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Contrastes na educação

Reportagem

Eles são jovens com idades entre 15 e 29 anos e fazem parte das estatísticas que mostram as contradições, os avanços e, principalmente, o tamanho de uma das dívidas sociais do Brasil: a educação.

As notícias apontam em todas as direções. Também quando o assunto é educação os contrastes prevalecem e suscitam a pergunta: é possível coexistirem realidades tão diversas no mesmo território? É possível o Estado do Espírito Santo apresentar avanços significativos como os que ouvimos de alunos que participaram ou participam do Programa Ciências sem Fronteiras e, ao mesmo tempo, o INEP apontar o aumento do número de jovens em idade escolar que não estudam e não trabalham? Sim, as contradições coexistem, afirma a professora da UFES, Marlene Cararo. “É isso, é preciso olhar sempre essa tensão, esses contrastes que de fato existem. Nós temos escolas excelentes e escolas precárias”, disse a professora que nos levou pela história da educação no Brasil a partir da década de 70 para nos apresentar as causas dessa realidade e mostrar que há avanços e que estes tendem a crescer.

Considerando os jovens entre as idades de 15 a 29 anos o Instituto Jones dos Santos Neves analisa o seguinte quadro referente a dados de 2013: 84,6% dos jovens entre 15 e 17 anos de idade frequentavam a escola. É um número considerável, mas isso significa que 29.705 jovens nessa faixa etária estavam fora da escola. Já a faixa que deveria cursar o ensino superior, entre 18 e 24 anos, apenas 28% frequentava a escola e, a faixa etária de 25 a 29 que teoricamente deveria estar inserida no mercado de trabalho, 8,9% ainda frequentavam a escola. Outro dado alarmante é 39.994 jovens serem considerados analfabetos funcionais, ou seja, conseguem identificar letras e números, mas não são capazes de interpretar e compreender textos simples.

Paralelamente a estes dados que apontam a fragilidade e o quanto a educação para os jovens precisa caminhar, conversamos com outros que participaram ou participam do Ciência sem Fronteiras, programa do Governo Federal que oferta bolsas de estudo no exterior a graduandos, mestrandos, doutorandos e alunos de cursos superiores tecnólogos, para incentivar a formação acadêmica, o intercâmbio e a pesquisa científica. Para eles, a iniciativa ajudou, tanto no conhecimento nas áreas de estudo respectivas, na experiência com faculdades de outros países, no despertar para pesquisas, no confronto de realidades, quanto no crescimento humano e social.

Para Camila Albani que retornou ao Brasil no final de agosto, depois de um ano e dois meses na Sheffield Hallam University, na Inglaterra, a fluência no idioma, o contato com disciplinas que não constam na grade escolar brasileira, o acesso a softwares e equipamentos que não conhecia, além do aprendizado na convivência, foram a maior riqueza. Ela sugere que haja uma cobrança maior aos bolsistas durante a experiência e que o grupo de brasileiros possa morar com pessoas que falam outros idiomas para obrigar a praticar a língua local.

Das expectativas que levou, uma não foi concretizada na universidade, a de fazer novas amizades, pois as turmas com quem conviveu estavam nos últimos anos e os grupos já fechados entre si, mas compensou esse lado participando do grupo de jovens e da catequese na paróquia St Marie’s Cathedral onde foi surpreendida, por acreditar que ali encontraria apenas pessoas idosas.

Camila diz que ela e sua família não teriam condições de assumir as despesas para essa experiência e afirmou que a bolsa foi suficiente para suprir todas as suas necessidades. Já a mãe de Ully Moreno, que estudou na West Virginia University, nos Estados Unidos, e voltou decidida a se envolver nas pesquisas da universidade onde estuda no Brasil, diz que incentivou a filha a participar, mas que o programa não é feito para pessoas de renda muito baixa. “É um programa muito mais para classe média. Eu justifico esta opinião com os valores que tivemos que desembolsar. A prova de proficiência (TOEFEL) é paga, o passaporte e visto americano de estudante precisa ser pago com cartão de crédito internacional”, afirmou Andressa Moreno. Mãe e filha apontaram como negativo o atraso no pagamento da bolsa em alguns momentos, mas consideram que foi uma ótima experiência que será muito útil para a profissão e o contato com a estrutura acadêmica e os professores uma riqueza e oportunidade incrível.

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Os incentivos do Governo Federal para estimular e alavancar a educação surgem tardiamente, assim como a própria legislação que regulamenta a gratuidade e obrigatoriedade da escola para alunos de 7 a 14 anos. “Apenas em 1971, paradoxalmente durante a ditadura militar, a escola pública passou a ser gratuita e obrigatória para o ensino fundamental de 7 a 14 anos, ampliando para setores populares. Imagine isso após 471 anos! O governo fez a legislação, mas não tinha estrutura para atender a todos, não havia prédios escolares para absorver esse contingente de milhões de pessoas que estavam fora da escola, sendo boa parte da classe mais pobre da população”, afirma Marlene. Outro problema apontado é a formação de professores e metodologia de ensino. “Não tinha prédios, não tinha professores, não tinha materiais didáticos, bibliotecas, livros, merenda e, sobretudo, não tivemos metodologias adequadas para lidar com essa população que passou a vir para a escola. A escola lidava bem com a população anterior, famílias de classe média. E começou a vir aquela criança de classes mais populares, pobres, o muito pobre possivelmente não veio, a nossa opinião, é que estes só vieram agora com o bolsa família”. Com uma legislação falha e sem fiscalização, os índices de evasão, reprovação e repetência nesta época chegavam a 40%.

Os anos passaram, os problemas estruturais, de formação, acesso e aprendizagem tiveram pouco progresso e outras questões surgiram, como a violência e o neoliberalismo em âmbito internacional, que propõe o Estado mínimo, “em um momento em que a gente ainda precisava estar investindo muito na educação básica”, segundo Marlene. De acordo com ela, os governos da década de 90 se empenharam em segurar esses jovens na escola, e então, o Bolsa Escola foi um progresso, nesse sentido, pois conseguiu manter na escola, juntamente com as determinações da Lei de Diretrizes Básicas da Educação, 97% das crianças e adolescentes em idade escolar: “o Governo percebeu que se não houvesse um estímulo para manter essa criança na escola não conseguiríamos avançar”.

O Plano Nacional de Educação (PNE) estabeleceu em 2010 como terceira meta universalizar, até 2016, o atendimento escolar para toda a população de 15 a 17 anos, até 2020, a taxa liquida de matrículas no ensino médio para 85% nesta faixa etária. No Espírito Santo, em 2013, esse número era de 55,1%

Já no início do ano 2000, mesmo com a permanência dos alunos na escola, a reprovação nas últimas séries continuou alta e estudos constatavam a não aquisição da aprendizagem e do conhecimento. Modificam-se as políticas de educação e junto à obrigatoriedade e gratuidade introduzem-se as escolas em tempo integral, com o programa Mais Educação, e o Bolsa Família, que vai permitir não só o aluno na escola com controles mais rigorosos, mas também a articulação da educação com o desenvolvimento de outras áreas sociais. Para Marlene, “a junção dos dois programas tem conseguido avanços importantíssimos para que a criança fique na escola e aprenda”.

Aos poucos outros projetos como o Luz para todos, Pronatec, Minha Casa Minha Vida, foram dando sustentação a esse aluno que passou a ter uma condição melhor. A intersetorialidade das ações, conforme afirma a professora, tenta minimizar os contrastes da educação no país. Porém, pelo pouco tempo em que estão em vigor, Marlene disse que não pode avaliar se essas ações serão capazes de levar o aluno que está na escola devido à Bolsa Família, a participar, no ensino superior, do Ciência sem Fronteiras. “Se nós conseguirmos, dentro dos limites de um país capitalista investir mais em educação, e nós precisamos disso, já está previsto em lei, nós conseguiremos resolver tudo? Possivelmente, não a curto prazo”.

Investir no ensino superior, dar oportunidades aos estudantes para descobrirem e ampliarem conhecimentos e manter contato com sistemas educacionais competitivos, conforme afirma Ully, pode transformar o estudante em protagonista na própria escola. “O programa possibilita ao aluno participar de pesquisas nas universidades do exterior para que voltem mais qualificados e com interesse de continuar ou desenvolver projetos no Brasil”, ou seja, é uma aposta para que esses jovens se tornem multiplicadores de conhecimentos no país.

Dificuldades apontadas pela professora Marlene Cararo para o problema da educação no país:
 Tamanho territorial
 Quantitativo de alunos
 Formação de professores
 Construções adequadas que atendam as necessidades e sejam atrativas
 Formação inicial em muitos cursos de licenciatura ainda precários e aligeirados
 Políticas de educação que sejam abrangentes e integradoras
 Acúmulo de recursos e de tarefas na União
 Salários dos professores
 Formação adequada para a realidade atual

A educação apresenta desafios, contradições, contrastes de um mesmo país que diz ter como prioridade a educação, mas carrega uma dívida enorme nessa área. Incentivos, leis, normas, metas, e o ideal continua distante, mas como nos disse a professora, existem dois jeitos de encarar a situação que podem ser percebidos em duas manchetes: 1- O Brasil é 58º no PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) e está entre os piores. 2- O Brasil fica em 58º e foi o que mais avançou em matemática, saindo dos 356 em 2003 e chegando aos 391 pontos em 2012, segundo os dados divulgados em dezembro de 2013. “Eu prefiro a última, apesar de reconhecer que ainda estamos em 58º”. Será que podemos criar outra manchete, professora? 3- No Espírito Santo, mais de 300 mil jovens frequentam a escola pública, porém quase 40 mil são analfabetos funcionais. Sim os contrastes coexistem.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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