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Da rejeição à solidariedade: o desafio de um novo olhar para com os excluídos

Queria ter uma varinha mágica para fazer sumir os mendigos que dormem debaixo da marquise da minha loja”. Essa “pérola” saiu da boca de uma mulher que, dias atrás, viajava no mesmo avião que eu. “Não iam fazer falta para ninguém”! E para calar a boca dos famigerados “defensores dos direitos humanos” completou: “Quem se doer, pode sempre levá-los para casa e adotá-los”.

Comentários como estes são bastante comuns entre nós. “Marginais”, “vagabundos”, “lixo da sociedade”… são alguns dos termos que fazem parte do Dicionário da Exclusão. São frequentemente utilizados para apontar as pessoas que gostaríamos de colocar para fora do nosso convívio.

Recentemente foi realizado um vídeo para registrar as reações preconceituosas das pessoas. As imagens mostram uma criança bem arrumada aparentemente perdida numa rua bem frequentada. Todos ficam sensibilizados e intervêm para ajudá-la. A mesma criança, disfarçada de pobre entra num restaurante para pedir comida. A reação instintiva das pessoas é segurar as bolsas para se prevenir de um eventual roubo. Ninguém lhe oferece comida.

Podemos também lembrar as reações dos moradores quando o poder público ou uma entidade da sociedade civil organizada inventam de abrir um abrigo para a população de rua ou uma casa de acolhida para crianças e adolescentes, pior ainda quando o público desses serviços é constituído por egressos do sistema penitenciário e socioeducativo. Imediatamente há uma mobilização contrária da comunidade.

O preconceito não é uma exclusividade brasileira. Ameaça o mundo todo. Cuidado: a ideologia de mercado é perversa. É ela a responsável principal do processo de exclusão. Numa sociedade de mercado só tem espaço para clientes. Os únicos direitos humanos com direito de cidadania são os “direitos do consumidor”. Políticas públicas para garantir acesso universal aos direitos são desperdício de dinheiro público. Saúde, educação, esporte, lazer… são serviços que devem ser adquiridos para gerar lucro. É tudo isso que está gerando grandes massas de excluídos. A ideologia de mercado polui a opinião pública destilando o veneno da exclusão para garantir apoio a campanhas de limpeza social.

Inclusão, acolhida, partilha são algumas das posturas que não podem faltar na bagagem do cristão. A parábola do rico esbanjador (Lc 16,19-31), “anonimizado” pelo evangelista Lucas para dizer plasticamente que o ser humano que se tranca no egoísmo perde sua identidade e se despersonaliza, constitui uma denúncia de qualquer forma de exclusão. Ninguém sabe da história de vida do pobre que mora na porta da mansão do rico e sobrevive de migalhas que caem de sua mesa farta de supérfluo. Não sabemos se o processo de exclusão do qual foi vítima o levou também a se tornar “marginal’. O evangelista Lucas, porém, faz questão de dizer que se chamava Lázaro. Para Deus os excluídos têm nome. É de gente como Lázaro que Ele, preferencialmente, se faz próximo como o samaritano, apontando na solidariedade e na acolhida o caminho que garante ao ser humano uma vida em plenitude (Lc 10,25-37). Quem acolhe humaniza sua vida e torna mais humana a vida dos outros.

Pe. Saverio Paolillo (Pe. Xavier)
Missionário Comboniano – Centro de Direitos Humanos dom Oscar Romero 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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