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Dom Décio fala sobre planos para o futuro

Dom Décio Sossai Zandonade, bispo emérito da diocese de Colatina fala sobre seu novo momento, projetos futuros e sentimentos perante a situação atual.

vitória – O senhor já pediu a renúncia em 2010. Se fosse hoje ainda pediria?

Dom Décio – Talvez não. Há momentos muito difíceis. Como alguém mesmo já comentou comigo, bispo tem que ter duas coisas: carisma e báculo. Eu adoro estar presente, tenho um jeito humano de me relacionar. O outro lado é o báculo do governo. Eu nunca me senti bem para governar. Ou seja, hoje se exige paciência, visão ampla, determinação, e isso não é muito do meu feitio. Eu sou muito contemporizador, deixo as coisas passarem, pra ver se resolvem. No momento que pedi, tinha problemas internos, eu não sabia por onde caminhar e isso me pressionou. Havia também situações pessoais de saúde. Se eu estivesse no momento de hoje, talvez não pediria, porque me sinto bem. Mas, se o pedido foi feito e o Papa resolveu aceitar, é sinal que esse é o caminho que Deus quer para a Diocese de Colatina. Vou cuidar daquilo que a Providência Divina me inspirar.

vitória – A providência já inspirou alguma coisa?

Dom Décio – Eu sou como Dom Bosco, eu tento ser contemplativo na ação. Você tem que ter momentos de deserto, de retirada, para que depois você facilmente se coloque numa atitude contemplativa no cotidiano. O que o mundo de hoje precisa mais é disso.

vitória – Recentemente o senhor fez uma experiência de um retiro diferente pelas montanhas?

Dom Décio – É um pouco isso. Entrar em contato com a natureza, ter momentos de contemplação, de leitura orante. Mas não gostaria de viver isolado, acho que não é a minha vocação. Talvez isso se concentre melhor no projeto do Santuário Diocesano Nossa Senhora da Saúde, em Ibiraçu. Lá eu posso ter um lugar de contemplação e um lugar de atendimento. Junto com isso, tem o IESIS, Instituto Espírito Santo de Inovação Social. O seminário de Ibiraçu é um espaço que eu sempre vislumbrei como um espaço privilegiado da diocese, porque ele está colocado num centro estratégico.

vitória – O que se pensa em fazer lá?

Dom Décio – A estrutura já foi reformada, agora é tentar montar cursos, encontros, para a formação de lideranças com princípios cristãos e éticos, que possam transformar a sociedade. Eu queria focar minha vida nestes dois espaços, o espaço do Santuário Diocesano e o espaço do IESIS, no antigo seminário.

vitória – O senhor tramitou em várias áreas: comunicação, política, educação. Na relação Igreja/sociedade, onde a Igreja precisa atuar mais fortemente?

Dom Décio – Esse campo educativo eu acho que seria importante. Uma educação num sentido mais amplo, que privilegie os mais pobres, tente buscar estruturas de formação de valores com crianças pequenas. Depois, as escolas, a Pastoral da Educação não atua para que os professores possam realmente transmitir alguma coisa diferente para formar a sociedade. E a educação através dos meios de comunicação, que é outro grande desafio, porque tem a internet, esse mundo enorme onde estão as crianças e a juventude, nós estamos ausentes.

vitória – No início de nossa conversa o senhor falou que lhe agrada o relacionamento humano, mas o bispo também tem que gerenciar pessoas, projetos e processos e o senhor buscou ajuda para gerenciar a diocese. Como se dá a relação carisma/vocação e carisma/gerente?

Dom Décio – A minha dúvida foi sempre essa. Eu tentei fazer e há algumas análises exteriores de psicólogos que dizem que eu teria o perfil ideal para o bispo que o mundo precisa hoje. Ou seja, um jeito de escutar, esperar, de não tomar decisões repentinas. Mas isso me incomodava, eu acho que isso tem certo limite, eu acho que em certos momentos tem que haver decisões, decisões precisas, que dêem limites, orientação, que façam as coisas acontecerem. Eu procurei aqui encontrar um jeito de unir carisma e poder. Senti dificuldade. Mas, é claro, hoje o poder se expressa muito mais numa preparação bem feita de um projeto pastoral diocesano. E isso nós procuramos fazer, também com o auxílio de especialistas do SEBRAE, as equipes de planejamento de empresas, de tal maneira que as pessoas pudessem participar e sair um pouco dessa reclusão de um mundo puramente eclesial. Eu acho que, de fato, através do projeto diocesano de evangelização, a gente conseguiu fazer com que muitas coisas caminhassem e se estruturassem melhor. O poder acaba suscitando uma certa dimensão de “eu mando aqui”, “eu que mando, eu que sei” e não é isso. Hoje você tem que trabalhar muito a escuta, a observação, a riqueza do entorno. Hoje, o bispo tem que ser um bispo de muito relacionamento, de muita escuta, buscar assessoria, não tanto só interna, mas externa, para poder tomar decisões que sejam oportunas, na hora certa, com as características que o mundo de hoje precisa.

vitória – Durante as assessorias externas, em algum momento, o senhor teve que dizer “isso não pode ser feito na Igreja”? O que faz a diferença, onde está o limite da exigência de uma liderança da Igreja, de uma autoridade eclesiástica e de uma autoridade empresarial?

Dom Décio – A dimensão da caridade, a dimensão do amor, a dimensão do transcendente. O objetivo da empresa é alcançar o lucro, o sucesso e assim por diante. E tudo isso é que determina as decisões, se alguém se encaixa nisso, vai, se não encaixa, é retirado automaticamente. Na Igreja, não. O relacionamento com pessoas, com o mistério das pessoas, envolve um modo diferenciado de tratá-las, de esperar, de dialogar, de conversar. Se bem que isso também está sendo assumido por empresas hoje, o sistema dialógico, de escuta é muito mais forte. Na Igreja, aquilo que numa empresa se resolveria num toque, rapidamente se tomaria uma decisão, você tem que respeitar a pessoa, você tem que escutar, tem que informar, é uma série de desafios diferentes.

vitória – O senhor continua na diocese?

Dom Décio – Dom Wladimir (Lopes Dias) continua bispo auxiliar de Vitória, portanto, ele tem obrigações lá. Ele perguntou se eu podia ajudá-lo até chegar o outro bispo, mas depois que o bispo definitivo estiver aqui eu quero vivenciar realmente essa liberdade que me traz a renúncia. Até chegar lá, exerço a função de vigário geral da diocese, uma espécie de substituto do administrador apostólico.

vitória – E essa nova condição dentro da Cúria? Já entrou na sala errada?

Dom Décio – Não, desde o dia que eu renunciei deixei a sala. Lá é o bispo, é o administrador diocesano, é o administrador apostólico.

vitória – Qual foi o sentimento na hora que o Papa aceitou sua renúncia?

Dom Décio – Veio-me muito o sentimento de covardia. Então bateu aquela dúvida: “Você não está tendo uma atitude ‘covarde’, se acomodando a um projeto pessoal e não ao amor à Igreja como tal?”, mas uma mudança numa diocese também, eu acho que faz bem. Eu estou assimilando como uma graça de Deus. Não para mim só, mas uma graça de Deus para a Diocese de Colatina. Ela vai sentir que foi um momento de Deus, não foi um momento pessoal de Dom Décio.

vitória – O que o senhor diz nesse momento para a Diocese de Colatina e para a Igreja do Espírito Santo?

Dom Décio – Que esse jeito de ser da Diocese de Colatina continue fortalecendo as comunidades, voltar-se para os mais simples, multiplicar os ministérios para que a Igreja se torne mais presente nas grandes periferias urbanas. Continuar nesse caminho, tendo ousadia e coragem, como diz o Papa, “dar passos novos”. Eu não quero que a Diocese de Colatina volte para trás. Peço para o Espírito Santo, que suscite para a Igreja de Colatina, um bispo que seja o bispo do momento.

Para o Espírito Santo, nós precisamos compreender que temos essa peculiaridade diferente das outras Igrejas do Brasil e que talvez ainda não foi suficientemente valorizada. Temos que exportar esse rosto capixaba de ser Igreja, onde as quatro dioceses se irmanam, onde nós nos encontramos numa formação permanente e continuada, onde a gente tem que se aprofundar em nível de relação com o gerenciamento público, crescer nisso. O governo civil e o religioso precisam andar juntos.

vitória – Se o senhor pudesse resumir, definir quem é Dom Décio?

Dom Décio – É um homem que não tem características excepcionais, é um ser comum, é uma pessoa que não tem dificuldade de se relacionar, que não tem muita força decisória, mas fortalece a comunhão, é um alguém muito ligado à base das comunidades rurais, é alguém que cresceu formado na Escola Salesiana, portanto, do jeito de ser dos Salesianos, sobretudo, com a formação de Dom Bosco. Ele podia ser proposto como modelo de um padre diocesano, era criativo, experiente, comunicador, criador. Eu tentei procurar realizar em mim um pouco desse jeito de Dom Bosco, ser um homem de Deus. Mas, é claro, um cara ainda com muito limite no sentido de relacionamento com as pessoas e que pode crescer mais.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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