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Diante da cruz e do Ressuscitado

Ao longo de minha vida, que considero graça de Deus, tenho observado gestos e atitudes da piedade popular que muito me comovem e me fortalecem. Eu observava, especialmente na semana Santa, uma atitude do povo mais simples e de fé mais pura, o carinho e afeto manifestados diante do Corpo Morto de Jesus, na Sexta Feira Santa. Observei o mesmo carinho e lágrimas derramadas diante do Crucificado. São momentos profundamente comoventes que sempre me levaram e levam a meditar.

Não se trata apenas de sentimento solidário e compaixão por parte do fiel emocionado diante do Crucificado ou do Cristo Morto. Aliás, o sentimento de compaixão, na sua raiz, talvez seja o caminho de interpretação desta piedade popular. Compaixão! O fiel sofre com a pessoa do Crucificado. Mais do que isso, ele projeta o sofrimento que carrega diariamente em sua vida de luta e dissabores na pessoa do Cristo Morto ou do Crucificado.

Quantas vezes eu vi uma pessoa muito simples, com um barbante nas mãos, medindo o pescoço do Cristo Morto. Quantas vezes eu vi pessoas emocionadas tocando nas chagas do Crucificado.

Este fiel sofredor se faz um com Cristo sofredor e suplica-lhe forças, consolo, cura etc. Lava a sua alma diante do Sinal Sagrado de Amor total de Jesus Cristo. Amor porque Deus é Amor!
O fiel bebe desta Fonte Renovadora e volta para a sua casa, confortado e com coragem para vencer e carregar a sua cruz pesada de todos os dias.

Com essa atitude de compaixão, o fiel, sem ter estudado muito sobre teologia e sem ter recebido instruções esclarecedoras, vive uma parte fundamental de sua vocação cristã, o seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Do grande sacrifício ele participa com o seu pequeno sacrifício. Ele esgota as suas forças e suas lágrimas no esgotar do Sangue do Salvador. Tudo por Amor! Como a dizer-se: “A minha cruz na Cruz de Jesus!” Páscoa!

Outro gesto e atitude que vêm surgindo, atualmente, na piedade popular, nos artistas da iconografia, é a imagem do Cristo Ressuscitado. Tenho visto lindas imagens de Cristo Ressuscitado. A imaginação criadora dos artistas ajuda o fiel a abrir o seu coração para a esperança, a vida nova, o céu. É um sentimento de vitória, de alegria e de desejo profundo de felicidade, do céu! Muitas igrejas e capelas estão introduzindo a imagem do Cristo Ressuscitado no seu espaço orante. É um novo fenômeno da piedade popular que, de certa forma, revela a reflexão teológica do tempo de hoje que tenta manifestar nesta iconografia a sede e o desejo de Deus, consequentemente o desejo de felicidade.

Diante destes dois quadros surgem duas preocupações: primeiro a visão dos pastoralistas. Estes diziam que fixação no crucificado é exagerada porque nós cremos na Ressurreição da Carne. Tinha-se até certo sentido de frustração perante o povo simples e fiel que valorizava mais a sexta feira do que o Sábado Santo e domingo pascal.

No segundo quadro teme-se o exagero da outra parte também muito importante que é o fato da Ressurreição. A imagem do Ressuscitado não substitui a cruz na celebração da Sagrada Eucaristia. Esta atitude reflete a visão teológica da sociedade atual, tempo que não aceita a dor, a desilusão, a decepção, a Cruz. Neste contexto quer-se tirar os pregos e as chagas do crucificado e deter-se somente na representação do Cristo vitorioso.

São dois extremos que se completam, mas não se substituem. O Mistério Pascal é uno, é inseparável. A Sagrada Eucaristia traz no seu bojo a festa e a tragédia. A liberdade do artista tem seus limites quando se trata de expressar o mistério da fé. Seria deplorável acentuar separadamente o fato da ressurreição, ignorando a tragédia da cruz, assim como a cruz não tem fim em si mesma, mas transporta-nos para a ressurreição. Aqui os responsáveis pela construção de um templo devem estar atentos na correta representação do mistério celebrado. 

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