentos coletivos, lavanderias coletivas. Na Noruega os políticos vão de metrô para o trabalho.

Esta ideia de que a política é um ambiente reservado a semideuses, a ideia de que aqueles que se dedicam a esta atividade estão num patamar acima do cidadão comum, e que os partidos estão fora do alcance da ética, da lei, do senso comum, é uma ideia produzida culturalmente nesse meio aqui no Brasil.

A população sabe que não é assim, mas é muito difícil uma população que tem baixo nível de escolaridade, demandas sociais terríveis e carências históricas, aprimorar sua capacidade de interferência no jogo político. É uma população mais manipulável e mais silenciável que outras populações. Aqui, o voto acaba sendo exercido a cada dois anos como uma mera formalidade cronológica, para legitimar a política que temos, os políticos que temos e os partidos que temos.

Isso ocorre porque todo o sistema foi sendo aprimorado por eles para assim perpetuar-se. Tenho a impressão de que não há o caminho para depurar isso, é um caminho que demanda tempo, é uma depuração que tem que acontecer dentro do jogo democrático, e como são eles que dominam esse jogo, vai demorar.

Entretanto, acredito que é um caminho irreversível. Hoje estamos em outro patamar de percepção coletiva, de percepção pública. O brasileiro nunca discutiu política com a intensidade que está discutindo e isso vai produzir algum tipo de fruto. A interconexão entre as pessoas tem possibilitado isso.

Acredito que o anacronismo de algumas figuras, de certas estruturas, de certas práticas está muito mais evidente hoje porque o que eles fazem aqui é muito rudimentar. Acredito que tudo isso esteja com os dias contados. Quantos dias serão não sei, espero que poucos.

Ricardo Boechat
Jornalista e apresentador 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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