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Coração na Mente e Mente no Coração

O mês de junho é, no mundo católico, um mês devocional. Ao escrever isto receio estar criando um mal estar para muitos irmãos intelectuais da espiritualidade cristã. Não toleram o devocionismo católico de nosso povo mais humilde e, eu diria, não só os humildes, mas também irmãos da classe média e alta. Nosso povo gosta de devoções. A piedade popular é profundamente devocional. As procissões em louvor aos santos são atos religiosos, festas que expressam a gratidão ou as súplicas confiantes de tanta gente sofrida, gestos religiosos muito presentes em nosso meio.

Só no mês de Junho a Igreja celebra, na Sagrada Liturgia, santos que se tornaram populares motivados pela ação pastoral dos evangelizadores da cultura ibérica que se enriqueceu com a religiosidade afro-brasileira, as festas em homenagem a São Pedro, São João Batista, Santo Antonio. Cada santo com sua característica atribuída pela piedade popular. Estas festas são chamadas pelo folclore brasileiro de “Festas juninas”. Neste mesmo mês tomou vulto especial também na piedade popular a Festa do Sagrado Coração de Jesus. Além do canto da ladainha coroa-se a imagem do Coração de Jesus seguindo o mesmo costume em relação à piedade mariana.

A autenticidade da piedade popular emociona-me ao perceber os corações humildes unidos a Deus de uma maneira tão bonita, simples e verdadeira que se faz notar nos olhos, nos cânticos, nas danças, como nas lágrimas de alegria e esperança nos corações orantes do povo fiel. E, para tristeza dos desgostosos com tantas devoções, sinto que vivemos um tempo de retomada devocional. Talvez porque houve certo impedimento no passado, não muito remoto, das expressões devocionais por parte de certos “pastoralistas”.

Minha vocação surgiu num meio totalmente devocional. Uma vocação do coração, dos olhos que via o belo das cores litúrgicas, das festas religiosas, das fumaças dos turíbulos movidos pelos coroinhas muito bem vestidos com suas batinas e sobrepelizes, com bandeiras das Associações religiosas e músicas do coração. Todo o ambiente de piedade popular gerava uma emoção profunda nas celebrações da Semana Santa como também na alegria das festas juninas.

A devoção da piedade popular expressa, por assim dizer, a alma da fé. Expressa o mistério da fé no coração. O jeito humano de expressar o diálogo com o Divino, com o Transcendente, nos olhos e na voz. Nas cores, na luz e nas trevas, na respiração quase ofegante e no coração a bater que sente e se maravilha.

Já jovem estudante sentia-me emocionado ao ver as senhoras e senhores sofridos diante da imagem do Cristo Morto ou Crucificado. Diante da imagem de nossa Senhora das Dores ou de outra imagem da mãe de Jesus e nossa querida mãe. Para aquela senhora ou senhor com seu filhinho ao lado, tocar na fita presa aos pés da imagem do santo era estabelecer um encontro do coração ao coração, entre o devoto e o santo através daquela imagem. A devoção é um gesto humano de reverência e confiança.

É evidente, que a piedade popular, sempre terá necessidade da orientação dos educadores da fé para que se evitem desvios sentimentais que obscurecem a autenticidade do gesto amoroso do simples fiel. Sempre deve prevalecer o equilíbrio emocional e verdadeiro na expressão da fé. A oração não deve ser puro sentimento, mas deve comportar uma racionalidade. Nem tanto o mero e puro sentimento e nem tanto a oração puramente cerebral.

A Sagrada Liturgia, nos seus símbolos e sinais, ajuda-nos no equilíbrio de uma expressão da fé com coração e razão, somados para glória do Senhor. O mês de junho, tão importante para a piedade popular, deve manter este equilíbrio, seja na devoção alegre aos santos Pedro, João Batista e Santo Antônio bem como ao Sagrado Coração de Jesus, síntese do Amor Misericordioso do Pai das misericórdias.

Em suma, estas festas tão queridas do nosso povo são expressões da vitória da Páscoa. O cristão faz a experiência da dor, mas não permanece na dor porque a alegria da Páscoa é o que prevalece: as lágrimas serão enxutas e a dor desaparecerá.
Devotos com o coração e conscientes da Verdade que nos liberta. Fé e razão não se separam porque a pessoa humana só será humana na sua totalidade e integração, com Deus no olhar, na voz, no coração e na mente. Coração na Mente e Mente no Coração!

Dom Luiz Mancilha Vilela, ss.cc.
Arcebispo de Vitória ES

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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