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Cúmplices do Deus que quer bem

Eles cometeram crimes, foram condenados e cumprem penas. A família não sabe o que fazer. A sociedade tem medo e os quer bem longe. As vítimas querem que paguem pelo que fizeram. A Justiça os mantém isolados. Eles mesmos, na maioria dos casos, acham que merecem a punição, mas querem liberdade e a “própria vida de volta”, como disse um ex-presidiário com quem conversamos.

O olhar dos outros sobre eles depende da relação, da função, da posição, dos conceitos e experiência pessoal de quem olha. Mas eles, os encarcerados, são pessoas, são humanos e, além da família, alguns os olham como tal. Quem são essas pessoas e por que se preocupam com presidiários ou pessoas em conflito com a lei? O que os move e o que fazem? Como se organizam e se preparam para a tarefa de visitar presidiários?

De maneira geral, as pessoas que se envolvem em projetos e atividades de caráter social o fazem a partir da fé. Os cristãos têm como princípio de vida os ensinamentos de Jesus e buscam segui-los cada um com sua vocação e missão específica. No caso da Igreja Católica, a prática cristã do seguimento de Jesus acontece através das associações eclesiais, movimentos e pastorais. Os grupos se juntam em torno de questões sociais tendo em vista os dons pessoais e características para trabalhar com essas questões. No caso dos presidiários, quem os visita e os trata como pessoas, como humanos e como “filhos de Deus” é a pastoral carcerária.

Conversar com os agentes dessa pastoral traz elementos surpreendentes. Neusa Dias Castanha, coordenadora da pastoral na paróquia São Francisco, em Itapuã, Vila Velha, quando lhe perguntamos se não tem medo de entrar no presídio, respondeu: “não tenho medo. Sei que Deus chama e capacita. Sei que se eles estão lá é porque cometeram algo grave e têm que pagar pelos erros, mas quando a gente entra lá não vê um criminoso, vê um filho de Deus”.

É isso que faz a pastoral carcerária: acolhe o encarcerado como um humano que errou, precisa se recuperar e reintegrar à sociedade. Para isso os membros se preparam. Participam de formações onde “refletem sobre chamado, missão, espiritualidade da pastoral. Adquirem alguns conhecimentos sobre a legislação de assistência aos apenados, o papel da Igreja na assistência aos encarcerados, recomendações sobre os cuidados necessários para o desenvolvimento do trabalho (riscos e cuidados), esclarecimentos sobre o espaço geográfico do presídio que é bem diferente da comunidade eclesial e, como tal, tem regras que precisam ser respeitadas e ainda a conscientização de que eles estão representando a Igreja Católica dentro das unidades prisionais. Enfatizamos muito que eles cuidem de como se comportam, o zelo e o cuidado com tudo que eles levam e transmitem com suas palavras”, disse padre Carlos Pinto Barbosa, coordenador arquidiocesano da pastoral, que acrescentou: “tudo isso é necessário para que eles mesmos não sejam prejudicados e não prejudiquem o trabalho que fazem nas unidades que visitam”.

Em breve conversa com a Comissão Arquidiocesana, descobrimos que essas formações produzem o efeito desejado. O grupo é unânime quando se trata de visão do encarcerado: reconhecem que eles cometeram crimes, mas olham-nos como filhos de Deus. Seguem o que Jesus diz no Evangelho de São Mateus no capítulo 24: “estive preso e me visitaste” (Mt 25, 36). Sabem que a grande maioria dos presos quer recomeçar e comovem-se com as realidades. Neusa conta que no início a marcou muito o lado sofrido dos presos. A falta de água para beber e tomar banho, e um encarcerado que disse sonhar em comer pão com mortadela, fizeram com ela perdesse o sono durante uma semana, mas aos poucos foi aprendendo “a trabalhar os sentimentos e encontrou o equilíbrio para lidar com isso”, disse.

Os oito grupos que existem na Arquidiocese visitam as unidades de Tucum – CDP (Centro de Detenção Provisória) de Guarapari – Xuri (3 unidades)- Semiaberta em Vila Velha – CDP da Serra e Viana uma vez por semana. No caso do Presídio de Segurança Máxima no Xuri existem 4 galerias que são visitadas pela pastoral de Itapuã. A cada semana o grupo visita uma galeria entre 14h e 16h. Na chegada tem a visita cela por cela onde os agentes escutam os presos. Depois vem o momento da espiritualidade com cantos, leitura bíblica, pregação e oração a partir de tudo o que foi falado. “Eles cantam, pedem alguns cantos que eles gostam, rezam e confiam nos agentes da pastoral. Eu vivo minha fé lá dentro”, disse Neusa.

Para enfrentar o desafio da missão, os agentes fortalecem-se nas formações, nas reuniões de coordenação e principalmente na oração. “Somos pessoas de oração e missa diária. Toda quarta-feira pela manhã participamos da missa juntos e de tarde vamos para a unidade juntos com a fraternidade O Caminho (grupo religioso que segue o carisma franciscano e tem comunidade na paróquia São Francisco)”, disse Neusa falando em nome do grupo, Maria José, Joaquim e Maristela.

Nas visitas os agentes não perguntam o que os presos fizeram, mas escutam os sofrimentos, o arrependimento, percebem quando eles são tocados pela Palavra de Deus e pelo testemunho dos agentes e dizem que a maioria deseja mudar e apenas uma pequena minoria é indiferente. “Quando estamos ali vemos pessoas que sofrem, que não souberam amar ou não foram amadas, vemos a fragilidade humana. Por isso eu entro no presídio como se estivesse em casa, sigo as orientações, mas entro em paz”.

Para entrar na pastoral a pessoa é convidada. No caso de Neusa aceitou no terceiro convite. Precisa sentir o chamado de Deus e querer exercer sua prática de fé junto a esses necessitados. Além disso, algumas características são apontadas por padre Carlos: 1. A pessoa precisa ter discernimento sobre o que vai falar e a postura dentro da unidade. 2. Deve estar aberta para esse chamado de Deus. Os agentes precisam saber que não estão ali para julgar ninguém. Não importa o que os encarcerados fizeram, o que importa é que ali tem uma pessoa humana que precisa ser orientada, conduzida e observada. 3. É necessário ter envolvimento eclesial. Não basta querer fazer parte da pastoral carcerária, tem que se sentir parte do grupo e pertença à Igreja e de preferência participar do dia a dia da sua comunidade eclesial.

O que move os agentes da pastoral carcerária é o amor ao próximo. Amar a Deus e ao próximo é a fundamentação cristã que parte das instruções de Jesus aos apóstolos, que conviveram com Ele, e aos discípulos, que organizaram as primeiras comunidades. Amar a Deus e ao próximo tornou-se quase um refrão e serve para identificar quem são os seguidores responsáveis por manter vivo, ao longo da história, o espírito cristão. Na Bíblia as referências à prática amorosa de Jesus são inúmeras: “amar a Deus e ao próximo” (Lc 18,18) “fazer o bem” (Lc 10,25-37) “amar os inimigos” (Lc 6,27) “perdoar sem limites” (Mt 18,21).

O cristianismo tem sua identidade na capacidade de amar, de acolher, de perdoar. “Existe cristianismo quando Jesus está vivo na teoria e na prática da comunidade”, como disse Hans Küng, teólogo suíço, que disse também: “se disser sim a Jesus tem que dizer sim à identificação com os mais fracos, excluídos e explorados. Se disser sim a Jesus tem que ser cúmplice do Deus que quer o bem do homem, até do inimigo”, afirma o teólogo.

O cristão reconhece-se e tem sua identidade na capacidade de amar, acolher e perdoar, mesmo que o outro seja alguém que cometeu crimes e precise pagar por eles.
Como acolher? Como perdoar? Como amar? Respostas que a pastoral carcerária já encontrou e que escritas nesta edição de dezembro traduzem o mistério de Deus que se faz humano para salvar a humanidade.

O RECOMEÇO

Uma saiu da depressão ao sentir-se acolhida na instituição, outro diz já estar aceitando e se adaptando. A preocupação maior das pessoas que cumprem a pena prestando serviço social é com o emprego. Temem não conseguir ou manter-se nele, quando carregam a marca “condenado”. Quando são acolhidos por uma instituição isso faz toda a diferença. Algumas empresas abrem suas portas para que condenados em liberdade possam cumprir pena prestando serviços à comunidade e para que encarcerados do semiaberto possam trabalhar durante o dia. Dessa forma, auxiliam no processo de ressocialização de internos e ex-detentos do sistema prisional, oferecendo a todos a oportunidade de recomeçarem suas vidas com dignidade e, assim, contribuir para uma sociedade mais justa e segura.

Ouvimos dois condenados que prestam serviço à comunidade. Ambos falam do bem que lhes fez serem bem recebidos.

“Quando terminar vou passar aqui para visitar e tenho até vontade de ajudar. Quem sabe fazer uns marmitex para quem precisar”, disse J. “Eu gostaria de trabalhar com pessoas especiais, sempre tive paixão. Tenho vontade de ajudar aquela pessoa que não pode sequer pedir um copo de água e você ali tendo dois braços e duas pernas e podendo ajudar o próximo, eu acho isso muito bacana”, afirmou A.

SELO SOCIAL

A paróquia Bom Pastor de Campo Grande, Cariacica recebeu do Governo do Estado o selo social ‘Ressocialização pelo Trabalho’. Um dos requisitos para o recebimento e manutenção é ter empregado, nos seis meses anteriores, cinco presos condenados no regime semiaberto (trabalho externo) e/ou dez presos que trabalhem internamente, no mínimo.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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