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Dose exagerada

O mesmo remédio que cura pode causar sérias sequelas, diz a sabedoria milenar. Também na economia política se aplica a cautela necessária diante das causas e das circunstâncias dos principais males que a podem afetar. O bom funcionamento da economia depende de preços estáveis, contas públicas equilibradas, crescimento econômico e geração de emprego. Daí a preocupação em serem mantidas sob controle indicadores de inflação; equilíbrio fiscal; crescimento e emprego, respectivamente.

Como são essencialmente fenômeno social, as relações econômicas são impossíveis de serem sujeitas a experimentos em laboratório. Ajustes na inflação, em contas públicas, no crescimento e na geração de emprego – e em seus desdobramentos negativos – têm que ocorrer enquanto agentes sociais, políticos e econômicos agem segundo seus interesses específicos.

A complexidade socioeconômica precisa ser levada em consideração quando se decide priorizar um dos males da economia. A dose equivocada de atenção com o crescimento – no período JK com seus 50 anos em 5, por exemplo – pode deflagrar processos inflacionários nocivos à sustentabilidade do próprio crescimento. A busca exagerada do equilíbrio fiscal pode gerar instabilidade social e econômica que resulte em desequilíbrios tanto fiscal quanto na sociedade como um todo.

Ajustes promovidos às custas de gastos sociais essenciais – como saúde, educação, segurança – precisam ser evitados, como bem demonstram experiências recentes em países europeus. No caso brasileiro ajustar as contas públicas às custas de despesas – investimentos! – sociais, é equívoco, maior ainda à luz de passivos com sua gente, acumulados historicamente.

O governo do Espírito Santo claramente optou por priorizar o ajuste de suas contas – como se emprego e crescimento fossem irrelevantes – e arrumar as contas públicas através de cortes de gastos sociais. Cortes cujos resultados perversos em serviços essenciais já vinham sendo alertados por estudiosos da educação, saúde e segurança.

Alertas desconsiderados por autoridades na saga de tratar do mal que elegeram como maior. Os efeitos nocivos da dosagem exagerada do remédio sobre a educação e saúde foram minimizados com comunicação social manipuladora.

Manipulação insuficiente para encobrir sofrimento humano, esgarçamento social e perdas econômicas como consequência do sequestro ao qual está submetida a sociedade estadual. Resultado de alquimia equivocada que levou à indesejada debilidade social e política, em estado que se quer, de economia forte.

Que o triste experimento capixaba sirva de aprendizado para evitar equívocos sobre equilíbrio fiscal e suas nefastas consequências no plano nacional.

Arlindo Villaschi
Professor de Economia e Coordenador do Grupo de Pesquisa em Inovação e Desenvolvimento Capixaba da UFES

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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